Sem surpresa alguma, a Uefa indiciou o Celtic por causa das ações de sua torcida no último compromisso pela Liga Europa. Durante o encontro com a Lazio, os torcedores alviverdes manifestaram de diferentes maneiras seu repúdio aos ultras biancocelesti e às ideologias fascistas. No entanto, a entidade continental colocou ambas as equipes na mira de seu comitê disciplinar – também pelas saudações nazistas feitas por italianos em Glasgow. Os dois clubes foram acusadas de realizar “cânticos ilícitos”, enquanto os escoceses também podem ser punidos por “faixas ilícitas”. E, antes mesmo que o veredito saia em 21 de novembro, os ultras do Celtic se anteciparam para realizar uma ação ao redor do episódio.

Nesta semana, a torcida do Celtic lançou uma campanha para arrecadar fundos. Contudo, os alviverdes não desejam pagar a multa imposta pela Uefa. Eles querem juntar um valor superior ao da provável pena, para doar a iniciativas de caridade. A vaquinha tem o sugestivo nome de “Futebol Contra o Racismo” e pretende direcionar o dinheiro a duas organizações que atendem refugiados: a Baobab Exprience, que fica em Roma, e a Scottish Action for Refugees, em Glasgow.

Principal organizada do Celtic, a Green Brigade diz que está fazendo isso para “promover a tolerância e a inclusão”, além de se contrapor à posição da Uefa quanto às suas manifestações. A uniformizada realizou diversas ações nas arquibancadas durante a partida contra a Lazio. Os ultras ergueram faixas com palavrões contra os laziali e fizeram um mosaico em referência ao grupo radical de esquerda Brigada Vermelha, tratado como terrorista na Itália. Já o bandeirão mais discutido trazia a imagem do ditador Benito Mussolini dependurado após sua morte, com a frase “sigam seu líder”.

“Em 2019, o nosso objetivo é o mesmo. Pedimos a todos os torcedores do Celtic e de todos os clubes (e de nenhum) que continuem se opondo ao racismo e ao fascismo. Convidamos você a apoiar nosso apelo para minar mais uma vez a iminente e injusta multa da Uefa. Ao fazer isso, promoveremos não apenas a tolerância e a inclusão, mas providenciaremos um apoio prático necessário a duas instituições de caridade com projetos em Roma e Glasgow”, declarou a torcida, em nota oficial.

A Baobab Experience já atendeu mais de 85 mil pessoas que pediram asilo em Roma, oferecendo comida, roupas, acomodação, assistência jurídica e atendimento médico. Já a Scottish Action for Refugees possui um centro comunitário em Glasgow, que garante ajuda aos refugiados. O Celtic, vale lembrar, surgiu como uma iniciativa ligada aos católicos para auxiliar a população imigrante irlandesa que convivia com a pobreza em Glasgow no final do Século XIX.

Não é a primeira vez que a Green Brigade age desta maneira. Em 2016, os ultras exibiram dezenas de bandeiras da Palestina antes de um jogo contra o Hapoel Be’er Sheva, de Israel. Por conta da ação, o clube terminou multado pela Uefa, mas os torcedores fizeram uma arrecadação para apoiar a Medical Aid Palestine, entidade que oferece auxílio médico a palestinos. A doação chegou a £176 mil, superando bastante a meta inicial de £15 mil.

Sobre o bandeirão com a imagem de Mussolini, a neta do ditador se manifestou contra a torcida do Celtic. Membro do Parlamento Europeu, Alessandra Mussolini condenou os escoceses e classificou a bandeira como um “gesto violento de Ducefobia”, que para ela deveria ser recriminado na legislação italiana. Em resposta, a Green Brigade levou uma faixa ao jogo do clube pelo Campeonato Escocês no final de semana, em que mandava Alessandra “tomar naquele lugar” – com direito a palavrões em italianos.

Esta pode ser a terceira multa da Uefa ao Celtic na temporada. O clube foi punido anteriormente por causa de sinalizadores nas arquibancadas e de objetos atirados no gramado. Já o reencontro com a Lazio acontecerá na próxima semana. São estimados 8 mil escoceses em Roma para a partida. A cidade prepara um forte esquema de segurança em suas principais atrações turísticas e uma “lei seca” a partir da véspera do jogo. Os ultras laziali, entretanto, não estarão presentes em sua tradicional curva no Estádio Olímpico. O setor será fechado justamente em punição aos cânticos racistas entoados no duelo contra o Rennes pela Liga Europa.