A campanha da Argentina rumo à final da Copa do Mundo em 1990 acabou sendo determinada por um infeliz acaso. Durante a partida contra a União Soviética, na segunda rodada da fase de grupos, Nery Pumpido sofreu uma séria lesão. Titular na conquista do Mundial de 1986, o goleiro do Betis quebrou a perna ao se chocar com o companheiro Julio Olarticoechea. Em seu lugar, entrou Sergio Goycochea – reserva de Pumpido nos tempos de River Plate e então no Millonarios. Inativo nos meses anteriores, Goyco não inspirava confiança. Ainda assim, tornou-se protagonista daquela Copa, especialmente pelos pênaltis defendidos. Hoje, não se reconta aquela trajetória sem mencionar o “tapa penales”. E, às vésperas de mais um Mundial, o acaso volta a rondar a Albiceleste. Nesta terça, a federação informou que Sergio Romero não irá à Rússia. O arqueiro sofreu um bloqueio articular no joelho direito.

A trajetória de Romero, às avessas, se assemelha à de Goycochea. Um goleiro que nunca foi exatamente confiável, mas se tornou titular absoluto na Argentina por escolha técnica ou falta de concorrentes mais fortes em certos momentos. A afirmação na Copa do Mundo de 2014, afinal, dependeu também do “tapa penales”, importante para que a Albiceleste chegasse a mais uma final. Todavia, ainda que fosse mantido por Jorge Sampaoli, Romero era um dos nomes mais questionados. Não apenas pelos costumeiros deslizes, mas também por vir com pouco ritmo de jogo, titular do Manchester United apenas em ocasiões esparsas. E a infelicidade do camisa 1, por fim, poderá ser a chance para que os argentinos ganhem um arqueiro mais seguro: Franco Armani.

Em teoria, Willy Caballero está acima na hierarquia de Jorge Sampaoli. O veterano foi convocado anteriormente e ganhou suas oportunidades na última Data Fifa – bem contra a Itália e inútil no massacre da Espanha. Todavia, as indagações sobre o medalhão são parecidas às que atingiam Romero. Não vem sendo titular do Chelsea, exceto em algumas raras aparições. E não é o goleiro mais confiável, embora os serviços prestados nos últimos anos, desde seu reconhecimento no Málaga, deponham a favor. Armani chegou apenas de última hora, sob pressão popular, mas com uma sequência irrefutável de grandes atuações com o River Plate.

É até difícil explicar os motivos que levaram Armani a ser ignorado durante tanto tempo pela seleção argentina. O fato de nunca ter jogado por um grande do país quando saiu, rumo ao Atlético Nacional, indica a sua falta de cartaz. Foram anos em alto nível em Medellín, carregando os Verdolagas ao período mais vitorioso de sua história, especialmente pelos milagres operados ao longo da Copa Libertadores de 2016. Mas, ainda que arqueiros em atividade no México fossem observados, o melhor da posição na América do Sul nunca era chamado. Até que, por fim, veio ao River Plate em busca da Copa do Mundo. Dá até para discutir a ausência na Data Fifa de março, considerando os poucos jogos em Núñez. Logo depois, seu momento esplendoroso se tornou evidente, especialmente na conquista da Supercopa contra o Boca, na Libertadores e no clássico ante o Racing pelo Campeonato Argentino. Neste ano, não há outro camisa 1 no país melhor que o millonario.

Ainda concentrado com o River Plate, aguardando o jogo contra o Flamengo para se apresentar a Sampaoli, Armani terá que se impor também na preparação da seleção argentina. Os treinamentos estão para isso, ainda mais em um cenário aberto. Será a brecha para que o arqueiro mostre os seus vários predicados – o bom posicionamento, o tempo de reação, as excelentes saídas do gol. Por linhas tortas, a Albiceleste poderá contar com um time melhor no Mundial, tendo sua meta protegida por aquele que mostra com frequência o goleiro mais seguro à disposição.

PS: O escolhido para substituir Romero é Nahuel Guzmán, do Tigres. Não é uma surpresa, considerando o espaço que o rosarino tinha na seleção, geralmente o terceiro goleiro antes da ascensão de Armani, e que era o quarto nome na lista preliminar. Não deixa de haver, de qualquer maneira, uma certa discussão quanto a Agustín Marchesín ou Gerónimo Rulli. Detalhe é que o pai de Guzmán havia desancado publicamente Sampaoli pela ausência de seu filho entre os 23, entrave este que não interferiu no chamado.


Os comentários estão desativados.