A Super League Indiana surgiu com um jeitão de showbol. Por mais que seguisse os princípios de quando o Campeonato Japonês foi criado há duas décadas, no milionário futebol atual é bem mais difícil atrair medalhões. A solução encontrada, então, era tirar da aposentadoria alguns velhos astros e evitar que outros pendurassem as chuteiras. Assim, chegaram jogadores do porte de Del Piero, Pirès, Trezeguet, Materazzi e Ljungberg. E a liga, encerrada no último final de semana com o título do Atlético de Kolkata, conseguiu ser um sucesso maior do que se imaginaria. A presença dos veteranos e um excelente trabalho nas mídias digitais garantiu a repercussão internacional. Já entre os indianos, a ISL virou uma febre. A próxima edição já anima, apesar da cautela que também inspira.

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O laboratório era evidente. O campeonato durou apenas dois meses e não contou com nenhum dos clubes que já disputavam o Campeonato Indiano, alguns deles centenários. Em compensação, a maioria dos jogadores locais foram contratados destas equipes e, assim como na MLS, acabaram draftados pelas novas “franquias”. A intenção era criar mesmo apenas um grande evento anual, não um sistema sustentável para o futebol indiano. Na primeira experiência, deu certo, dentro do que era previsto.

A média de público da Super League bateu os 26,5 mil torcedores por partida, a quarta maior entre os campeonatos de todo o mundo – atrás apenas de Alemanha, Inglaterra e Itália. Já a audiência na primeira semana atingiu 170,6 milhões de pessoas – “apenas” 14 milhões a menos que o mesmo período na Premier League Indiana de Críquete, o esporte cultuado no país e que paga milhões aos seus astros.

Que o futebol é popular na Índia, não apareceu como nenhuma novidade. O país possui um clássico com média de público de 100 mil pessoas e atrai multidões nas visitas de clubes estrangeiros. A própria Copa do Mundo, que mobilizou a população na torcida por outras seleções, é mais uma prova. Mesmo assim, os números acabaram sendo surpreendentes. Especialmente se puderem fazer o futebol, mais do que um esporte sazonal, se tornar forte o bastante para se manter o ano todo.

O mais difícil não é melhorar o nível técnico. A qualidade para a primeira edição da ISL foi razoável e a experiência dos veteranos acabou bastante elogiada no desenvolvimento dos indianos. Isso, porém, não é o suficiente. Há necessidade de um investimento em categorias de base. Mais difícil é criar uma cultura de futebol.

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A temporada inaugural da Super League foi satisfatória por levar o público, acostumado a ver os europeus na TV, a frequentar os estádios. Para se sustentar, contudo, é preciso de torcida. Uma paixão pelos times que supere o simples sistema de franquias, onde a noção de pertencimento às cidades acaba sendo determinante. A escolha de oito cidades em que o futebol já está enraizado foi importante. Mas ainda falta a rivalidade e o cotidiano para fazer o futebol mobilizar de vez os indianos, não por tão pouco tempo.

A organização da ISL acertou em muitos pontos: os mata-matas como sistema de disputa, os ingressos a baixo custo, os estádios renovados, as grandes estrelas, a capacidade de transmissão. Valeu para um torneio de tiro curto. Mas, para solidificar um grande campeonato de futebol na Índia, é preciso mais. E saindo de todo esse turbilhão de novidades é que se terá a noção exata do quanto será possível evoluir. Pegando o exemplo dos Estados Unidos, é melhor não ser uma nova NASL. Organização é fundamental para não tornar este 2014 histórico no futebol local em uma mera aventura.