Convocação da seleção brasileira nunca vai ser unanimidade, ainda mais quando há um certo nivelamento em diferentes posições. Entre os nomes ausentes na última lista elaborada por Tite, talvez quem mais merecesse uma chance fosse Gérson. O meio-campista vem em ótima fase pelo Flamengo desde 2019 e recebeu elogios do treinador em outros momentos. No entanto, em uma disputa com Bruno Guimarães e Arthur, na qual um vem em ascensão e outro é aposta constante, a ausência do rubro-negro não é nenhum absurdo. Discutível, mas compreensível.

O que incomoda mais é ver a Seleção como um ambiente de jogadores submetidos a interesses e dirigentes com pretensas posturas inquestionáveis. E, neste sentido, a ausência de Gérson chama um pouco mais de atenção. O meio-campista era um dos nomes cortejados pela CBF para o Pré-Olímpico em janeiro. Após uma temporada extenuante com o Flamengo, o jovem pediu dispensa para descansar nas férias e se recuperar fisicamente de maneira completa ao novo ano. Tal opção não foi bem recebida internamente.

Em fevereiro, o coordenador Juninho Paulista indicou que a preferência de Gérson por algumas semanas a mais de repouso poderiam pesar contra convocações futuras. Afirmou que “tudo era levado em consideração”, não apenas o aspecto técnico, mas também o “comprometimento, a disponibilidade e o foco”. A declaração sugeria a legítima vontade de Gérson como um ato de indisciplina, como se o meio-campista não estivesse comprometido o suficiente para defender a Seleção. Quando, na verdade, parecia escolher o mais lógico à própria preservação de suas condições e ao seu momento técnico.

Nesta sexta-feira, Gérson não apareceu na convocação da seleção principal e muito menos da seleção olímpica. Gera estranheza, considerando as declarações positivas de Tite anteriormente e ainda mais as negativas de Juninho. Ao menos no sub-23, que vem servindo de “estágio” ao nível principal, o volante parecia merecer a observação. Em uma pergunta sobre Gérson direcionada a Tite na coletiva desta sexta, Juninho tomou a palavra e desconversou. O coordenador até falou que “não se referia a Gérson” em suas afirmações de fevereiro. Enquanto isso, Tite apontou que as convocações são “absolutamente técnicas”. Segue aberta a margem para que se imagine a razão da ausência, quando ninguém assume uma postura clara.

Juninho, no fim das contas, aumenta os questionamentos sobre o que faz na CBF. De alguém que chegou credenciado como uma “nova cabeça”, até por seu trabalho com o Ituano, o coordenador apresenta velhas práticas e relações escusas. Mesmo com o claro conflito de interesses, ele manteve sua posição no clube quando chegou à confederação e só abandonou o cargo quando foi denunciado pelo jornalista Lúcio de Castro. Ainda assim, quando confrontado sobre o tema pelo jornalista Rodrigo Mattos nesta sexta, manteve um discurso de que não havia nada de errado além da hipótese e que “sua idoneidade” era garantia suficiente.

Entre conflitos de interesses que são tratados como “acaso” e a falta de proteção aos próprios jogadores, a ordem de prioridades de Juninho anda bem problemática. E a maneira como a CBF vem conduzindo a seleção olímpica como uma escalada à principal, quando o nível sub-23 oferece um desafio mínimo a muitos desses futebolistas, também indica um mecanismo mais preocupado em garantir uma prova de serviços prestados do que necessariamente voltado a talhar os atletas. Que as convocações sempre gerem suas discussões, é bem mais incômodo sentir esse cheiro de naftalina das velhas trocas de favores e submissões. Jogadores que, de fato, têm futuro acabam sujeitos a uma estrutura para justificar a posição de dirigentes.