Há quem argumente que o maior jogo do final de semana no futebol internacional não aconteceu na Inglaterra ou na Espanha. A Argentina, afinal, viveu um de seus clássicos mais estridentes. E com o peso de ser decisivo à reta final do campeonato. Com o gosto de ver o candidato ao título conquistando uma vitória memorável na casa do rival. Com o selo de um grande personagem estampando a capa dos noticiários. Avellaneda recordará por um bom tempo a vitória do Racing por 3 a 1, dentro do Estádio Libertadores da América, templo do Independiente. O resultado, unido à ajuda do Boca Juniors contra o Defensa y Justicia neste domingo, botou La Academia na liderança isolada da Superliga. E serviu para deixar em evidência o interminável Lisandro López, que atravessa excelente fase para liderar os racinguistas rumo ao topo.

Licha López zanza pela América do Sul desde 2015. O antigo ídolo do Porto e do Lyon, após uma rápida passagem pelo Al Gharafa, desembarcou no Internacional em 2015. Apesar de ter anotado gols importantes na campanha colorada rumo às semifinais da Libertadores, não impressionou tanto no Beira-Rio e logo depois arrumou suas malas ao Racing. Em Avellaneda, reencontrava a torcida da qual foi ídolo durante os primórdios de sua carreira, artilheiro do Campeonato Argentino em 2004. Mas é fato que nem a volta para casa fez o veterano deslanchar. Sim, manteve a sua importância e decidiu em alguns momentos, embora distante da melhor forma da carreira. Algo que mudou nesta temporada. O centroavante protagoniza o sucesso de La Academia.

Se a torcida do Racing sentia saudades de Lautaro Martínez, Licha mostrou que não havia motivos para se preocupar. Às vésperas de completar 36 anos, o capitão demonstra o vigor de um menino para carregar os racinguistas nesta Superliga. São 16 gols em 19 partidas, artilheiro com sobras da competição. Enquanto Darío Cvitanich e Jonathan Cristaldo dão diferentes opções à linha de frente, é o camisa 15 quem se encarrega de impulsionar a equipe. O técnico Eduardo Coudet conta com diversos veteranos em seu elenco – Alejandro Donatti, Lucas Orbán, Eugenio Mena, Neri Cardozo e Marcelo Díaz, todos acima dos 30 anos. O mais velho deles é a principal referência. López fez a diferença em jogos contra Huracán, Talleres, San Lorenzo, Boca Juniors, Rosario Central, Atlético, Tucumán, Argentinos Juniors, entre outros clubes de peso do certame. Nenhum deles com a representatividade do Independiente.

No jogaço que aconteceu neste sábado em Avellaneda, o goleiro Gonzalo Arias foi o principal responsável pela vitória por 3 a 1. O chileno, que ironicamente passou boa parte de sua carreira no Defensa y Justicia, realizou três milagres para conter o ímpeto do Independiente. Ainda assim, Licha merece muitos aplausos. Depois que Guillermo Burdisso marcou um gol contra no primeiro tempo e Fernando Gaibor empatou ao Rojo antes do intervalo, o ídolo da Academia despontou na etapa complementar. Retomou a vantagem aos racinguistas logo aos nove minutos, cobrando pênalti. Focado na marcação, virou até ajudante de lateral para conter a pressão dos anfitriões. E se consagrou com uma assistência espetacular no apagar das luzes.

O relógio já marcava 49 minutos, quando o Independiente tentava empatar de qualquer maneira. Eis que Lisandro López foi lançado com o campo de ataque aberto. Disparou e deu um drible da vaca no goleiro Martín Campaña, ainda na intermediária. Invadiu a área livre e, sem qualquer sinal de egoísmo, passou a bola ao garoto Federico Zaracho – outro inspirado no dérbi. O talentoso prodígio pôde dar a estocada final nos adversários, consumando o triunfo. O Racing conquistou sua maior vitória fora de casa no dérbi desde 1998, quando o mesmo placar de 3 a 1 surgiu em noite histórica na Doble Visera. A sensação proporcionada pelo artilheiro em sua torcida é inenarrável. Restando cinco rodadas para o fim do campeonato, as chances de título são razoáveis.

“Este Lisandro é mais completo que o de 2004. Quando eu era mais novo, só entrava em campo e corria por todos os lados. Hoje eu curto os jogos mais do que antes, mesmo me permitindo desfrutar pouco. Eu vivo o antes, o durante e o depois de cada partida, coisa que não fazia quando era jovem”, afirmou o próprio Licha, após a atuação brilhante deste final de semana. “Nesta idade, o principal é chegar bem fisicamente. No mental não muda nada, encaro cada semana da mesma maneira. Quando você não está no nível que se pretende, isso afeta a confiança e se sente no rendimento. São momentos. O mental não mudou, enquanto quero estar em bom nível e ajudar a equipe”.

A média de gols, ao menos, é superior na atual campanha se comparada aos números de Lisandro López em 2004. E os 15 anos a mais apresentam um atacante consciente de suas funções. Além de definir, ele também se apresenta bastante ao jogo e contribui ao estilo intenso aplicado por Cacho Coudet. É um time que tenta roubar a bola rapidamente e ter a posse para criar as suas ocasiões, o que depende também da vontade do centroavante. Nas temporadas recentes, apesar do renome, o medalhão era mais um operário dentro do sistema que ajudava a impulsionar os companheiros. Mas a insaciedade garante o reconhecimento enorme nesta temporada.

“Neste sábado, muitíssimas vezes estive emocionado em campo. Pelo momento que estamos vivendo, pelo pessoal. Ganhar um clássico como visitante nem sempre acontece. Pela maneira como vi e senti meus companheiros, estava emocionado e desfrutando esta vitória. Espero que esse resultado possa nos empurrar no objetivo que estamos perseguindo”, complementou. “Não há chaves, temos que seguir da mesma maneira. Ganhamos um clássico, é a alegria de todo racinguista, mas isso não pode desviar nossa atenção. Temos que seguir focados. A diferença é de três pontos, mas restam 15 para se disputar. Não se pode falar de probabilidades. O grupo merece se coroar por este campeonato tão bom que vamos fazendo. Tomara que aconteça”.

Para ser campeão, o Racing possui mais cinco decisões. E a vantagem não permite qualquer descanso, já que o confronto direto contra o Defensa y Justicia acontece justamente na última rodada, dentro do Cilindro de Avellaneda. Enquanto se sonha, é preciso trabalhar duro. Ninguém melhor do que Licha López para servir de exemplo. Se a conquista mais recente dos racinguistas teve Diego Milito como grande nome, desta vez é outro ídolo quem serve de emblema. Quem sabe, para deixar seu legado definitivo à memória dos torcedores.