Poucas vezes tivemos uma festa com tamanhos discursos engajados quanto o desta edição 2019 do Fifa The Best. Tivemos discursos importantes e necessários de Gianni Infantino, presidente da Fifa, sobre os casos de racismo na Itália, que chamou de inaceitáveis, fez promessas sobre o futebol feminino e comentou também sobre o caso de mulheres serem proibidas de entrarem nos estádios no Irã. Falas muito importantes do dirigente máximo da entidade que dirige o futebol, mas é preciso ir além das belas palavras e transformar em ações.

Infantino foi chamado ao palco para entregar o prêmio de melhor jogador do futebol masculino. Antes, porém, decidiu falar sobre os constantes casos de racismo, citando o que aconteceu no fim de semana na partida entre Atalanta e Fiorentina, quando o jogo foi paralisado. Nascido na Suíça, mas filho de imigrantes italianos, Infantino fez um discurso forte contra o preconceito.

“Aqui na Itália, meu país, ontem, de novo, testemunhamos no Campeonato Italiano um episódio de racismo. Isso não é mais aceitável, temos que dizer isso. Temos que dizer não ao racismo, em qualquer forma: no futebol, na sociedade. Mas não temos apenas que dizer isso. Temos que lutar contra ele, temos que expulsar o racismo de uma vez por todas, na Itália e no resto do mundo. Expulsar do futebol e da sociedade”.

Depois de entregar o prêmio a Lionel Messi como o melhor jogador do futebol masculino, Infantino foi novamente chamado pelos apresentadores para entregar a premiação de melhora jogadora do futebol feminino. Antes, porém, ele usou o espaço para falar do futebol feminino e do quanto a Copa do Mundo foi importante neste ano de 2019. Mais do que isso: prometeu mais investimento e mais competições femininas.

“Nós tivemos uma fantástica Copa do Mundo na França neste verão, a melhor de todos os tempos. Uma Copa do Mundo que marcou o mundo todo. Como você disse antes, mais de um bilhão de pessoas assistiram no mundo, mais de um milhão de expectadores na França. O mundo na verdade descobriu que o futebol feminino não é futebol feminino, é futebol. É futebol jogado por atletas, com habilidades técnicas, físicas, games jogados com paixão, com coração e que faz todos nossos corações baterem também”, afirmou o presidente da Fifa.

“Então, eu estou muito, muito feliz com o que aconteceu no último verão. Acredite em mim, este verão marca um ponto de virada no futebol feminino. Nós iremos fazer ele brilhar no mais alto nível, nós iremos investir, nós iremos criar novas competições, a Liga das Nações, e nós iremos garantir que o futebol feminino esteja lado a lado com o futebol masculino em todos os diferentes níveis”, disse Infantino.

Infantino seguiu para falar sobre mais uma questão séria: o caso de Sahar Khodayari, 29 anos, que ateou fogo em si mesmo como protesto depois de ser presa por tentar entrar no Estádio Azadi para assistir a um jogo do Esteghlal. Há uma pressão para que a Fifa tome uma atitude, já que é um tipo de proibição que viola os direitos das mulheres – portanto, direitos humanos. E o presidente deu o que parecem ser boas notícias.

“Mas falando nisso, já que eu estou com o microfone, falando sobre mulheres, e mulheres no futebol, me deixe mencionar mais uma coisa, por favor. Nesta noite, nós temos aqui também o técnico e o diretor técnico da seleção feminina do Irã. Então, há futebol feminino no Irã. E há um problema também, que é as mulheres não serem permitidas de irem assistir jogos do futebol masculino no Irã”, declarou o dirigente.

“Nós estamos ativos a esse respeito, nós temos recebido garantias das autoridades, da federação de futebol do Irã que isso irá mudar e irá mudar no próximo jogo das Eliminatórias da seleção do Irã no dia 10 de outubro. Então, então ansiosos para isso, iremos olhar para isso, o mundo irá colocar os olhos no Irã e olhar as mulheres entrando em estádios no Irã para jogos de futebol. Muito obrigado”, concluiu o dirigente.

O Irã vai a campo no dia 10 de outubro diante do Camboja, pelas Eliminatórias da Copa, rumo ao Catar 2022. Os olhos do mundo estarão voltados para o país asiático, que promete, como disse o presidente da Fifa, que as mulheres receberão autorização para verem jogos do futebol masculino. É um bom primeiro passo, mas é preciso fiscalização. O Irã já concedeu autorizações temporárias antes e tudo voltou ao que era. Na Copa do Mundo de 2018, o governo iraniano – que, é bom lembrar, não preza pela democracia – permitiu que as mulheres entrassem em estádios para assistirem jogos da seleção do país em telões.

A Fifa precisará monitorar de perto a situação para garantir que as mulheres possam ver não só os jogos da seleção iraniana no país, mas qualquer jogo de futebol. Porque se voltar a acontecer proibição, como vimos após a Copa do Mundo, será preciso medidas mais drásticas, inclusive com punição esportiva, expulsando o Irã das Eliminatórias da Copa. O governo iraniano, sabendo que o mundo estaria de olho, usou a entrada de mulheres como golpe de marketing. Desta vez, é preciso que seja efetivo e que haja avanço real. E é aí que cobraremos ainda mais que a Fifa se posicione e aja, e não só fique no discurso do seu presidente.

Vale o mesmo no caso do racismo. É preciso que a Fifa comece a agir de forma mais efetiva e mais dura contra clubes e seleções que estiverem envolvidas em episódios de atos racistas de suas torcidas. Enquanto não houver pressão e ação efetiva, o discurso será apenas um punhado de belas palavras.

Por fim, a Fifa promete investimento no futebol feminino e mais competições. É preciso monitorar para que a Fifa realmente aja nesse sentido e haja investimento efetivo, e não apenas uma parcela ínfima do que é o masculino. Como órgão que administra o futebol mundial, é responsabilidade da Fifa investir mais onde o futebol mais precisa, sejam países periféricos sem grandes condições econômicas, seja em categorias de base, seja no futebol feminino, que, claramente, tem muita demanda tanto de jogadores quanto de público. Por isso, as palavras podem ser animadoras, mas muito melhor será ver o discurso de Gianni Infantino transformado em ações efetivas.