Gianni Infantino foi reeleito sem qualquer oposição para um segundo mandato de presidente da Fifa nesta quarta-feira, em Congresso Anual da Fifa. Ele foi o herdeiro do cargo depois do escândalo que chacoalhou a entidade, o Fifagate. Foi no desenrolar daquelas denúncias que o então presidente reeleito no meio de 2015, Joseph Blatter, acabou renunciando e, mais tarde, foi banido do futebol por seis anos. Em 2016, em eleição, Infantino acabou sendo o vencedor de uma disputa com outros quatro concorrentes. Passados três anos, a sua gestão tem altos e baixos.

O Fifagate mudou o rumo da Fifa. O escândalo chacoalhou demais a entidade e foi por consequência dela que Joseph Blatter não conseguiu manter o seu mandato, como gostaria. Ele se reelegeu em 2015 para um quinto mandato, depois de ter vencido em 1998, 2002, 2007, 2011 e 2015. A pressão do Fifagate o tirou do cargo e, mais do que isso, tirou também da corrida o favorito, Michel Platini, em um rolo justamente com Blatter.

Sem Platini, a Uefa parecia querer algum representante e Gianni Infantino se tornou esse cara. Secretário-executivo da Uefa, ele era o homem forte da entidade, o braço direito de Michel Platini nos anos de comando do francês – o que levou o seu ex-chefe a acusá-lo de traição. Recentemente, Platini foi muito crítico a Infantino e à sua política à frente da Fifa. Antes, Infantino também tinha trabalhado com o Lennart Johansson, que morreu nesta terça-feira.

Sem concorrência, Infantino segue à frente da Fifa e trouxe um discurso de recuperação. “Eu acho que o mínimo que podemos dizer é que demos a volta na situação”, afirmou o presidente no seu discurso de vitória. “Em três anos e quatro meses, esta organização foi de ser tóxica, quase criminosa, a se tornar o que deveria ser: uma organização que desenvolve futebol, uma organização que se preocupa com o futebol”.

Prestes a ver a abertura da Copa do Mundo Feminina, nesta sexta, Infantino ressaltou o sucesso da Copa 2018. “Nós disseram que a Rússia era um país violento, racista, burocrático, mas nós vimos totalmente o oposto”, afirmou o dirigente, que foi honrado pelo presidente Vladimir Putin na Rússia. A Copa transcorreu de fato bem, como em 2014 também correu muito bem no Brasil, melhor do que o esperado. Não quer dizer que o país não tenha esses problemas. Nem que as críticas ao país – seja a Rússia, em 2018, seja o Brasil em 2014 ou qualquer sede anterior – não fossem justas.

O fato de não ter concorrentes na eleição é levanta mais dúvidas sobre a capacidade da administração do futebol de se reformular, se tornar mais democrática e acessível. A transparência ainda está distante do que deveria e parece seguir como um clube de poucos. Segundo Tariq Panja, do New York Times, apenas uma eleição teve mais de um concorrente nas seis confederações de futebol que compõem a Fifa.

A gestão Infantino tem alguns altos e baixos. Por um lado, pressionado pelo escândalo Fifagate e a forma como Rússia e Catar venceram as disputas para sediarem a Copa, a Fifa criou várias novas regras, incluindo respeito aos direitos humanos, além de mudar as exigências da Fifa para o país-sede, a partir da escolha da sede de 2026. Foi uma mudança de paradigma: em vez de países com cheques em brancos, a ideia passou a ser um país com infraestruturas prontas ou ao menos mais adiantadas, tanto de transporte e treinamento, quanto os estádios. Este foi um mérito da gestão Infantino.

Outro ponto positivo foi, finalmente, a implantação do Video Assistant Referee, o popular VAR. Como o nome diz, é um Árbitro Assistente de Vídeo, e não árbitro de vídeo, como se repetiu tantas vezes. O uso do VAR é um avanço, o que não significa que o processo foi todo certo. Foi bastante apressado, pensando em ser usado na Copa do Mundo e sabendo que isso teria um impacto grande. Foi meio a trancos e barrancos, como foi também em outras partes do mundo. Mais do que isso, é preciso aprimorar o VAR, em termos de protocolo e principalmente em termos de treinamento dos árbitros para isso. Foi um bom passo, mas é preciso melhorar bastante para se tornar mais fluido e mais preciso também, já que alguns casos ainda são bastante controversos.

Há muitos pontos questionáveis também na gestão Infantino. Um dos maiores é a tentativa do dirigente de fazer com que aceitassem uma proposta de US$ 25 bilhões de um conglomerado que incluía o Soft Bank, do Japão, e mais investidores da Arábia Saudita. A proposta seria de controlar tanto a parte de games quanto de merchandising da Fifa, além de dois novos torneios. Um seria a Copa do Mundo de Clubes com 24 clubes e a cada quatro anos. Outro seria uma espécie de Liga Mundial de seleções, um torneio a cada dois anos.

A proposta causou muita rejeição no mundo do futebol. A Uefa foi a principal opositora. Aleksander Ceferin, presidente da Uefa, chegou a falar em “Mercantilismo cínico e implacável”. Esse foi só um dos episódios controversos. O outro envolveu o fim da força-tarefa contra o racismo, em 2016. O aumento de casos de racismo no futebol desde então acaba sendo uma consequência também disso: a falta de uma política preventiva e educativa a respeito do assunto. A Fifa deu de ombros para o racismo.

O aumento da premiação da Copa do Mundo Feminina foi um avanço. O problema é que em vez de diminuir a distância para a Copa do Mundo Masculina, foi o contrário: aumentou. Ou seja, uma medida que é boa, por um lado, mostra também o quanto ainda precisa ser feito e o quanto a Fifa ainda não consegue valorizar suficientemente o futebol feminino para que a diferença diminua.

Por fim, há o caso Catar. A Copa 2022 é muito controversa e polêmica e foi um dos motivos para que o Fifagate acontecesse. O que se esperava com a gestão de Infantino é uma fiscalização maior em relação ao torneio, tanto quanto à corrupção, quanto a direitos humanos que são constantemente desrespeitados no país. Não foi o que vimos.

Ainda que as melhoras tenham acontecido em termos de processos, o que a Fifa pareceu fazer em relação ao Catar foi olhar para o outro lado. E em alguns casos, defender mesmo. Parece querer que ninguém olhe para isso, assumiu o controle da Copa ao criar uma empresa conjunta para administrar a competição junto ao Comitê Supremo, de organização local.

Isso tudo sem falar no aumento de 32 para 48 seleções na Copa do Mundo. Aqui, porém, temos que lembrar que era uma promessa de campanha, o que significa que boa parte das federações, a grande maioria, quer exatamente isso. Mas na comunidade do futebol, é um assunto tem uma reação bastante controversa.

O que Infantino tem feito na Fifa suscita muitas dúvidas. Há pontos positivos, mas há muito o que se desconfiar, muito mais do que para confiar. Como sempre, continuaremos a fiscalizar, de perto, o que a Fifa faz. E o que deixar de fazer também.