O beisebol é o esporte mais popular na Venezuela. É o que mobiliza a torcida, a mídia. É onde está a tradição e o orgulho esportivo venezuelano. Hugo Chávez não perderia a oportunidade de usar o esporte para projetar os feitos de seu governo, mas o beisebol não era o melhor caminho. Primeiro, porque já é um esporte estabelecido no país. Segundo, porque a influência da modalidade seria forte apenas nos Estados Unidos (onde ninguém daria bola para qualquer evolução que o governo chavista trouxesse ao esporte) e em Cuba (onde não seria necessário crescer no esporte para ter repercussão). O que restou ao presidente? Investir no esporte mais popular das Américas.

O futebol poderia mostrar para a América Latina os efeitos da linha de trabalho esportivo-social de seu governo. E aqui não cabe julgar se ela é boa ou ruim, positiva ou negativa, demagógica ou ideológica. Mas o futebol foi o alvo escolhido, pois teria repercussão nas nações que interessavam ao governo chavista mostrar seu trabalho.

Dentro de campo, dá para dizer que a virada venezuelana foi em 2001, quando a seleção arrancou na reta final das Eliminatórias e entrou em um patamar equivalente à dos demais países da América do Sul, onde está até hoje. Fora de campo, o ano da mudança foi 2007. Justamente o alvo do governo de Chávez.

O país estava definido como sede da Copa América. O governo deu tratamento de torneio de primeira linha. Foram investidos cerca de US$ 700 milhões em arenas, entre construção de três estádios e grande renovação em outros seis. Das nove arenas, apenas uma tem capacidade inferior a 35 mil torcedores.

As construções impressionaram por estarem muito acima do padrão normal da Copa América. O torneio foi bem sucedido em campo e, mesmo com a queda dos vinotintos já nas quartas de final, a média de público oficial foi de mais de 40 mil torcedores. Impulso suficiente para justificar a ampliação do Campeonato Venezuelano de dez para 18 times.

A partir daí, o futebol virou um esporte das massas na Venezuela, certo? Não tão cedo. De fato, o futebol se consolidou como a segunda modalidade mais popular entre os venezuelanos, mas nada minimamente compatível com a aposta realizada. A média de público seguiu baixa (muitos clubes não chegavam a mil torcedores), o que ficou ainda mais nítido em arenas gigantescas.

Muitos dos oito clubes clubes promovidos repentinamente não tinham estrutura financeira para manter os custos de uma equipe de primeira divisão. Outros já estavam estabelecidos, mas dentro de uma estrutura enxuta. Não tinham torcida para sustentar estádios de 40 mil lugares. Nesse cenário, vários clubes fecharam as portas e outros tiveram de contar com apoio da prefeitura para se sustentar (ou para manter os estádios). O caso mais evidente desse processo foi o Unión Maracaibo, finalista nas três edições do Campeonato Venezuelano anteriores à expansão de 2007 e que fechou as portas em 2011.

No geral, o projeto de Hugo Chávez com o futebol não trouxe os resultados esperados. A Venezuela cresceu no cenário internacional, mas isso se deveu muito mais ao trabalho de jogadores e técnicos do que ao investimento em infraestrutura. O trabalho extracampo não virou referência no continente. De qualquer forma, o país ficou com grandes estádios, que ainda esperam o momento em que o futebol realmente se tornará um esporte de massa no país. Deve demorar muito.