Infantino é a face da renovação da Fifa que, ao mesmo tempo, mantém o status quo

Novo presidente difere de Blatter ao parecer mais próximo de dialogar com clubes, mas dá sequência aà linhagem de europeus no poder

Com o desafio de resgatar a imagem danificada pelos escândalos de corrupção do ano passado, Gianni Infantino foi eleito o presidente da Fifa nesta sexta-feira, sucedendo o conterrâneo Joseph Blatter, que esteve por 18 anos no cargo máximo do futebol. A expectativa de mudanças significativas recaía sobre cada um dos candidatos à presidência, e com o ítalo-suíço não é diferente, mas sua origem, seu passado político e a forma como entrou para o pleito indicam que a vitória de Infantino pode ser também a vitória do velho modelo.

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Ex-secretário-geral da Uefa, Gianni Infantino foi indicado para concorrer à presidência da Fifa como um plano B da entidade europeia, que viu seu candidato inicial, Michel Platini, ex-presidente da confederação, forçado a deixar as atividades relacionadas ao futebol diante de uma investigação da Justiça americana sobre um pagamento recebido pelo francês de Joseph Blatter, também suspenso do esporte.

Nesta quinta-feira, véspera da eleição, a expectativa era de que o Sheik Salman Ibrahim Al-Khalifa fosse o vencedor, segundo a Associated Press. A agência de notícias afirmava que, em conversas com fontes internas, a informação era de que pesquisas prévias apontavam um maior apoio a Salman, sobretudo de países da Ásia e da África, dois continentes com muitos representantes, e é isso que torna a vitória de Infantino surpreendente.

Após a indefinição no primeiro turno de votações, a eleição foi para um segundo turno. Esta foi a primeira vez que uma eleição de presidente da Fifa precisou de um segundo turno desde o pleito de 1974, entre João Havelange e Stanley Rous, algo emblemático para entender como a entidade vinha funcionando nas últimas décadas. No segundo turno, Infantino, com 115 votos, derrotou o Sheik Salman (88 votos), o príncipe Ali Bin Al-Hussein (quatro votos) e o francês Jérôme Champagne (nenhum voto). O empresário sul-africano Tokyo Sexwale desistiu da eleição minutos antes de seu início, apesar de um período extensivo de campanha.

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As principais propostas

A proposta mais ousada (e repercutida ) de Infantino para vencer a eleição foi a de aumentar o número de participantes na Copa do Mundo, de 32 para 40 equipes. Além disso, sua ideia é que a competição seja disputada não em apenas um país, mas em toda uma região ou continente. Esse tipo de proposição não é nova na vida política do ítalo-suíço, já que, como secretário-geral da Uefa, ao lado de Platini, esteve por trás do aumento de seleções na Eurocopa, que, em 2020 terá 24 seleções e será disputada em 13 países diferentes. No caso específico de sua candidatura à presidência da Fifa, a proposta, é claro, visava principalmente angariar votos dos pequenos, já que o apoio de europeus e sul-americanos, os mais representados pela chapa de Infantino, estava garantido.

Além da Copa do Mundo com 40 seleções, improvável de acontecer antes da edição de 2026, já que a edição no Catar acontecerá em tempo reduzido por causa das fortes temperaturas do país, Infantino tem outra importante proposta que deve ter tido seu peso no convencimento dos votantes: uma distribuição cíclica extra de dinheiro a todas as 209 federação ligadas ao órgão máximo do futebol. A ideia seria dar US$ 5 milhões a cada quatro anos para cada federação para o desenvolvimento do futebol, além de US$ 40 milhões para cada uma das seis confederações continentais, no mesmo intervalo de tempo. Uma medida que, segundo sua plataforma, custaria US$ 1,2 bilhão dos US$ 5,5 bilhões de receitas da Fifa, mas que seus opositores já classificaram como arriscada financeiramente.

Infantino ainda é um defensor de debates e testes cada vez mais frequentes pela introdução de mais tecnologias no futebol para o auxílio da arbitragem, evitando erros. “A Fifa deve começar um debate aberto com todas as partes interessadas sobre um maior uso de tecnologia no esporte. As propostas devem ser completamente testadas, e o potencial impacto no ritmo do jogo deve ser estudado detalhadamente. Por fim, a avaliação disso deve ser objetiva, baseada nos melhores interesses do futebol”, dizia trecho de seu manifesto.

A diferença fundamental com Blatter

A escolha por Infantino representa uma vitória do futebol europeu e sul-americano, uma manutenção do status quo quando se pensa na tradição. O ítalo-suíço é o nono presidente da história da Fifa, o oitavo europeu. A única exceção foi o brasileiro João Havelange. Mais do que essa manutenção, sua eleição pode representar uma acentuação da força dos europeus no cenário mundial. Joseph Blatter, embora suíço, nunca foi um representante do futebol europeu. Pegou o fio de articulação de Havelange, a grande massa de países de pouco representatividade no futebol mundial, costurou acordos e tinha com eles o seu compromisso. Infantino, por outro lado, não se elegeu desta maneira, esta era a linha do Sheik Salman, e seu compromisso deverá ser maior com os clubes europeus do que jamais aconteceu com Blatter.

Olhando pelo lado otimista, sua vitória pode representar o avanço de uma conversa com os clubes, reconhecendo sua força e importância na atual conjuntura do futebol mundial, que, com o antecessor não houve. A Fifa passou os últimos tempos ignorando o crescimento de protagonismo dos clubes no futebol mundial e a necessidade de se discutir com eles possíveis mudanças em calendários, e Infantino, que há pouco falava em nome dos times europeus, insatisfeitos com questões de datas, principalmente pode ser essa ponte.