O Sudão atravessa atualmente um dos momentos mais importantes de sua história. Desde dezembro, massivos protestos tomaram as ruas do país. Inicialmente, as manifestações se direcionavam aos problemas econômicos e à crescente pobreza. No entanto, aos poucos a população começou a exigir a queda do presidente Omar al-Bashir. O ditador havia chegado ao poder em 1989, através de um golpe, e passou por três reeleições suspeitas de fraude. Além disso, a lista de acusações contra o político são bem mais profundas, incluindo autoritarismo, corrupção, violação de direitos humanos, crimes de guerra e até mesmo genocídio durante os conflitos na região de Darfur. Na madrugada desta quinta, a pressão crescente resultou em um golpe militar, com a prisão do antigo mandatário e o estabelecimento de um conselho militar de transição. O detalhe é que, horas antes da ação, parte dos manifestantes resolveu dar uma pausa nos protestos. Era hora de Liga dos Campeões.

A imagem foi postada nas redes sociais por Yousra Elbagir, repórter do Channel4News com ampla experiência na cobertura de política internacional. Segundo a jornalista, um telão foi montado no principal foco das manifestações em Cartum, capital do Sudão. Sentados ao redor do ministério da defesa, onde também fica a residência presidencial, os manifestantes aproveitaram a ocasião assistir ao jogo da Champions, transmitido na noite de quarta-feira no país – poucas horas antes dos militares tirarem al-Bashir do poder. “A revolução pode esperar, Manchester United e Barcelona estão jogando neste momento”, escreveu Elbagir, expressando o pensamento dos sudaneses que deram uma trégua momentânea à pressão contra o presidente. Um pouco de distração antes de receberem a notícia sobre a queda do governo.

Vale ressaltar que uma das marcas do movimento sudanês é o caráter pacífico dos protestos. No entanto, estas manifestações vinham sendo reprimidas de maneira violenta por al-Bashir. Em fevereiro, o presidente declarou estado de emergência, dissolvendo as estruturas políticas e colocando militares em cargos de confiança. Ao longo da última semana, porém, a população realizou a maior mobilização sob estado de emergência. Milhares de pessoas passaram a se sentar ao redor da sede do ministério da defesa. Segundo fontes oficiais, o último final de semana teve seis mortes, 57 pessoas feridas e 2500 prisões apenas em Cartum. As pessoas mobilizadas nas ruas também sofrem com a falta de mantimentos e até mesmo de água.

O golpe militar soa como um movimento interno de alas específicas da ditadura, sobretudo islamitas, e ainda não satisfaz totalmente a população do Sudão. O anúncio da queda de al-Bashir foi realizado por Ahmed Awad Ibn Auf, ministro da defesa e também envolvido em crimes de guerra. O novo mandatário, sentado na cadeira dourada da presidência, garantiu um cessar fogo, mas também um novo estado de emergência e a suspensão da constituição. O discurso acabou recebido sob desaprovação de boa parte dos manifestantes e logo cânticos contra Awad Ibn Auf passaram a ser entoados nas mobilizações. Principal responsável pelas ações populares, a Associação de Trabalhadores do Sudão (SPA) rejeitou os planos e pediu que os protestantes continuem nas ruas.

O desejo da SPA e de outras organizações populares é que um governo civil de transição permaneça no poder, antes que eleições gerais sejam realizadas para determinar o novo executivo. Em processo parecido com o do vizinho Egito, o conselho militar de transição promete permanecer dois anos no poder, para viabilizar os pleitos civis. A tensão, de qualquer maneira, não parece resolvida apenas com a saída de al-Bashir.