O basquete brasileiro viveu uma das maiores partidas de sua história em 1° de dezembro de 1991. Naquela data, Constecca/Sedox (de Sorocaba) e BCN (de Piracicaba) se enfrentaram na primeira decisão do Mundial de Clubes Feminino. O ginásio do Parque São Jorge estava abarrotado não somente para ver uma final brasileira na competição internacional. Boa parte dos presentes queria acompanhar, em particular, o duelo entre as craques Hortência e Paula. Companheiras de seleção e campeãs do Pan-Americano meses antes, elas mediriam forças em busca do troféu inédito. E, num jogo memorável, a vitória do Constecca/Sedox por 107 a 105 referendou o apelido de “Rainha” dado a Hortência. A craque anotou 55 pontos, 29 em lances livres. Terminou reverenciada por companheiras e rivais.

O título no Parque São Jorge, porém, não se limitou ao Constecca/Sedox. Graças a Hortência, ele foi também um pouco do Corinthians. Fanática pelo clube, a Rainha teve o apoio de muitos torcedores nas arquibancadas. Em retribuição, recebeu o troféu com uma bandeira corintiana pendurada nas costas. Havia um orgulho especial pela conquista naquele local. “A torcida do Corinthians estava ali torcendo por mim. O carinho que recebi do torcedor corintiano foi ótimo. Eu me senti em casa”, declarou a veterana, anos depois, em entrevista à CBN. Ela ainda ganharia mais dois Mundiais de Clubes (com a Ponte Preta/Nossa Caixa Nosso Banco), além da Copa do Mundo de 1994, o feito mais expressivo de sua carreira – e do esporte feminino no país.

A paixão corintiana de Hortência se manifestou outras tantas vezes em sua vida. Mesmo nascida em uma família repleta de santistas, ela optou por abraçar o Corinthians. “É uma coisa que não sei explicar o porquê. Estava no sangue. Nasci desse jeito”, afirmaria a jogadora, que completou 60 anos nesta segunda-feira. E as cores alvinegras a acompanham sempre, mesmo que nunca tenha representado profissionalmente o Corinthians dentro das quadras. Aquele título com o Constecca/Sedox foi um atalho a esse sonho.

Um ano antes, era o Corinthians quem oferecia uma grande alegria a Hortência. Em 1990, ela acompanhou nas arquibancadas do Morumbi a conquista do Campeonato Brasileiro sobre o São Paulo. Ao lado de seu marido na época, o empresário José Victor Oliva, a Rainha era convidada de honra dos rivais. Enquanto o esposo vestia a camisa tricolor, Hortência estava com seu manto alvinegro, ao lado de dirigentes do alto escalão são-paulino. Teve o gosto especial de sentir a glória ao lado dos inimigos.

“Quando o Tupãzinho fez o gol do título, tive que me conter. Não pude comemorar muito, nem gritar. Fiquei na minha, é claro, mas com o grito preso na garganta. Depois do jogo, telefonei para o Neto e para o Ronaldo, que são meus amigos, para lhes dar os parabéns. Só aí pude falar o que queria”, contou, em entrevista à revista Placar em 1993. Já na segunda-feira, Hortência extravasou realmente sua alegria durante o treino do Constecca/Sedox.

“Eu e a Vanira, que também é corintiana, pintamos o rosto de preto e branco, vestimos a camisa do Corinthians, penduramos uma faixa no ginásio e colocamos o hino para tocar. Quando começou, pegamos uma bandeira do Timão e entramos na quadra. Todo o time já estava lá, inclusive o técnico, Antônio Carlos Vendramini, que é são-paulino fanático. Tiramos um sarro dele e das são-paulinas do time”, complementou.

Outro momento marcante ao Corinthians, e a Hortência, aconteceu na decisão do Mundial de Clubes em 2000. Ela também estava no Maracanã naquela ocasião histórica. “Eu não esqueço do que eu vi na final do Mundial, Corinthians contra Vasco. Estava sentada de um lado do estádio, vendo a torcida do Corinthians, que cantou o jogo inteiro e encobriu a torcida do Vasco. Foi uma coisa impressionante. Eu estava ali presente, foi a coisa mais impressionante pra mim. Eu falei: ‘Gente, igual a essa torcida não tem’. Não parou um minuto e o Corinthians foi campeão. Eu não me esqueço disso, foi de arrepiar”, relembrou, ao Portal da Copa de 2014.

Hortência também viveria intensamente o rebaixamento corintiano em 2007. “Nunca me imaginei chorando porque o Corinthians perdeu um jogo. Eu fui para o banheiro e fiquei muito emocionada com o rebaixamento. Mas foi a melhor queda que poderia acontecer pro nosso time. Voltamos com a corda toda, a torcida se uniu mais. Foi uma lição de como o torcedor deve se comportar”, contou, à CBN.

E o ápice dessa reconstrução culminaria nas históricas conquistas de 2012, a começar pela Libertadores. Outro instante indelével à Rainha. “Eu achei o jogo [a volta contra o Boca] o máximo. Tiramos aquele peso das costas. Agora nós podemos dizer que somos campeões”, comentou, ao Bom Dia Brasil, logo após o título continental. “Vi aquele pique do Sheik e pensei: ‘Pronto, ninguém tira mais’. Foi a maior alegria que o Corinthians me deu. Agora acabou. Já temos o nosso estádio, somos campeões. Vamos ganhar no Japão para não deixar dúvidas”.

A felicidade, de qualquer maneira, só ficou completa com a vitória sobre o Chelsea na final do Mundial de Clubes. “A minha alma está lavada, lavadíssima. Agora não ficou nenhuma dúvida do que o Corinthians é, do que a torcida pode fazer, porque realmente somos donos do mundo. Agora podemos falar”, afirmou, na época, durante o programa Troca de Passes. “O outro campeonato que ganhamos as pessoas questionam muito. Agora, não tem questionamento: o Corinthians é campeão do mundo! E jogou bem para caramba! Não podia ter presente melhor para esta torcida maravilhosa. Isso prova que, quando você tem uma camisa forte, uma torcida forte e tem time grande, não tem porque não fazer uma gestão boa”.

Como torcedora, mais uma vez, Hortência experimentou o orgulho de ver a bandeira corintiana no alto do pódio. De certa maneira, teve a mesma sensação compartilhada por outros torcedores na decisão do Mundial de Clubes de Basquete Feminino em 1991. O time do coração soube como retribuir a homenagem feita pela Rainha em uma de suas maiores conquistas.

* A pauta atende a um pedido do leitor John Souza. Valeu!