Por vezes, a chegada de um novo técnico não indica apenas uma renovação de ares e ideias em um clube. Ela também pode ocasionar um efeito mais amplo, entre a confiança dos jogadores e a própria motivação da torcida. Quando o Palmeiras anunciou Luiz Felipe Scolari, parecia crer mais na mística do que necessariamente em métodos. No entanto, semanas depois do desembarque do velho comandante, não se nega que muito mudou entre os alviverdes. É uma equipe mais segura de si, que se protege bem na defesa e vê vários atletas subindo de nível individualmente. O bom momento já tinha repercutido na Copa do Brasil e na Libertadores. E sinais mais claros se notavam no Brasileirão, em sequência de bons resultados que recolocou os palmeirenses na briga pelo título. Faltava uma vitória contundente. Não falta mais, em um Dérbi que foi do Palmeiras do primeiro ao último minuto. Que o placar tenha sido mínimo no Allianz Parque, a maneira como os anfitriões derrotaram o Corinthians por 1 a 0 é o que mais vale. Um triunfo que representa além de três pontos.

O favoritismo, afinal, pendia todo para o lado do Palmeiras. Felipão vem sabendo dosar muito bem o elenco conforme as diferentes competições que disputa e isso vai dando resultado. Mesmo que vários jogadores de relevo não estivessem em campo, ante a ausência de boa parte dos que são teoricamente titulares, era uma equipe forte para o Corinthians encarar. Do outro lado, o cenário é de incerteza no Parque São Jorge. Os corintianos buscam justamente os novos ares, as novas ideias, quem sabem uma motivação a mais com Jair Ventura. E o novo comandante não teve muito tempo para mudar a escalação, em relação ao que vinha utilizando Osmar Loss, embora tenha focado os seus treinamentos no trabalho defensivo.

Não foi um bom primeiro tempo. A tensão ficou evidente nos primeiros minutos do Dérbi, entre algumas divididas mais firmes e muitas reclamações. Na maior parte dos minutos, o jogo ficava travado no meio-campo. Mas logo ficava claro que o Palmeiras não teria problemas para se impor. Controlava o jogo e acuava a defesa do Corinthians, que fechava bem os espaços. O grande mérito dos alviverdes, contudo, era a maneira como os jogadores reagiam quando perdiam a posse de bola. Logo passavam a marcar agressivamente no campo de ataque e recuperavam por lá mesmo. Os corintianos tinham sérias dificuldades para passar do círculo central. E as chances começaram a aparecer um pouco mais nos minutos finais, ainda que os palmeirenses insistissem demais nos cruzamentos e nas ligações diretas. Deyverson aparecia bastante, buscando as finalizações, mesmo sem precisão. Marcos Rocha e Dudu também chamavam o jogo para si.

Para o segundo tempo, Felipão logo realizou uma alteração, com a entrada de Moisés no lugar de Thiago Santos. Pela qualidade no passe, escolha importante diante do controle que o Palmeiras tinha do jogo. O personagem, de qualquer forma, seria Deyverson. O centroavante é desses caras que cresceram com a chegada do treinador. Não deixa de cometer as suas caneladas, mas exibe mais confiança em si e finalmente tem conseguido resolver jogos. Entre a insistência e as provocações, ele incomodava a defesa do Corinthians. Até chegou a reclamar de um pênalti, em lance de duas faltas que os palmeirenses viram o árbitro deixar passar. Mas o gol do atacante não tardaria. Em um momento de pressão alviverde, méritos de Marcos Rocha, ótimo no apoio ao longo da tarde. O lateral avançou pela direita e cruzou com perfeição para Deyverson passar às costas da zaga, emendando às redes. O relógio marcava 11 minutos.

Depois do gol, Jair Ventura tentou reerguer o Corinthians com duas alterações, promovendo as entradas de Clayson e Gabriel. De fato, o time se soltou mais e tentou criar alguma chance, negada pela defesa alviverde. O trabalho do Palmeiras para travar o meio-campo era excelente e, mesmo sem marcar de maneira tão adiantada, frustrava os alvinegros. A precisão das ações defensivas se fazia fundamental aos anfitriões e Weverton mal precisou trabalhar. Já na meia hora final do jogo, o grande nome foi Dudu. O ponta melhorou ainda mais na partida e servia de principal referência para puxar os contra-ataques. Com sua velocidade, acabava por segurar um pouco mais os corintianos. Afinal, as melhores chances continuavam do lado palestrino e quase o camisa 7 marcou um golaço, em bomba que estalou o travessão.

Nos minutos finais, houve mais confusão do que jogo em si. As atenções se voltavam para Deyverson, que tentou simular uma agressão sem qualquer sucesso e, ao ser substituído, deu uma piscadinha para Roger, provocando o banco do Corinthians. Pouco antes, Felipão também havia sido expulso, revoltado com a falta de critério da arbitragem – realmente, um dos entraves do Dérbi. Mas em campo, era o Palmeiras quem sabia controlar os espaços e o tempo para assegurar a vitória. Dudu seguia como o melhor do time, muito bem em suas arrancadas, e quase foi premiado com um gol nos acréscimos, após lance sensacional de Willian Bigode pela linha de fundo. A vitória era alviverde.

A sequência primorosa do Palmeiras no Brasileirão ganha eco com o Dérbi. Foi um time por vezes pilhado demais neste domingo, mas que sempre teve mais bola e mais controle das situações para conquistar os três pontos. Os méritos são totais. Neste momento, a equipe de Felipão chega aos 46 pontos, apenas três a menos que Internacional e São Paulo, ocupando a terceira colocação. E por mais que haja uma maratona de jogos nestes próximos três meses, a amplitude do elenco e a maneira como os jogadores correspondem fazem os alviverdes acreditarem que podem manter a competitividade em todas as frentes.

Pior para o Corinthians, que se desencontrou após a saída de Fábio Carille e começa a se preocupar com a má sequência, já distante da zona de classificação à Libertadores. Caindo à nona colocação, os alvinegros estão a oito pontos de alcançar o Atlético Mineiro. Jair Ventura sabe que o trabalho é longo, até pela exibição nula dos visitantes ofensivamente. A diferença entre os rivais ficou evidente no Allianz Parque. Um resultado para os palmeirenses comemorarem de peito cheio, sem contestações.


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