O presidente da Fifa, Gianni Infantino, teve o seu nome envolvido no Panamá Papers, que está sendo considerado o maior vazamento de documentos da história. Se você não sabe o que é, o Gizmodo explicou direitinho. Desde os primeiros vazamentos, surgiram nomes de gente ligada à Fifa e ao futebol. O que apareceu nesta terça-feira gerou as maiores repercussões: Gianni Infantino, eleito em fevereiro presidente da Fifa e ex-secretário-geral da Uefa.

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Segundo os documentos, Infantino assinou um documento que vende direitos de transmissão da Champions League para a Cross Trading, uma das milhares de empresas offshore geridas pela empresa Mossack Fonseca. A Cross Trading é sediada em Niue, país na Oceania que é um paraíso fiscal, e que tem como acionistas os argentinos Hugo Jinkis e seu filho, Mariano. Os dois eram também executivos e donos da Full Play Group, empresas que negociava direitos de transmissão de torneios de futebol em toda América Latina e também Estados Unidos.

A Full Play foi uma participante ativa no escândalo do Fifagate. Hugo e Mariano Jinkis participaram de diversas operações que envolvem propina, suborno e direitos de transmissão de diversas competições na América Latina, entre elas a Copa Libertadores, a Copa América e a Copa Ouro.

Nós mostramos, em matéria de 28 de maio de 2015, como o escândalo Fifagate pode abrir a caixa preta da Libertadores na TV. A revelação do envolvimento dos dois executivos, atualmente em prisão domiciliar na Argentina, no Panamá Papers, mostra que ainda há muito o que explorar nas atividades ilegais envolvendo futebol.

Com as revelações do Panamá Papers, a polícia da Suíça fez buscas na sede da Uefa, em Nyon, para averiguar em detalhes os contratos de direitos de TV assinados pelo agora presidente da Fifa, Gianni Infantino, depois do vazamento das informações no Panamá Papers.

Segundo o promotor-geral da Suíça, a busca nesta quarta-feira foi “motivada pela suspeita de má gestão criminosa” relativa à venda de direitos de TV, mas “nenhum indivíduo específico é algo dos procedimentos”.

Ainda segundo o promotor-geral, foram feitas buscas em outro local e as autoridades já estavam investigando a venda de direitos de transmissão antes dos detalhes informados pelo Panamá Papers.

“A suspeita é baseada nos resultados de investifações que emergiram de outros procedimentos, assim como as análises financeiras correspondentes feitas pela promotoria-geral. As atuais publicações da imprensa [do Panamá Papers] posteriormente revelaram ainda outros elementos que tornaram possível usar as descobertas de maneira decisiva”, diz o comunicado da promotoria-geral suíça.

Segundo os documentos da Mossack Fonseca, o contrato de 2006 é de venda dos direitos de transmissão da Champions League para o Equador. A Cross Trading, empresa dos argentinos, comprou os direitos de transmissão para aquele país por US$ 111 mil. Em seguida, os negociou com a Teleamazonas por US$ 311.170, levantando suspeitas sobre o negócio. Os direitos eram relativos às temporadas 2006/07 até 2008/09.

A Uefa havia afirmado inicialmente no escândalo do Fifagate que não tinha feito negócios com nenhum dos 14 indiciados pelo FBI, no escândalo que explodiu em maio de 2015. Depois de revisão completa de milhares de contratos comerciais, a entidade admitiu que o negócio foi feito como parte de um “concurso público”, um processo que foi conduzido pela Team Marketing em nome da Uefa. E os direitos de transmissão foram vendidos À proposta mais alta.

A Team é uma empresa de marketing parceira da Uefa, que faz a comercialização dos direitos de transmissão dos torneios da entidade. O contrato revelado pela Mossack Fonseca é entre a Cross Trading e a Team, como representante da Uefa. O nome de Gianni Infantino aparece como diretor de serviços legais no contrato.

“Nem a Team ou a Uefa tinham qualquer razão para acreditar que havia qualquer coisa suspeito ou nocivo sobre uma relação de agência entre a Cross Trading e a Teleamazonas”, diz o comunicado emitido pela Uefa.

“No momento que a Uefa inicialmente respondeu aos pedidos da imprensa [sobre relação com os indiciados], ainda não tinha tido a oportunidade de revisar os (milhares) de acordos comerciais que fechou ao longo dos anos, então a informação inicial dada estava imprecisa e incompleta”, continua o comunicado.

“A Uefa se desculpa por esta omissão. Não há, repetimos, absolutamente nada nessa história que poderia, de qualquer maneira possível, servir para minar a integridade da Uefa e de Gianni Infantino”, conclui a nota, nesta quarta.

Ainda de acordo com o comunicado da Uefa, os acordos paralelos entre a Teleamazonas e a Cross Trading são “negócios deles, não nossos”. Mais do que isso, a entidade se disse tranquila quanto ao acordo: “Nós sabemos que esta foi a melhor oferta para os direitos de transmissão de TV aberta no Equador. E foi por isso que aceitamos”.

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Infantino se defende

Também em comunicado, Gianni Infantino disse que a sua determinação em restaurar a reputação do futebol, se já era forte, “está ainda mais forte”. Diz ainda que ele vê com bons olhos qualquer investigação conduzida sobre a questão. “Por uma questão de transparência e clareza, é essencial que todos os elementos deste processo sejam divulgados, como a Uefa tem feito”, diz a nota do presidente da Fifa.

“Baseado nestes documentos, está claro que todas as questões contratuais foram conduzidas apropriadamente pela Uefa”, diz Infantino. “Se eu for requisitado para contribuir em trazer clarificação sobre a questão, é claro que eu farei isso com prazer”, continua. “É do meu interesse e do interesse do futebol que tudo deve vir à luz”.

Por enquanto, é prematuro para sabermos a profundidade do envolvimento da Team, Uefa e de Infantino com as empresas que, sabemos, fizeram negócios altamente suspeitos e com seus donos indiciados por lavagem de dinheiro, crimes financeiros e fiscais, além de suborno.

Tanto a participação da Uefa quanto a de Infantino ainda estão distantes, embora levantem muitas suspeitas. O que sabemos é que esse deve ser só o começo. Há muito o que ser investigado e muitas relações suspeitas a serem esclarecidas. Os Panamá Papers estão ajudando a colocar ainda mais luz em relações obscuras que o Fifagate começou a mostrar. E, aparentemente, é só a ponta do iceberg.