Nem só do péssimas administrações e equipes muito fracas se alimentam os rebaixamentos. Clubes que fazem relativamente bem seu trabalho com o que têm às vezes são fadados à queda por situações inerentes ao esporte. O Goiás de 1998 tinha talento suficiente para fugir do Z-4 e terminar em uma posição de meio de tabela. Esse talento apenas ainda não estava maduro o suficiente. Os detalhes, que não escolhem lado, apenas interferem indistintamente na vida dos clubes, também não estavam a favor do Esmeraldino naquele ano. Uma derrota pontual aqui, uma goleada sofrida ali, um gol nos instantes finais do campeonato, e o Goiás acabou rebaixado. Uma queda que pareceu injusta ao torcedor, mas que foi parte importante da história construída a partir daquele momento pelo clube, como o título da Série B do ano seguinte, representado na foto que abre a matéria.

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Após fazer campanha histórica e chegar às semifinais no Brasileirão de 1996, o Goiás bateu na trave do rebaixamento no ano seguinte. A briga para fugir do Z-4 naquele ano foi bastante acirrada, com apenas três pontos separando o 17º colocado Corinthians, com 29 pontos, do primeiro rebaixado, o Bahia, 23º, com 26. O Goiás escapou por apenas dois pontos. Após ser goleado pelo Cruzeiro na 20ª rodada, recuperou-se na reta final, vencendo Portuguesa e União São João, além de arrancar um empate milagroso contra o Palmeiras, no Palestra Itália, com dois gols do lateral Marquinhos Caruaru nos minutos finais, após estar perdendo por 3 a 1. A derrota para o Corinthians na rodada final acabou não fazendo diferença, já que Bahia e Criciúma apenas empataram seus jogos e fecharam o Z-4.

Como a campanha irregular em 1997 ajudou a evidenciar, a supremacia estadual do Esmeraldino não mudava sua situação na elite. Pentacampeão goiano entre 1996 e 2000, foi só a partir da campanha na Série B de 1999 que o time conseguiu melhor desempenho em Campeonatos Brasileiros. Mas 1998 ainda era o ano de sofrer com a juventude de seus jogadores, o azar e as bolas na trave.

Para o comando do time, o Goiás foi atrás de Gílson Nunes. O treinador havia levado o Juventude ao mata-mata do Brasileirão em 1997, e a expectativa era que, com ele, o Esmeraldino tivesse vida mais tranquila que no ano anterior. Em 1998, a história no Goiano manteve-se a mesma, com o título em cima do Vila Nova, após três jogos equilibrados, com vitória por 1 a 0 no primeiro deles e empates no restante. O início no Brasileirão, senão de grande otimismo, era ao menos tranquilo. O pontapé inicial teve triunfo sobre o Vitória no Barradão, e a primeira derrota veio apenas na quinta rodada, contra o Paraná. Um revés que pesaria muito no final, mas depois chegamos lá. Após seis jogos, a equipe que contava boas peças no ataque havia vencido dois de seus confrontos, empatado três e perdido apenas para os paranaenses. Foi então que veio um golpe importante à campanha daquele ano. A viagem a Porto Alegre, para enfrentar o Inter, seria o ponto de virada de um time que não tinha a maior experiência do mundo para lidar com uma goleada por 6 a 1.

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Guiado por Christian, seu grande destaque naquele Brasileirão, o Internacional atropelou o Goiás, em um jogo que começou equilibrado, mas que teve o Colorado impondo sua superioridade na segunda etapa. Depois de 2 a 0 no primeiro tempo, Aloísio Chulapa até diminuiu a desvantagem logo após o intervalo, mas Christian, que já havia marcado no primeiro tempo, fez mais dois, viu seu companheiro de ataque Fernando fazer outros dois, e ajudou o time a chegar aos 6 a 1. Por pior que tenha sido o placar, aquela derrota não parava por ali. Teve consequências nas três rodadas seguintes, em que o Esmeraldino acabou superado por Coritiba, América Mineiro e Atlético Paranaense, emplacando sua pior sequência na competição e despencando para a zona de rebaixamento.

O time do Goiás era desequilibrado. Contava com várias boas opções no ataque, mas tinha uma defesa frágil. E mesmo essas boas alternativas ofensivas tinham um defeito: pouca rodagem. Fernandão e Araújo tinham, respectivamente, apenas 20 e 21 anos. Dill, Alex Dias e Aloísio Chulapa, com alguns anos a mais, eram um pouco mais experientes, mas ainda não assim não estavam no ápice. No meio de campo, Josué era apenas um garoto de 19 anos. Todos chegaram a se desenvolver e ter maior destaque no futebol brasileiro, mas maior parte era jovem demais àquela altura, e essa juventude pode ajudar a entender a queda, especialmente após a goleada sofrida no Beira-Rio.

Houve também problemas na montagem do elenco para aquele ano, e o maior símbolo disso foi Célio Silva. O zagueiro chegou a peso de ouro do Corinthians. Depois de quatro anos no clube paulista e com algumas passagens pela seleção brasileira, foi contratado recebendo muito mais que o restante do elenco. Tinha status à época. No ano anterior, quase havia se tornado o primeiro brasileiro a defender o Manchester United. Alex Ferguson queria contar com o jogador, que só não acertou por problemas para conseguir um visto de trabalho, em um momento de regras bem mais rígidas da Federação Inglesa. No Goiás, no entanto, fracassou, deixando o time no ano seguinte para jogar pelo Flamengo. Não fazia sentido manter um jogador tão caro para a disputa da Série B. “Célio Silva foi muito mal, muito mesmo. Um dinheiro precioso que foi torrado. Ficou sendo o símbolo do fracasso daquele ano. Sempre tivemos esse problema aqui, quando chega alguém estrela demais. Foi assim com o Petkovic em 2007 e Fernandão em 2009″, se recorda Elder Dias, colunista de Goiás no ESPNFC.

Entre Taffarel e Cafú, Célio Silva disputou o Torneio da França de 1997
Entre Taffarel e Cafú, Célio Silva disputou o Torneio da França de 1997

Além desses elementos, outro fator importante para a queda – e que na verdade é recorrente em outros clubes que vão à segundona – foi o azar. Aquele Brasileirão de 1998 ficou gravado na mente dos torcedores esmeraldinos como o campeonato do travessão. Principalmente com Fernandão, especialista em fazer tudo certo, mas ter o azar de ver a bola parar na trave. E o que dizer então do Paraná, o primeiro algoz do time no campeonato? Depois da invencibilidade nas quatro primeiras rodadas, o Goiás sofreu contra os paranistas sua primeira derrota. O 1 a 0 definido com gol de Arinélson, aos 43 do segundo tempo, teria um peso enorme, já que foi justamente o Paraná que “empurrou” o time para a segundona, vencendo o Flamengo na última rodada por 2 a 1 e escapando na primeira posição fora do Z-4, com dois pontos a mais que o Goiás.

O Esmeraldino teve momentos bons no campeonato, e um deles em especial foi uma ótima oportunidade de sair da espiral de resultados negativos que se seguiu após a goleada sofrida para o Inter. A sete rodadas do fim da fase de pontos corridos da competição, o Goiás foi até o Pacaembu enfrentar o Corinthians, que viria a ser o campeão. Após sair perdendo por 2 a 0, gols de Edílson e Marcelinho Carioca, o time visitante conseguiu uma reação impressionante através dos pés de Araújo. Dois gols do atacante, o último deles aos 47 do segundo tempo, fecharam o jogo em 2 a 2. Uma grande retomada que não se converteu em combustível para os jogos derradeiros. Na sequência, três derrotas, para São Paulo, Ponte Preta e Atlético Mineiro, e a equipe já estava novamente com a ameaça do rebaixamento bastante real.

Embora a seguir tenha apenas empatado com o Juventude em 2 a 2 e perdido para o Santos por 3 a 1, o Goiás ainda chegou à última rodada com chances reais de se salvar da degola. Mais uma vez, e de maneira mais explícita, a baixa idade do elenco e o inerente azar dos rebaixados tiveram seu papel. No Serra Dourada, o Esmeraldino recebeu o Vasco e esteve duas vezes à frente no placar, mas concedeu o empate em ambas, a última delas a mais dolorida. O gol fatal saiu aos 48 minutos da etapa final, com Luizão decretando o empate por 2 a 2. Resultado que rebaixou os goianos e salvou o Paraná, apenas dois pontos à frente.

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Aquele elenco teria sua redenção nos anos seguintes. Com a manutenção de Silvio Criciúma, Marquinhos, Túlio, Josué, Fernandão, Dill e Araújo, e o reforço ao setor defensivo, com as chegadas de Harlei, Neném, Álvaro e Marabá, o desequilíbrio do ano anterior se transformou em estabilidade entre as posições, inclusive com o reforço no meio de campo com a chegada de outro jogador icônico: Danilo, hoje no Corinthians.

Venceu a Série B de 1999, primeiro título nacional do time e fez uma ótima temporada no retorno à elite, em 2000. Terminou na 10ª colocação, tendo um dos maiores destaques no campeonato. Dill, que já havia sido o artilheiro do Goiano com 29 gols, fez mais 20 no Brasileirão, liderando o quesito ao lado de Romário e Magno Alves. No fim das contas, a queda por detalhes em 1998 ajudou a moldar o time dos anos seguintes e a dar experiência a atletas que fizeram seu nome no Goiás na primeira metade da década passada, e depois levaram o nome do clube e seu caráter de garimpador de talentos a todos os cantos.