*Por Guilherme Diniz

Texto originalmente publicado no Imortais do Futebol e cedido à Trivela. Acompanhe o site, também no Facebook e agora no Instagram.

Grandes feitos: Bicampeão da Recopa Europeia (1975/76 e 1977/78), bicampeão da Supercopa da UEFA (1976 e 1978), campeão Belga (1973/74) e bicampeão da Copa da Bélgica (1974/75 e 1975/76). Foi o primeiro e único clube europeu a disputar três finais consecutivas da Recopa e o primeiro clube belga a conquistar um grande título internacional.

Time base: Jan Ruiter (Nico de Bree); Michel Lomme (Johnny Dusbaba), Hugo Bross (Erwin Vandendaele), Jean Thissen e Gilbert Van Binst; Arie Haan, Jean Dockx (Franky Vercauteren) e Ludo Coeck; François Van der Elst (Paul Van Himst), Peter Ressel (Attila Ladinsky / Benny Nielsen) e Rob Rensenbrink. Técnicos: Urbain Braems (1973-1975), Hans Croon (1975-1976) e Raymond Goethals (1976-1978).

“Soberania belga”

Depois de dominar o futebol de seu país no final dos anos 40, boa parte dos anos 50 e em seis temporadas dos anos 60, o Anderlecht começou a ser questionado naquele começo de anos 70. O time vencedor e sempre entre os primeiros colocados perdeu força e deixou caminho livre para os rivais Club Brugge e Standard Liège faturarem os canecos nacionais sem grandes problemas. No entanto, a equipe branca e roxa estava se preparando para fazer história no cenário europeu, mais precisamente na segunda maior competição do continente à época – a Recopa.

Com um time ofensivo, repleto de ótimos jogadores do futebol holandês e um esquema de jogo perfeito para mata-matas, o clube na região de Bruxelas disputou três finais continentais seguidas e venceu duas, se tornando o primeiro representante da Bélgica a conquistar um torneio internacional. Mais do que isso, a equipe derrotou os titãs Bayern de Munique e Liverpool em duas finais eletrizantes de Supercopa e celebrou outro bicampeonato. Com nomes como Dusbaba, Broos, Van Binst, Van der Elst, Peter Ressel, Nielsen, Arie Haan e Rob Rensenbrink, o Anderlecht mostrou que o futebol belga podia, sim, enfrentar as grandes potências da Europa e ainda conquistar títulos históricos. É hora de relembrar as façanhas daquele esquadrão imortal.

Pensando grande

Conquistar títulos em casa já não era mais suficiente para o Anderlecht naquele começo de década de 70. O clube de Bruxelas levantava uma taça praticamente ano sim ano não e queria alçar voos muito além de sua própria casa. Para isso, o então novo presidente do clube, Constant Vanden Stock, tratou de reforçar o elenco branco e roxo com jogadores vindos da Holanda. Logo de cara chegaram o goleiro Jan Ruiter e o atacante Rob Rensenbrink, que se juntaram aos artilheiros e pratas da casa Paul Van Himst e François Van der Elst. Os novos integrantes do time mostraram serviço rapidamente e ajudaram o Anderlecht a conquistar a Copa da Bélgica de 1972/73 e, principalmente, o Campeonato Belga de 1973/74, quando o time acumulou 17 vitórias, sete empates e seis derrotas em 30 jogos, com 72 gols marcados (melhor ataque) e 38 sofridos. Attila Ladinsky foi o artilheiro da equipe no campeonato com 22 gols e superou os 16 marcados por Rensenbrink na temporada anterior.

A taça deu uma vaga ao Anderlecht na Copa dos Campeões de 1974/75, mas o time caiu nas quartas de final diante do Leeds United, que venceu as duas partidas (3 a 0 e 1 a 0). No entanto, foi naquela temporada que o técnico Urbain Braems modelou o esquema de jogo da equipe para competições de tiro curto, pensando mais na Europa do que na Bélgica. Essa nova mentalidade custaria ao clube um jejum de sete anos sem um título sequer do Campeonato Belga. Mas a torcida não ia se importar nem um pouco. Afinal, tempos de ouro estavam chegando.

A Copa e a Recopa

Na temporada 1974/75, o Anderlecht terminou em terceiro lugar no campeonato nacional, mas celebrou o título da Copa da Bélgica com uma vitória por 1 a 0 sobre o Royal Antwerp. A taça garantiu o lugar da equipe na Recopa de 1975/76, segundo torneio mais importante do continente na época e disputado apenas pelos vencedores das copas nacionais de seus respectivos países. Mesmo campeão, o técnico Urbain Braems deixou o comando do clube para a chegada de Hans Croon, holandês que se entendeu muito bem com seus compatriotas e colocou como meta principal da temporada a disputa da Recopa.

Logo na estreia, os belgas reverteram o resultado do primeiro duelo contra o Rapid Bucareste (derrota por 1 a 0) e venceram a partida de volta por 2 a 0. Na fase seguinte, vitória por 3 a 0 sobre o Borac Banja Luka e derrota por 1 a 0 na volta, placar que não impossibilitou a classificação do time de Bruxelas. Nas quartas e semifinais, vitória por 2 a 1 no agregado sobre os galeses do Wrexham e acachapantes 5 a 0 sobre o Sachsenring Zwickau, da Alemanha Oriental. O Anderlecht estava na final, que, curiosamente, seria disputada exatamente na Bélgica, no estádio de Heysel, em Bruxelas. Não havia local e momento melhores para se conquistar um inédito e histórico título internacional.

Show de gols e o brilho europeu

Diante de mais de 51 mil pessoas, sendo a maioria belga, o Anderlecht disputou a final da Recopa de 1976 contra os ingleses do West Ham, que contavam com uma boa equipe e nomes como Frank Lampard (sim, o pai do ídolo do Chelsea), John McDowell, Pat Holland, Billy Jennings e Trevor Brooking. Já o Anderlecht ia para a decisão com sua força máxima e uma equipe entrosada e com uma linha de meio de campo e ataque formada por craques holandeses (Arie Haan, Peter Ressel e Rob Rensenbrink) e belgas (Van Binst, Ludo Coeck e François Van der Elst). Com equipes bem montadas e dispostas a atacar, o público teve o privilégio de assistir a uma das finais europeias com maior número de gols da história. E recheada de emoção.

Aos 28, Holland abriu o placar para o West Ham. Aos 42, Rensenbrink recebeu de Peter Ressel após uma bobeada grotesca da zaga inglesa e empatou o jogo: 1 a 1. No segundo tempo, logo aos três minutos, Van der Elst chutou por cobertura e marcou um lindo gol para colocar o Anderlecht na frente do placar. Mas o West Ham era valente e empatou vinte minutos depois com Keith Robson. Aos 28, Rensenbrink fez, de pênalti, o segundo dele no jogo e o terceiro dos belgas na partida. Para garantir o título e não levar mais sustos, aos 43, Van der Elst recebeu, invadiu a área rival, fez fila e anotou mais um golaço: 4 a 2.

Para delírio da torcida local, o Anderlecht era campeão da Recopa pela primeira vez em sua história. De quebra, dava ao futebol belga seu primeiro grande título internacional. Rob Rensenbrink foi fundamental para a conquista ao se tornar o artilheiro da competição com oito gols marcados e confirmar sua ótima fase na carreira à época (o craque anotou 23 gols no Campeonato Belga). Ainda naquela temporada, os belgas conquistaram o bicampeonato da Copa da Bélgica (vitória por 4 a 0 sobre o Lierse) e encerraram o ano europeu da melhor maneira possível: com duas taças na galeria de troféus e despertando uma inveja tremenda nos rivais.

Goethals e o baile no gigante alemão

No começo da temporada 1976/77, o Anderlecht trouxe para o comando técnico o belga Raymond Goethals, que vinha de uma passagem pela seleção de seu país e com a facilidade de comandar uma equipe já formada e recheada de ótimos jogadores que praticavam um futebol ofensivo e muito bem estruturado defensivamente. O primeiro desafio do novo técnico, porém, não foi nada fácil: encarar o poderosíssimo Bayern de Sepp Maier, Schwarzenbeck, Beckenbauer, Rummenigge e Gerd Müller na final da Supercopa da UEFA. O Bayern era o maior time da Europa na época e a base da seleção alemã campeã do mundo na Copa de 1974, além de ter conquistado as Copas dos Campeões de 1974, 1975 e 1976. No primeiro jogo entre alemães e belgas, no Estádio Olímpico de Munique, Arie Haan abriu o placar para o Anderlecht, mas Gerd Müller virou para 2 a 1 e selou a vitória bávara.

Na volta, em Bruxelas, os fanáticos torcedores que lotaram o Parc Astrid presenciaram um baile dos brancos e roxos: 4 a 1, com gols de Rensenbrink (2,), Van der Elst e Haan – e um frangaço do goleirão Sepp Maier, que soltou uma bola nos pés de Van der Elst. A goleada deu mais uma taça internacional aos comandados de Goethals, que deram um show de ofensividade, toque de bola e um futebol bonito de se ver naquela final de 30 de agosto de 1976. Uma vitória que mostrou para todos que a conquista da Recopa não tinha sido nenhuma zebra.

 Desacostumados com Copas

Depois de bater sem dó no Bayern, o Anderlecht não conseguiu levantar mais taças no restante da temporada, mas chegou bem perto. Na Copa da Bélgica, o Club Brugge derrotou os brancos e roxos por 4 a 3, e no Campeonato Belga a equipe até teve o melhor ataque (74 gols em 30 jogos), mas foi vice de novo para o Brugge do técnico Ernst Happel. Porém, a maior dor veio na Recopa. Depois de eliminar o Roda (5 a 3 no agregado), Galatasaray (10 a 2 no agregado), Southampton (3 a 2 no agregado) e Napoli (2 a 1 no agregado), os belgas enfrentaram o Hamburgo de Manfred Kaltz, Felix Magath, Willi Reimann e Georg Volkert na decisão disputada em Amsterdã. Mesmo jogando completo, os brancos e roxos perderam por 2 a 0 e viram o sonho de se tornarem os primeiros bicampeões da Recopa de maneira consecutiva ruir, uma façanha que jamais seria conseguida por clube algum. Porém, os revezes serviram para o técnico Goethals ver que seu time não era perfeito e que precisava de pequenos ajustes para voltar a brilhar em solo europeu.

 Ajudinha providencial

O Anderlecht não iria disputar a Recopa de 1977/78, mas como o rival Club Brugge conquistou tanto o campeonato nacional quanto a copa de 1976/77, o time branco e roxo ficou com a vaga automaticamente, enquanto o Brugge foi disputar a Copa dos Campeões. E é claro que a equipe tratou de aproveitar muito bem a chance de conquistar mais um troféu e partiu em busca do bi. Depois de passar fácil pelo Lokomotiv Sofia na primeira fase (8 a 1 no placar agregado), os belgas reencontraram os algozes do Hamburgo e deram o troco ao derrotar os alemães fora de casa por 2 a 1 e segurar o empate em 1 a 1 na volta. Embalados, os comandados de Goethals despacharam o Porto nas quartas de final por 3 a 1 no placar agregado e derrotaram o Twente por 3 a 0 também no agregado. Pela primeira vez na história, um clube conseguia alcançar três finais seguidas da Recopa. E este clube era o Anderlecht, que buscaria na “cidade luz”, Paris, sua segunda taça.

Show dos reis

Na final da Recopa de 1978, o Anderlecht teve pela frente o Austria Viena, que depositava suas esperanças no talento do meio-campista Prohaska. Mas ele não seria páreo para um time inteiro, ainda mais esse time tendo Van Binst, Dusbaba, Van der Elst, Arie Haan, Vercauteren e Rensenbrink. Com isso, os mais de 48 mil torcedores que lotaram o Parc des Princes viram um jogo de um time só: o Anderlecht. Sedento pela vitória desde o apito inicial, sufocando o rival em seu próprio campo e abusando dos toques rápidos e cheios de classe, os belgas massacraram os austríacos ainda no primeiro tempo.

Aos 13, Rensenbrink recebeu na área após uma jogada fantástica pela esquerda e abriu o placar. Aos 44, o holandês cobrou falta com precisão e ampliou. Um minuto depois, o lateral Van Binst disparou pela direita após um contra-ataque rápido, recebeu, fez uma finta mágica pra cima do marcador e anotou o terceiro gol belga. No segundo tempo, o Anderlecht só teve o trabalho de esperar o tempo passar, desfilar sua arte de tocar a bola de maneira objetiva e incisiva, e ainda marcar mais um gol, aos 37, quando Van Binst chutou de perna esquerda de fora da área e encobriu o goleiro: 4 a 0. Com show, arte e talento, o Anderlecht conquistava o bicampeonato da Recopa e fazia história com uma campanha irrepreensível que teve 21 gols marcados (seis foram de François Van der Elst, um dos artilheiros do torneio) e apenas quatro sofridos em nove jogos.

Não bastasse ter celebrado mais um título internacional de seu time, a torcida do Anderlecht teve um gostinho ainda maior naquela temporada pelo fato de o rival, Club Brugge, ter disputado e perdido a final da Copa dos Campeões da UEFA para o Liverpool por 1 a 0…

Último brilho e o fim

Em dezembro de 1978, o Anderlecht disputou mais uma final de Supercopa, dessa vez contra o Liverpool do técnico Bob Paisley e de estrelas como Ray Clemence, Phil Neal, Alan Hansen, Kenny Dalglish, Jimmy Case, Terry McDermott e Graeme Souness. No primeiro jogo, em Bruxelas, Vercauteren, Van der Elst e Rensenbrink mostraram a força do caldeirão belga e derrotaram os ingleses por 3 a 1. Com a vantagem de dois gols, os brancos e roxos foram até Anfield Road para faturar mais uma taça. Hughes abriu o placar para os Reds, mas Van der Elst empatou no segundo tempo. No finalzinho, Fairclough fez mais um para o Liverpool, mas não adiantou. O 4 a 3 no agregado deu o título ao Anderlecht, que celebrou sua quarta taça internacional em apenas três anos.

O triunfo na Inglaterra foi o último daquela geração de ouro do clube de Bruxelas. O time perderia vários craques de seu elenco para a aposentadoria ou para outros clubes e só voltaria a brilhar, agora já com menos intensidade, no final da primeira metade dos anos 80, quando o técnico Paul van Himst levou a equipe branca e roxa ao título da Copa da Uefa de 1983, derrotando o Benfica na final. Um ano depois, os belgas (comandados por Enzo Scifo e Vercauteren) alcançaram um incrível primeiro lugar no ranking da Uefa, ao lado da Juventus, e voltaram a disputar a decisão da Copa da Uefa, mas perderam nos pênaltis para o Tottenham.

A equipe retomou sua coroa em casa, voltou a celebrar taças nacionais, mas jamais conquistou novos títulos internacionais. Desde então, a torcida do soberano clube espera por novos tempos de glórias, o que é bem difícil na atual conjuntura do futebol europeu. No entanto, as façanhas daquele esquadrão que ousou quebrar o reinado de gigantes do continente e mostrou a força do futebol belga no período seguem intactas e assim permanecerão por décadas. Afinal, é impossível se esquecer dos bailes.

Os personagens:

Jan Ruiter: depois de se destacar pelo FC Volendam, o goleiro holandês conseguiu uma chance no Anderlecht e mostrou suas qualidades durante seis anos. Muito ágil e de boa presença física, Ruiter conquistou oito títulos com o Anderlecht, entre eles a Recopa de 1976, a Supercopa da UEFA de 1976 e o Campeonato Belga de 1972 e 1974. A única decepção de sua carreira foi não ter tido grandes chances na seleção holandesa por causa da concorrência com Jan Jongbloed e Peter Schrijvers.

Nico de Bree: outro goleiro holandês do Anderlecht nos anos 70, De Bree assumiu a meta da equipe após a saída de Ruiter, em 1977, e ajudou a equipe belga com grandes defesas e boa colocação. De Bree jogou de 1977 até 1980 na equipe de Bruxelas e teve participação decisiva nas conquistas da Recopa de 1978 e da Supercopa da UEFA do mesmo ano.

Michel Lomme: foi lateral-direito do Anderlecht em boa parte da temporada 1975/76, quando teve destaque na conquista da Recopa. Não era muito bom no apoio ao ataque, mas garantia a eficiência na marcação pelo setor direito do campo. Começou sua carreira no próprio Anderlecht, em 1975.

Johnny Dusbaba: o zagueiro veio do Ajax, em 1977, com toda a bagagem do Futebol Total e suas particularidades. Em terras belgas, Dusbaba foi muito útil com seu futebol moderno e muito forte na marcação, além de ter formado uma ótima dupla de zaga ao lado de Hugo Broos, principalmente ao longo da disputa da Recopa de 1977/78.

Hugo Broos: ídolo do Anderlecht por mais de 13 anos e soberano da zaga branca e roxa, Broos marcou época com seu posicionamento impecável, grande poder de marcação e atuações memoráveis pelo clube de Bruxelas. O zagueiro disputou mais de 350 jogos do Campeonato Belga pelo clube e conquistou diversos títulos, além de ter sido peça importante nas convocações da seleção belga no período.

Erwin Vandendaele: podia jogar como líbero, volante ou zagueiro e mostrava muita qualidade e técnica em ambas as posições. O jogador teve destaque muito antes de desembarcar no Anderlecht, em 1974, no Club Brugge, onde jogou por uma década. Na equipe branca e roxa, Vandendaele fez boas partidas e ainda foi capitão do time em algumas partidas. Em 1977, o jogador aceitou uma transferência para o Stade de Reims e deixou a equipe de Bruxelas.

Jean Thissen: o defensor chegou ao Anderlecht em 1974 e encerrou sua carreira na própria equipe branca e roxa em 1979. Muito eficiente na marcação e nos passes, Thissen foi um dos jogadores mais importantes da equipe naquele final de anos 70 e teve participação direta nas conquistas das copas nacionais e da Recopa de 1976.

Gilbert Van Binst: rápido, driblador e muito eficiente nos passes, Van Binst foi um dos polivalentes do time do Anderlecht naqueles tempos de ouro e podia jogar como ala direito, meia e até como um falso ponta pela direita. O jogador teve seu melhor momento na carreira na decisão da Recopa de 1978, quando fez uma partida incrível e marcou dois golaços nos 4 a 0 do Anderlecht pra cima do Austria Viena. Em 1976, coube ao jogador, como capitão do time, levantar a primeira taça da Recopa da história do clube. De 1968 até 1980, Van Binst atuou em mais de 260 jogos de campeonatos nacionais pelo Anderlecht e marcou 28 gols.

Arie Haan: se a Holanda e o Ajax dos anos 70 encantaram o mundo com o Futebol Total, ambos devem muito ao polivalente e genial Arie Haan. O craque marcou época com as duas camisas jogando um futebol inteligentíssimo e completo, tanto na marcação do meio de campo quanto no apoio ao ataque. Já consagrado e cheio de títulos, Haan chegou ao Anderlecht em 1975 para viver mais algumas temporadas de puro brilho e recheadas de títulos. O holandês foi o grande maestro e motor do meio de campo branco e roxo entre 1975 e 1981 e um dos responsáveis pelas conquistas históricas da equipe de Bruxelas. Preciso nos passes, elemento surpresa no ataque e dono de um chute extremamente venenoso, Haan confirmou seu talento em terras belgas e foi ídolo da torcida. Um craque imortal.

Jean Dockx: ele não tinha pinta nenhuma de atleta, mas conseguiu se destacar durante oito anos com a camisa do Anderlecht com sua visão de jogo apurada e precisão nos passes, seja como meio campista, seja como lateral. Dockx foi um dos titulares quase que absolutos do esquema de jogo do Anderlecht naquela época e fundamental para as conquistas do time no período. Pela seleção belga, Dockx disputou 35 jogos e marcou três gols.

Franky Vercauteren: cria das categorias de base do Anderlecht, o ponta-esquerda Vercauteren foi um dos mais talentosos atacantes do futebol belga no final dos anos 70 e boa parte da década de 80. Rápido, precioso nos dribles e com ótima visão de jogo, o “pequeno príncipe”, como ficou conhecido, encantou os torcedores da equipe de Bruxelas e virou titular absoluto principalmente na temporada 1977/78, quando teve participação na conquista da Recopa da UEFA. Pela seleção, Vercauteren disputou 63 partidas e marcou nove gols.

Ludo Coeck: meio campista de muita técnica, ótima visão de jogo e eficiente nos chutes de longa distância, Coeck jogou por mais de uma década no Anderlecht e conquistou quase todos os títulos possíveis com a equipe belga. Ao lado de Haan, formou a coração do time no meio de campo e foi fundamental para o brilho branco e roxo na época.

François Van der Elst: atacante muito rápido e oportunista, Van der Elst jogou de 1971 até 1980 pelo Anderlecht e marcou gols decisivos para o time conquistar títulos históricos no período. Foram 10 taças, uma artilharia do Campeonato Belga (em 1976/77, com 21 gols) e a idolatria da torcida para sempre.

Paul Van Himst: um mito na história do Anderlecht, o atacante Van Himst deu azar de deixar a equipe justamente quando a era de ouro estava chegando pelas bandas de Bruxelas. Mesmo assim, o belga participou das conquistas do campeonato nacional de 1973/74 e da Copa da Bélgica de 1974/75. Habilidoso, muito técnico e caçado sem dó pelos rivais, Van Himst jogou de 1959 até 1975 no Anderlecht, marcou 233 gols em 457 jogos do campeonato nacional pelo clube, foi artilheiro do torneio em três oportunidades, ganhou a chuteira de ouro quatro vezes e conquistou a taça nacional em oito oportunidades. Em 1983, como técnico, Van Himst conquistou a Copa da Uefa pelo Anderlecht e celebrou como nunca o título internacional que lhe faltava.

Peter Ressel: atacante muito habilidoso e rápido, Ressel foi um dos destaques do Feyenoord entre 1972 e 1975 até desembarcar no Anderlecht em 1975. Pela equipe branca e roxa, o holandês seguiu em boa forma e teve destaque na conquista da Recopa de 1976, quando formou um ótimo trio de ataque ao lado de Van der Elst e Rensenbrink.

Attila Ladinsky: o atacante húngaro brilhou durante a temporada 1973/74, quando foi o artilheiro do time com 22 gols e mostrou muito oportunismo e boa presença de área. Em 53 partidas do campeonato nacional, Ladinsky marcou 27 gols. deixou o Anderlecht em 1975 para jogar no Real Betis.

Benny Nielsen: jogava como atacante ou meia e mostrava muita qualidade nos passes, nos chutes e no posicionamento em campo. O dinamarquês jogou de 1977 até 1981 no Anderlecht e teve destaque na conquista da Recopa de 1978.

Rob Rensenbrink: se uma trave impediu o holandês de marcar um gol na final da Copa de 1978 que o colocaria na história, no Anderlecht o atacante não teve nada e ninguém para lhe atrapalhar. Entre 1971 e 1980, Rensenbrink comandou praticamente sozinho as ações de ataque do clube belga com uma genialidade monstruosa pelo lado esquerdo, dribles desconcertantes, chutes precisos, gols sublimes e jogadas que ainda temperam o imaginário dos torcedores do Anderlecht. Craque maiúsculo e expoente do Futebol Total holandês ao lado de Krol, Haan, Neeskens e Cruyff, Rensenbrink foi um dos maiores ídolos do Anderlecht em todos os tempos e peça fundamental para as taças da equipe naquela década de 70. Foram 10 títulos, quatro artilharias da equipe na temporada, uma Chuteira de Ouro, uma artilharia do campeonato nacional e quase 200 gols em pouco mais de 304 jogos com a camisa do clube. Um legítimo patrimônio do Anderlecht.

Urbain Braems, Hans Croon e Raymond Goethals (Técnicos): o trio que construiu o maior Anderlecht de todos os tempos teve méritos inquestionáveis por fazer da equipe belga um time competitivo, de chegada, equilibrado e que não temeu adversário algum durante vários anos no futebol europeu. Raymond Goethals ganhou mais destaque pela quantidade e qualidade dos títulos que ganhou no período (uma Copa da Bélgica, uma Recopa e duas Supercopas da Uefa), mas se não fossem os trabalhos de Urbain Braems (campeão belga em 1973/74 e da Copa da Bélgica em 1974/75) e Hans Croon (campeão da Copa da Bélgica e da Recopa da UEFA em 1975/76), que plantaram as sementes do sucesso branco e roxo, nada disso teria acontecido.

*Sobre o autor

Guilherme Diniz é jornalista desde 2009 e decidiu criar o Imortais do Futebol em 2012, ao perceber que não existia em nenhum lugar informações detalhadas sobre times, seleções e craques sem ser em revistas esporádicas (e incompletas), textos dispersos na wikipedia ou em sites diversos. Com isso, ele criou o blog e foi alimentando-o dia após dia até transformar um hobby em um árduo trabalho que chegou a mais de 370 textos em apenas dois anos. Desde então, são mais de 400 textos que já viraram fonte de pesquisas, artigos e até temas de palestras de técnicos e professores. Além disso, o Imortais já cedeu alguns de seus textos para a ONG Worldreader e auxiliou vários verbetes da Wikipedia como fonte. O Imortais também possui perfis no Facebookno Instagram e no Twitter.