O mercado de transferências do futebol brasileiro viveu uma transformação nos últimos anos. O exportador que negociou centenas de jogadores entre o fim dos anos 1990 e o começo dos 2000 passou por um movimento reverso. Embora os principais talentos continuassem partindo, outros tantos começaram a chegar. Primeiro, veteranos repatriados. Depois, jogadores próximos do auge. Um sinal claro da força econômica dos clubes do país.

Aos 32 anos de idade, Ilan pode falar com propriedade sobre esse processo. Revelado pelo Paraná, o atacante fez sucesso no Atlético Paranaense e acabou vendido ao Sochaux em 2004, por € 3 milhões. Depois de boas passagens também por Saint-Étienne e West Ham, fez o caminho inverso em 2010, em casamento pouco feliz com o Internacional. De volta à Europa em 2011 e desde o início da temporada no Bastia, o veterano analisa com clareza as mudanças vividas desde então.

Em entrevista à Trivela, Ilan comparou as diferenças mais marcantes entre o futebol brasileiro e o europeu: do âmbito estrutural ao cultural. Ressaltou a importância de uma melhora nas estruturas de organização, especialmente entre os jogadores. O atacante também ponderou o equilíbrio na França, com a ascensão do PSG e a intervenção do governo nos mecanismos dos clubes. E falou sobre o futuro de sua carreira.

– Quais as diferenças entre atuar no Brasil e na Europa atualmente?
Ilan: O futebol brasileiro hoje já disputa muito espaço com o europeu financeiramente, mas não esportivamente. Os clubes brasileiros estão nivelados e até pagam muito a jogadores sem história. Atletas que não possuem um passado de títulos e são supervalorizados. Na Europa, isso não acontece, os salários são mais justos. Mas, mesmo com esse crescimento financeiro, o Brasil nunca competirá esportivamente. Apesar do Brasileirão e da Libertadores, a Liga dos Campeões é incomparável.

– Ponderando vários quesitos, você acha mais vantajoso jogar na Europa ou no Brasil atualmente?
Ilan: Depende do jogador. Na Europa, você tem novas experiências, tem contato com uma nova cultura. Mesmo se ganhar um pouco menos que no Brasil, vale por esse lado. Hoje em dia, não é preciso sair do Brasil para ganhar dinheiro. No caso do Neymar, por exemplo, seria ótimo. Ele não progredirá mais no futebol brasileiro. Ele é o dono do Brasil hoje em dia, mas não provou nada na Europa. Ele precisa provar para quem o critica que pode jogar bem no futebol europeu. E, quando isso acontecer, ele não voltará tão cedo.

– O que facilitou sua adaptação na Europa?
Ilan: Acho que é a vontade de se adaptar. Sai de Curitiba, fui para uma cidade menor como Sochaux, uma realidade diferente. Tentei me integrar o máximo possível, à cultura, à língua, ao modo de pensar. Sou bastante curioso e tentei aprender. Já a Inglaterra é um país para o qual eu adoraria voltar. Tem um dos melhores campeonatos do mundo, tem mídia, torcedores respeitosos. O Campeonato Inglês tem magia. Mas hoje minha vida é na França. Sou casado com uma francesa, tenho uma filha que nasceu aqui e outra que nascerá.

– Quais as principais diferenças estruturais entre os clubes brasileiros e os europeus?
Ilan: As diferenças não são tão grandes assim. A maior é na organização. Por exemplo, o Inter tem um bom estádio, muitos sócios, mas não tem um gramado bom. O que o jogador precisa é de um bom gramado, boas instalações, boa equipe média. Essa é a diferença para a Europa. Às vezes o clube não tem um centro de treinamento tão bom, mas não passa por esses problemas.

– Neste ponto, como você vê as diferenças nos modelos de gestão? O Brasil cresceria com uma profissionalização maior entre os dirigentes?
Ilan: Com certeza. Na Europa, os clubes são geridos por um mesmo presidente por anos. Não é como no Brasil, que os dirigentes acumulam dívidas e, em quatro ou cinco anos, deixam os problemas para os sucessores. Lá, o dono do clube é quem paga, de uma maneira ou de outra. Além disso, existe uma organização que gerencia os gastos. Se o Bastia não tem orçamento para grandes gastos, ele será controlado, não pode entrar no vermelho. Existe um freio.

Ilan teve uma passagem marcante pelo Saint-Etienne entre 2006 e 2010
Ilan teve uma passagem marcante pelo Saint-Etienne entre 2006 e 2010

– E em relação aos jogadores, você acha que a existência de uma organização sindical de jogadores forte como na França poderia ajudar o futebol brasileiro?
Ilan: Este é um ponto fundamental. Quando eu estava no Atlético, tive contato com o sindicato, mas não aderi porque achava que não valia a pena. Na França, me filiei quando estava no segundo ano pelo Sochaux. Atualmente, 99% dos jogadores são filiados. O sindicato disponibiliza vários serviços que os jogadores necessitam, como a reconversão quando os jogadores se aposentam e não tem para onde ir. No Brasil, seria fundamental essa união. A televisão e os cartolas comandam o futebol brasileiro. Aqui não, são os jogadores que se reúnem e decidem o que acontece.

– Por que seu retorno ao Internacional não deu certo?
Ilan: Tem coisas que só acontecem no Brasil. Cheguei com um ano e meio de contrato, mas disputei algumas partidas e rompi o tendão. Em uma reunião com os dirigentes, decidiram que eu não ficaria. Aceitei fazer um acordo. O problema é que no dia seguinte me barraram quando quis entrar no clube para me tratar. Tive que utilizar minhas forças, gastar tempo na justiça. Foi um erro que não aconteceria na França, por exemplo. Se existisse um sindicato de jogadores forte, seria diferente.

– Você teve uma passagem curta pela seleção, sem receber chances desde a Copa das Confederações de 2003, quando a seleção foi eliminada na primeira fase. Você acha que, de alguma forma, ficou marcado pela campanha ruim?
Ilan: Não, era uma seleção em formação. O Parreira utilizou vários jogadores. Além disso, as circunstâncias do torneio resultaram na eliminação. Não acho que teve influência no meu futuro. Pouco depois, fui para um clube médio europeu, com menos visibilidade. Evolui muito na Europa. Mas o futebol tem seus caminhos. Gostaria de ter jogado mais pela seleção, mas não tenho problemas com isso.

– Uma das principais questões atualmente na França é o aumento do imposto para a população mais rica do país. Ao contrário do que se pensava, as novas regras irão afetar os clubes. Como foi o impacto da notícia?
Ilan: O imposto normal para os jogadores na França já é alto hoje em dia, de 45%. Mas essa questão ainda não está bem definida. O sindicato de jogadores é muito forte no país e estava se posicionando contra esse aumento. As novas taxas irão aumentar a carga social para os clubes, o que não é bom para o campeonato. Se acontecer mesmo, vários jogadores vão sair. A medida afeta principalmente os médios e grandes clubes, que vão ter que fazer esforços maiores ou romper contratos. Os pequenos não devem ter problemas, como o Bastia.

– O Paris Saint-Germain realizou um investimento fora da realidade do futebol francês nos últimos anos. Como lidar com uma discrepância de nível tão grande?
Ilan: A relação entre os times não muda muito, porque para nós o título está distante. O que acontece é que eles investiram tanto que a diferença fica ainda maior. Além disso, os outros clubes grandes estão passando por problemas financeiros, como o Olympique de Marseille e o Lyon. Ainda assim, contar com um time como o PSG serve para valorizar ainda mais a competição. As pessoas são atraídas a ver os jogos e acabam conhecendo os outros times.

– Como é a vida na Córsega?
Ilan: Climaticamente, se aproxima bastante do Brasil. O verão é quente e o inverno não é tão intenso, por ser uma região marítima. Além disso, é um lugar muito tranquilo para se morar. A violência quase não existe. A única coisa ruim é ter que pegar um avião todas as vezes em para sair da ilha.

– A Córsega possui alguns movimentos separatistas. É possível notá-los no cotidiano da ilha?
Ilan: Eles existem, mas são minoria, boa parte no interior. É uma questão cultural. A França invadiu a Córsega, o que gerou o problema. Porém, a ilha é dependente dos subsídios franceses e dos turistas que vem de lá, o que impede um movimento maior.

– No último jogo, tivemos uma briga generalizada entre Ajaccio e Bastia, os dois times da Córsega na Ligue 1. Como é a rivalidade entre os clubes?
Ilan: Na verdade, a rivalidade maior do Bastia é contra o Nice e contra o Olympique de Marseille. A disputa com o Ajaccio existe, mas é menor.  O Bastia possui uma história mais rica. O clube já foi vice-campeão da Copa da Uefa, o que marcou muito. A briga no último jogo foi uma fatalidade. Chutaram nosso goleiro nos acréscimos, o que ocasionou a briga.

– Você voltaria ao futebol brasileiro? Tem preferência por algum clube?
Ilan: Tive oportunidade de voltar, algumas propostas, mas preferi continuar na França por questões familiares. Aqui é melhor, mas seria bom voltar o Brasil, passar pelo menos um ano antes de encerrar a carreira. São vários clubes brasileiros interessantes. Sou de Curitiba, uma cidade que tem dois grandes clubes. Tenho uma história no Atlético Paranaense, mas são dois times de primeira divisão.