A Polônia bateu Israel por 4 a 0 nesta segunda-feira (10), pelas eliminatórias da Eurocopa, com os artilheiros Krzysztof Piatek e Robert Lewandowski deixando os seus, enquanto Kamil Grosicki e Damian Kadzior completaram o placar. O momento mais marcante do duelo, no entanto, veio antes, longe dos gramados.

Na segunda-feira (9), a TSKZ, Sociedade Sociocultural de Judeus Poloneses, sediou um evento em uma exposição dedicada a jogadores judeus poloneses, com foco especial em Józef Klotz, atleta histórico da seleção polonesa.

Nascido na Cracóvia em 1900, Klotz defendeu as cores de Jutrzenka Cracóvia e Maccabi Varsóvia, duas antigas equipes de minorias judias. Em 1922, o jogador marcou o primeiro gol da história da seleção polonesa.

Em maio daquele ano, a Polônia fazia apenas sua terceira partida. Havia passado em branco nos dois primeiros confrontos. Diante da Suécia, em Estocolmo, os poloneses enfim conquistaram sua primeira vitória, um 2 a 1. E o placar foi inaugurado aos 27 minutos, de pênalti, por Klotz, que disputou apenas dois jogos pelo esquadrão nacional.

Suíça 1×2 Polônia, em Estocolmo, foi primeira vitória polonesa e também partida do primeiro gol da equipe (Divulgação/From the Depths)

O jogador morreu menos de 20 anos depois daquele dia em que pôs seu nome na história do futebol do país. Em 1941, foi assassinado pelo exército nazista, no Gueto de Varsóvia, por causa de sua origem judaica – Leon Sperling, que defendeu a seleção polonesa 16 vezes e disputou os Jogos Olímpicos de 1924, em Paris, além de ser capitão das três primeiras conquistas nacionais do Cracóvia, foi morto pelo mesmo motivo, no Gueto de Lvov.

Sobrinho-neto de Józef Klotz, Yoav Dekel, ao lado do filho Eitan, recebeu no evento da segunda-feira uma camisa da seleção polonesa com o nome do tio às costas, assinada por todos os membros da seleção polonesa atual. Dekel ganhou ainda um livro que conta a história da seleção polonesa de 1921 a 2018.

“Meu tio-avô Józef só era lembrado por duas fotos borradas do Jutrzenka Cracóvia. Foi só recentemente que começamos a descobrir mais sobre ele, que foi quase esquecido. É por isso que somos tão gratos a organizações como a From The Depths por manter essa importante memória viva”, disse Dekel ao Jerusalem Post.

Diretor da Federação Polonesa, Janusz Basalaj celebrou a oportunidade de recordar que “a Polônia sempre foi um país de várias culturas, religiões, de grande tolerância, onde Józef Klotz, vindo do povo escolhido, jogou pela seleção da Polônia e marcou o primeiro gol”.

Recentemente, como aponta a Reuters, as relações entre Polônia e Israel pioraram por causa de acusações de que o governo de direita do partido polonês Lei e Justiça teria sido incapaz de combater com energia suficiente os incidentes antissemitas no país. O momento geopolítico torna a homenagem em Varsóvia ainda mais relevante. Um lembrete dos laços entre judeus e a Polônia e da necessidade de não se deixar que o ódio tome conta sem uma resposta enérgica.

O sobrinho-neto de Klotz espera que a história de seu tio, assim como o duelo entre as seleções polonesa e israelense, inspire uma união maior dos povos. “O futebol deveria unir as pessoas, os grupos e, claro, judeus e poloneses, já que a cultura judaica era bastante difundida na Polônia antes do Holocausto”, contou Dekel à Reuters.

Os poloneses Klotz e Sperling são apenas algumas das vítimas que o futebol perdeu para o Holocausto. Em matéria do mês passado, o Guardian recordou outros 11 jogadores judeus assassinados pelo regime nazista e que, como Klotz, merecem ter seus nomes lembrados.