O futebol não é um esporte, mas sim um fenômeno social. O jogo acaba sendo pretexto a algo muito maior, de identificação, de união. E esta característica está presente no clássico entre Corinthians e Palmeiras desde os seus primórdios. O Dérbi se expandiu junto com a popularização da modalidade em São Paulo. Os dois clubes, ligados à às massas e aos imigrantes, passaram a formar amplas comunidades. Algo que se mantém há mais de um século, em uma rivalidade ferrenha, mas esmagadoramente saudável. O convívio de alvinegros e alviverdes nada mais é do que a essência do futebol, entre amizades e provocações. Um clube se torna grande também pela disputa e pela ambição compartilhada com os rivais. Assim, corintianos e palmeirenses construíram as suas próprias nações.

Por N motivos, que você já deve estar cansado de ouvir e discutir, e sobre os quais não adentrarei neste texto, Corinthians e Palmeiras se tornaram mais distantes dentro de um estádio de futebol. Às vezes, distantes em seus próprios estádios. Mas, em espírito, fizeram um grande clássico nas últimas horas. Entre a noite de sexta e a tarde de sábado, o Dérbi não foi questão de quem vai ganhar o jogo ou levantar a taça do Paulistão – o que, claro, continua sendo importante, mas não tanto neste momento. A rivalidade era sobre quem exibia a sua identidade de maneira mais genuína. Sobre quem fazia transbordar (em cores, cânticos, bandeiras, sinalizadores, invasão) a própria paixão de um jeito mais eloquente. Isso rendeu cenas que corintianos e palmeirenses nunca mais se esquecerão.

E não se esquecerão ainda mais aqueles que não costumam frequentar o estádio em dia de jogo. Aqueles que não têm condições, mas que conseguiram comparecer às arquibancadas desta vez. Que puderam conhecer a casa dos sonhos, que viram os jogadores de perto, que participaram juntos da festa. A paixão se potencializa na simplicidade. Na oportunidade única. Motiva os jogadores rumo a uma final deste valor. E não o valor das premiações ou do próprio Campeonato Paulista, mas sim o valor de um Palmeiras x Corinthians. Não há ferramenta possível para se calcular esta grandeza. Afinal, o sentimento não se pesa ou mede, ele apenas se sente.

Apenas um vai sair vencedor no Allianz Parque neste domingo. Este é o futebol. No entanto, esta é apenas a parte esportiva, o jogo, e não o fenômeno social. Como fenômeno social, o futebol já ganhou demais com o Palmeiras x Corinthians deste domingo. Em meio a discussões sobre o que se pode e o que não se pode, os dois clubes abriram suas portas e seu peito às massas. Escancararam o tamanho de um clássico realizado com a alma, em dois estádios distintos, a uma distância de um punhado de quilômetros, com a diferença de um bocado de horas. As erupções coletivas certamente se refletirão em campo, a partir da energia que cada jogador recebeu diante do espetáculo. O Dérbi que está na história, antes mesmo de ser.


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