A mitologia grega conta a história de um pai que desejava apenas filhos homens e, ao ver uma filha mulher, a abandonou no monte Partênio depois do nascimento. Foi alimentada por uma ursa e encontrada e criada por caçadores. Desenvolveu habilidades de caça, protegida por Ártemis, deusa ligada à vida selvagem. Ágil e rápida, podia competir com os deuses Hermes e Íris, os deuses mais rápidos do Olimpo. O seu nome? Atalanta. A deusa da mitologia era corajosa e uma excelente caçadora. Josip Ilicic parecia encarnado com os poderes divinos da inspiradora do clube que defende. Destruiu o Valencia, representado por um morcego, e comandou o time na vitória por 4 a 3 em um estádio Mestalla vazio por causa do surto de Coronavírus.

A grande surpresa desta Champions League, a Atalanta fez uma partida memorável. Foi bem à sua maneira, com um ataque voraz e uma defesa permeável. Não por acaso, saiu com quatro gols na mala, mas leva três sofridos também. Não importava, porque o placar do primeiro jogo tinha sido um impiedoso 4 a 1 em San Siro. O Valencia precisaria de um pequeno milagre para reverter. Possível, claro, mas improvável. O time, porém, pareceu acreditar e tornou o jogo muito bom por isso.

O desempenho ofensivo acabou sendo impressionante, em um time que nem teve a sua melhor atuação na temporada, mas que mostrou uma eficiência enorme no campo de ataque.  Como tem sido a sua tônica ao longo de toda a temporada. Não é por acaso que La Dea tem marcado muitos gols. Se os adversários facilitarem, aí é ainda pior.

Logo no começo da partida, a Atalanta já começou com tudo. Josip Ilicic recebeu pela direita, passou pela marcação e, dentro da área, driblou e foi tocado por Mouctar Diakhaby dentro da área. Pênalti marcado pelo árbitro Ovidiu Hategan, da Romênia. O próprio Ilicic cobrou firme no meio do gol e marcou: 1 a 0 para os italianos. E, com isso, o placar agregado já era 5 a 1 logo a três minutos de jogo.

O Valencia, que já precisava de algo próximo a um milagre, tentou reagir. Aos oito minutos, Rodrigo, em um chute forte de fora da área, fez o goleiro Marco Sportiello trabalhar, tendo que espalmar uma bola que veio quente.

O jogo ganhou um pouco mais de cor aos 20 minutos. Rodrigo, o melhor do Valencia na partida, fez um bom passe, mas o zagueiro José Luis Palomino conseguiu interceptar. Só que não conseguiu ter equilíbrio para cortar e Kevin Gameiro contornou o defensor, pegou a bola e tocou para o gol, com agilidade: 1 a 1.

As coisas voltaram a se complicar novamente no final do primeiro tempo. Em um outro pênalti bobo, mais uma vez com o zagueiro Diakhaby. Ele bloqueou a bola com o braço, algo que o árbitro não tinha visto, mas após revisão pelo VAR, o pênalti foi marcado. O zagueiro ainda recebeu cartão amarelo. Ilicic cobrou e ampliou o placar, aos 42 minutos do primeiro tempo.

Ainda no fim do primeiro tempo, a Atalanta fez uma mudança com a saída de Marten De Roon e a entrada do centroavante Duván Zapata. Com isso, Mario Pasalic foi recuado para atuar um pouco mais atrás. Acabou assim o primeiro tempo.

Na volta ao segundo tempo, o técnico do Valencia, Albert Celades, sacou o zagueiro Diakhaby, de participação terrível na partida, e colocou Gonçalo Guedes. Recuou, assim, o volante Geoffrey Kondogbia para ser zagueiro. Apostou em um atacante a mais para tentar um milagre, já que, àquela altura, eram necessários cinco gols.

O Valencia chegou ao segundo gol no começo do segundo tempo. O zagueiro Palomino errou na saída de bola e entregou a bola para os adversários. Depois de uma troca de passes do time da casa nas imediações da área, Ferrán Torres cruzou para a área e o atacante Gameiro subiu e tocou de cabeça para empatar o duelo: 2 a 2, aos 51 minutos (6’/2T).

A montanha a ser escalada ainda era muito grande. E seguindo em frente, o Valencia aproveitou um erro de passe da Atalanta aos 21 minutos, Dani Parejo lançou no buraco da zaga dos italianos e Ferrán Torres recebeu pelo meio e teve liberdade para tocar por cima do goleiro: 3 a 2. Ao menos os Ches estavam em vantagem, mas ainda seriam necessários mais três gols para que a classificação viesse.

A Atalanta, porém, se especializou em jogar baldes de água fria na partida. E aos 25 minutos, em um contra-ataque, a Atalanta conseguiu mais um gol. Ilicic carregou a bola, abriu na direita para Zapata, que tentou colocar na área. A bola explodiu na defesa e sobrou para Ilicic tirar da marcação, que não apertou, e chutar forte, cruzado, de canhota: 3 a 3. Com isso, Ilicic se tornou o sexto jogador na história da Champions League a fazer um hat trick fora de casa. Também se tornou o jogador mais velho a conseguir o feito, com 32 anos e 41 dias.

A essa altura, não havia mais o que fazer em termos de classificação. Não havia milagre que fizesse o Valencia voltar a ter chance na partida. E isso, claro, reduziu o ímpeto dos Ches. Assim, a Atalanta era quem comandava o jogo e tentava continuar criando chances. Foi assim que, aos 82 minutos (37’/2T), Ilicic, já quase sem pernas, recebeu dentro da área e chutou bonito, forte, no ângulo: 4 a 3. Nova virada.

Ilicic, então, quebrou outra marca: é o primeiro jogador a marcar quatro gols fora de casa em um jogo de mata-mata da Champions League. E se igualou a Lewandowski, quatro gols no Real Madrid (2012/13);  Messi, cinco no Leverkusen (2011/12); Mario Gómez, quatro no Basel (2011/12); Messi, quatro gols no Arsenal (2009/10).

Na sua primeira participação nas oitavas de final da Champions League, a Atalanta não só se classificou, como deu um banho. Foram duas vitórias, nas duas marcando quatro gols, em um placar agregado de 8 a 4. Algo absurdo pensando o quanto tem sido difícil para os times fora dos mais conhecidos times da Europa estarem nas fases decisivas da competição. A Atalanta estará nas quartas de final para tentar, mais uma vez, surpreender. Se em 2018/19 o Ajax assumiu o posto de surpresa, a Atalanta, sem dúvida, é quem ocupa este papel na atual temporada.

Em meio a preocupações com o Coronavírus, a situação é tão tensa, em um momento tão histórico para a Atalanta, que o clube foi ao Twitter pedir que as pessoas cumpras as recomendações do governo e não se reúnam para comemorar a classificação, nem se aglomerem no aeroporto para receber o time.