Turek, Tilkowski, Maier, Schumacher… antes da Copa de 1990, a tradição da Alemanha em ter bons goleiros já era mais do que conhecida, dentro do futebol. E ela persistiria depois do Mundial realizado na Itália, desde Köpke até o atual Adler, passando por Oliver Kahn. Mas, há 19 anos, a Copa que trouxe o tricampeonato mundial à seleção germânica serviu de cenário para mostrar ao mundo mais um bom produto saído da “fábrica” de arqueiros do Nationalelf.

Era Bodo Illgner, um dos destaques debaixo das três traves na Itália, junto do argentino Goycoechea, do italiano Zenga e do camaronês N’Kono. Porém, apenas cinco anos depois, Illgner já não atuava mais pela seleção alemã – e, dez anos depois, sua carreira chegava ao fim. O porquê de queda tão acelerada será descrito aqui.

Substituindo uma lenda

Tão logo adquiriu uma idade mais razoável para começar a jogar bola – seis anos, em 1973 -, Illgner foi colocado na escolinha do 1.FC Hardtberg. No clube de Bonn, capital da antiga Alemanha Ocidental, o garoto nascido em Koblenz passaria os próximos dez anos. Em 1983, então, o Colônia foi pegá-lo, para suas categorias de base. No tocante à seleção, o jovem já mostrava talento. A ponto de ter sido titular na conquista do Campeonato Europeu sub-16 de 1984.

Entretanto, Illgner teria um longo caminho, caso quisesse virar dono da camisa 1 dos Geissböcke. Tudo porque, nos anos 1980, o titular do time era simplesmente o polêmico – e, talvez até por isso, lendário – Harald “Toni” Schumacher, também indiscutível na posição de goleiro da seleção alemã, então. Isto é, o Colônia parecia ter o presente e o futuro guarda-metas do Nationalelf. Porque, se Schumacher era presença certa na Copa de 1986, Illgner já era convocado para a seleção sub-21.

A primeiríssima oportunidade do novato entre os titulares veio num momento difícil, graças ao gênio indomável de Schumacher. Em 22 de fevereiro de 1986, pela Bundesliga, o Colônia jogava fora de casa, justo contra o Bayern de Munique, e perdia por 2 a 1. Para piorar as coisas, o titular acabou cometendo o pênalti e sendo expulso de campo. Foi necessário, então, colocar em campo o rapaz de apenas 18 anos (Illgner ainda completaria 19, em 7 de abril). Não adiantou: Lothar Matthäus converteria o penal e faria o 3 a 1, placar final do jogo. Mas, na partida seguinte, em casa, contra o Stuttgart, Illgner não decepcionou e o Colônia venceu por 2 a 1. Schumacher retornou, mas Illgner ganhara mais confiança.

Até que veio a virada definitiva. Novamente, o genioso Schumacher jogou contra si próprio: em 1987, sua autobiografia, “Anpfiff” (Apito Final), caiu como uma bomba no futebol alemão, ao trazer afirmações como a de que 90 por cento dos jogadores da Bundesliga atuavam dopados. Com sinceridade tão suicida, Schumacher acabou sendo defenestrado em definitivo do Colônia (mandou-se para o Schalke 04, antes de se exilar na Turquia) e da seleção.

Estava aberto o caminho para Illgner substituir uma lenda. Sua temporada de estreia como titular absoluto impressionou a ponto de Franz Beckenbauer, técnico da Alemanha, tê-lo feito titular, com 20 anos, em um amistoso contra a Dinamarca, ainda em 1987 (em 23 de setembro, vitória alemã por 1 a 0). E o “Kaiser” o aprovou com a convocação, com apenas 21 anos, para ser o reserva de Eike Immel na Eurocopa de 1988.

De volta do torneio continental, a temporada 1988/89 marcou a ascensão definitiva de Illgner. O goleiro foi um dos pilares da campanha que levou o Colônia ao vice-campeonato da Bundesliga. E, na seleção, embora Immel não decepcionasse, já estava perto dos 30 anos, por ter passado boa parte da década na reserva de Schmeichel. A subida vertiginosa do garoto fez com que Immel também decidisse se aposentar do Nationalelf. Mais outra rota livre para que o goleiro, com apenas 22 anos, virasse titular absoluto também na seleção alemã.

Na Copa de 1990, o sucesso

A nova mostra de boas performances, que fizeram com que o Colônia repetisse o vice da Bundesliga em 1989/90, dava a Illgner respeitável status, na chegada à Itália, para a Copa do Mundo de 1990. E as expectativas foram plenamente confirmadas. Se Matthäus liderava o time de modo exemplar, se Klinsmann e Völler faziam dupla temível de ataque, o arqueiro não se intimidava e mostrava voz de comando, mesmo tendo na zaga gente bem mais experiente, como Brehme e Augenthaler.

Jogando bem, a Alemanha alcançou as semifinais, contra a velha rival Inglaterra. Na partida jogada no Delle Alpi, em Turim, em 4 de julho, Illgner viveria aquele que talvez foi seu momento maior com a seleção. Após o empate em um gol com o English Team, no tempo normal e na prorrogação, veio a decisão por pênaltis. No momento em que cada seleção já convertera três chutes, o zagueiro Stuart Pearce foi dar o seu tiro da marca penal.

Illgner esperou e teve presença de espírito para, mesmo escolhendo o canto direito, deixar os pés no meio do gol. Defendeu a cobrança e deixou o espírito britânico em baixa. O resto já se sabe: Olaf Thon fez 4 a 3, Chris Waddle chutou “na lua”, a Alemanha foi à final e papou o tricampeonato mundial.

A velocidade terrível da queda

De volta ao Colônia, Illgner mais uma vez viu seu time falhar em uma final, tendo de se contentar apenas com o vice da Copa da Alemanha, na temporada 1990/91. 1992 traria outra frustração grande, desta vez com a seleção: a equipe de Berti Vogts chegou à final da Eurocopa, mas foi derrotada pela Dinamarca.

Mas se, no coletivo, os reveses se acumulavam, no quesito individual ia tudo bem. Aquele 1992 rendeu a Illgner simplesmente o quarto prêmio consecutivo de Melhor Goleiro da Alemanha. No ano anterior, ele recebera da Uefa o prêmio de melhor arqueiro europeu. Havia outros bons exemplos da posição na Alemanha, como Andreas Köpke, ou Sven Scheuer, ou até um tal Oliver Kahn, iniciando no Karlsruhe. Mas era inegável, então: “o” goleiro alemão da época era Bodo Illgner. 

Enfim, veio a Copa de 1994. A Alemanha chegou aos Estados Unidos como favorita destacada para tornar-se a primeira seleção com quatro títulos mundiais. Porém, alguns problemas de relacionamento dentro do elenco foram, pouco a pouco, minando o ambiente do Nationalelf. E Illgner figurou em um deles, ao usar a imprensa para criticar abertamente Berti Vogts.

Vieram as quartas-de-final, contra a Bulgária, em 10 de julho. E a derrota surpreendente por 2 a 1 para os búlgaros, no Giants Stadium de Nova Iorque, não acabou somente com as chances do tetra. Criticado pela torcida (teria falhado principalmente no segundo gol – a falta de Letchkov foi considerada defensável por alguns), rompido com Vogts e começando a alternar a titularidade com Köpke, Illgner decidiu, mesmo com apenas 27 anos e 54 partidas, deixar em definitivo a seleção da Alemanha. Nunca mais atuou com a 1 germânica, depois do 10 de julho de 1994.

A ressurreição. Brecada por uma futura lenda

O fim melancólico da carreira na seleção não perturbou, no entanto, sua posição em clubes. Primeiro, porque Illgner permaneceu indiscutível no Colônia. E, depois, porque, em agosto de 1996, mesmo tendo iniciado a Bundesliga 1996/97, jogando as quatro primeiras partidas, Illgner recebeu proposta irrecusável do Real Madrid, diretamente do técnico Fabio Capello, que o queria em Chamartín. Não deu outra: após 326 partidas pelo Colônia, o goleiro chegou ao Santiago Bernabéu para ser titular absoluto, em um contrato de três anos.

Logo na primeira temporada envergando a camisa 1 dos Merengues, o primeiro sucesso em clubes, com o título espanhol da temporada 1996/97. Num time estelar, com Hierro, Redondo, Seedorf, Suker, Roberto Carlos e os iniciantes Raúl e Morientes, Illgner voltara, agora já mais experiente, a ser sinônimo de segurança, reconsiderado um dos melhores do mundo em sua posição. 1997/98, então, seria mais espetacular ainda: mesmo com um período de irregularidade, em que chegou a perder a posição no time para Santiago Cañizares, Illgner se recuperou e foi o titular nas conquistas da Liga dos Campeões e do Mundial Interclubes, sobre o Vasco.

Quando 1999 começou, aparentemente Illgner continuaria soberano na meta madridista. Tanto que renovara o contrato com o Real por mais três anos. Porém, uma inoportuna contusão no ombro, sofrida no fim do ano, mudou seu destino. No lugar de Illgner, ao invés de Cañizares, um jovem, de 18 anos, surgido nas canteras do clube. Seu nome: Iker Casillas Fernandez. 1999 terminou, veio o início de 2000, o Mundial de Clubes da Fifa, Casillas foi titular e Illgner não se recuperava da contusão no ombro. Quando 2000 caminhava para a metade, o Real ganhou sua oitava Liga dos Campeões e Casillas já parecia pronto para a titularidade, por mais que Illgner estivesse recuperado.

Era tarde demais para o alemão, agora reserva. Ao invés de um fim apoteótico de carreira, vieram apenas mais cinco partidas, pelo Campeonato Espanhol, em 2000/01 – e mais um título nacional para os Merengues. E Illgner decidiu encerrar a carreira, aos 34 anos. Sua vida continua bem, obrigado – é comentarista do canal alemão Premiere, joga esporadicamente no time de masters do Real Madrid e vive em Alicante, litoral mediterrâneo espanhol, com a esposa e empresária Bianca e três filhos. Mas não dá para deixar de dizer que o fim melancólico na seleção alemã e o atropelo da agora lenda espanhola Casillas não permitiram encerramento mais digno à boa carreira de Bodo Illgner.