O Manchester City era o favorito no duelo pelas oitavas de final da Champions League. A equipe de Pep Guardiola vinha de uma boa vitória na primeira partida, apresentava um futebol mais consistente desde a retomada das competições e possui um elenco mais completo. Mesmo assim, esperava-se um pouco mais do Real Madrid nesta sexta-feira. O time de Zinedine Zidane não se aproximou da virada necessária. O revés demonstra como, apesar da arrancada impressionante na reta final de La Liga, o trabalho de renovação ainda pode levar um tempo – apesar de bons indícios anteriores.

As circunstâncias também pesaram contra o Real Madrid. A suspensão de Sergio Ramos, sem dúvidas, prejudicou a defesa e tirou as perspectivas de classificação dos merengues. A infelicidade de Raphaël Varane em dois lances foi outro ponto crucial – e imprevisível. Além do mais, os madridistas pareceram numa intensidade abaixo do Manchester City, não apenas pelo próprio estilo das equipes, mas também por falta de ritmo. A pausa maior em relação ao final do Campeonato Espanhol pareceu ter influenciado e vários jogadores estavam bem menos ligados do que deveriam para uma ocasião deste peso.

O Real Madrid teve claras dificuldades na saída de bola. O Manchester City apertava e os merengues não conseguiam construir seu jogo com qualidade. A questão não era apenas dos homens de defesa, mas o próprio meio-campo não funcionou com dinamismo e a trinca experiente esteve abaixo do que poderia – sobretudo Casemiro e Luka Modric. Atrás, apenas Ferland Mendy mereceu um pouco mais de elogios, e mais por seu papel na contenção. Isso, é claro, além de Thibaut Courtois – o principal responsável por manter a sobrevida das esperanças.

Já na frente, enquanto a escolha por Eden Hazard se provou uma completa lástima, Rodrygo se responsabilizou pelos lampejos dos merengues. Um cruzamento perfeito Karim Benzema guardou, no outro não pegou em cheio na bola. De novo o setor ofensivo dependeu demais da inspiração do francês, o melhor em campo, por sua movimentação e também pelas tentativas. Mas foram mais esboços que uma pressão efetiva dos visitantes, quando necessitavam de mais.

Questionar a escalação depois do jogo é cômodo e fácil, mas a impressão é de que outras escolhas poderiam ser feitas. Federico Valverde daria mais energia ao meio-campo, enquanto Eden Hazard provou que a melhora da forma física não significou a recuperação da forma técnica. E as mexidas também não surtiram muito efeito. Primeiro veio Marco Asensio, no lugar de Rodrygo. Depois, um caminhão de mudanças somente para os dez minutos finais, e sem confiar na imprevisibilidade de Vinícius Júnior, com Lucas Vázquez à frente na lista de preferências. Zidane não soube sair das armadilhas de Guardiola e foi mal em suas mexidas ao longo da noite.

Neste momento, o Real Madrid é uma mescla de antigas bandeiras e jogadores com potencial. Há um caminho para se renovar, mas a conquista do Campeonato Espanhol esteve na dependência de alguns dos jogadores mais renomados. Numa ocasião como a Champions, os merengues não tiveram a grandeza de se impor como em outros momentos. Pela primeira vez, Zidane caiu num mata-mata continental. E isso indica como há um processo pela frente – que não corresponde somente à falta que um ou dois jogadores acabam por fazer.

Difícil imaginar que um Cristiano Ronaldo pudesse resolver, diante da forma como o Real Madrid jogou. Muito menos um Gareth Bale, que preferiu jogar golfe e acaba sendo tratado com comodismo pelo clube, quando no momento representa a perda de um dinheiro que serviria para trazer outras peças importantes. Mas há uma lacuna aí, entre no que é um bom time, suficiente para faturar uma La Liga disputada em nível mais baixo, e a potência continental de outrora. Vai muito de Zidane conseguir fazer evoluir seus prodígios e extrair de jogadores que podem render mais. Vai também de evoluir um coletivo que se acertou na defesa, mas precisa de bem mais que Benzema no ataque.

A eliminação não é passível de grandes críticas ao Real Madrid, embora sempre se cobre muito do clube. O time perdeu a um adversário superior, que teve mais bola desde o primeiro jogo. E a maneira como aconteceram os gols também atenuam o peso de uma análise mais catastrófica contra os merengues. De qualquer maneira, faltou força. E não parece que apenas a presença de Sergio Ramos, ou acertos de Varane, ou a boa forma de Hazard, elevariam uma equipe em reconstrução ao nível de um dos melhores da Europa.