Holanda

Tudo o que você nem sabia que existia sobre a Nacompetitie, a repescagem do Holandesão

Por algumas vezes, esta coluna precisa falar de ameaçados pelo rebaixamento. Ou mesmo precisa se referir ao regulamento do Campeonato Holandês. Assim, de vez em quando, é necessário falar da famosa repescagem que define acesso e descenso dentro do organograma do futebol holandês. No entanto, ao contrário do que se vê em outros países da Europa – e até na Série B brasileira -, a Nacompetitie (nome popular da repescagem, significando “depois da competição”, em holandês) tem um regulamento bastante intrincado.

E isso torna bastante difícil a explicação de promoção e queda entre primeira e segunda divisões no futebol holandês. Torna-se, pois, igualmente custoso comentar como estão as disputas por vagas. No entanto, o momento atual é bastante propício para que se faça isso. Afinal de contas, tanto Eredivisie como Eerste Divisie já se aproximam de seus encerramentos. E as coisas principais já estão definidas dentro dos torneios. Resta apenas, justamente, a disputa definitiva por duas vagas na divisão de elite – ou na segunda divisão holandesa.

Momento apropriado para a explicação de como são os play-offs de repescagem. Primeiramente, a obviedade é gritante, mas é necessária: o campeão da Eerste Divisie já se garante no Campeonato Holandês da temporada seguinte, enquanto o lanterna da Eredivisie já tem a queda sacramentada. E os ocupantes de tais postos em 2014/15 já foram definidos.

O Dordrecht está condenado à 18ª e última posição na primeira divisão, o que se deu com três rodadas de antecedência. Já o NEC não só conquistou o título da segunda divisão, mas também marcou época. A equipe de Nijmegen simplesmente foi a primeira da história do futebol holandês, em todas as divisões, a superar a barreira dos cem pontos; a vitória sobre o Jong Ajax (time B dos Ajacieden), por 2 a 1, na semana passada, levou-a aos 101 pontos, na 37ª e penúltima rodada. A queda dramática na temporada passada – ocorrida nos play-offs, por sinal – foi vingada com juros e correção monetária. Há, então, uma vaga definida na primeira divisão, e outra na segunda.

Para a definição dos outros dois lugares em ambas as ligas é que se criou a Nacompetitie, na temporada 2005/06. E o regulamento atual vem desde a temporada 2008/09, contendo dez times. Dois deles são o 16º (antepenúltimo) e 17º (penúltimo) colocados da Eredivisie. A partir daí, começa a complicação. Das 38 rodadas da segunda divisão, 36 rodadas são divididas em quatro “períodos” – cada um com nove rodadas, logicamente. Os quatro vencedores deles (chamados “periodekampioenen”, campeões de período) já estão garantidos nos play-offs de acesso e descenso. Fora os egressos da Eredivisie e os campeões de período, entram nos play-offs os quatro melhores colocados da segunda divisão que não tenham conquistado algum período.

Isso, inicialmente. A partir daí, a complicação atinge níveis “invejáveis”. Se o campeão da temporada na segunda divisão também é um “campeão de período”, quem ocupa tal vaga é o segundo colocado no período. Então, caso o vencedor da Eerste Divisie tenha conquistado o primeiro período, entre a 1ª e a 9ª rodadas, entra o segundo colocado deste, certo? Errado: se o campeão ganha outros períodos na temporada regular após o inicial, quem ganhará a vaga nos play-offs não será o segundo a pontuar mais entre as nove primeiras rodadas, mas o melhor colocado ao fim das 38 rodadas.

Para facilitar o entendimento, vejamos o que acontece nesta Eerste Divisie. O NEC ganhou os quatro períodos. Como já ganhara o primeiro, as vagas dos períodos restantes ficaram para os segundos colocados de cada um deles (a saber, Almere City, no segundo, entre 10ª e 18ª rodadas; FC Oss, no terceiro, entre 19ª e 27º; e FC Eindhoven, no quarto, entre 28ª e 36ª). Porém, o Volendam, segundo colocado entre a 1ª e a 9ª rodadas, não terá vaga garantida por isso. Ela ficará com o Roda JC, clube de melhor colocação na temporada regular – já está com o terceiro lugar garantido antes da última rodada, a ser disputada nesta sexta.

Menos mal que os Volendammers também estão garantidos, como um dos quatro melhores colocados sem “títulos de período”. E além de Roda e Volendam, entrarão pela pontuação regular Emmen, De Graafschap e Sparta Rotterdam. Na Eredivisie, com o Dordrecht já rebaixado, buscam escapar dos play-offs Excelsior (15º, com 31 pontos), NAC Breda (16º, com 28) e o praticamente condenado Go Ahead Eagles (17º, com 26).

Tão logo fiquem conhecidos os dez times, os play-offs começarão com os quatro piores segundo a classificação regular da temporada, tenham vencido períodos ou não. Pela classificação atual, Sparta Rotterdam, De Graafschap, FC Oss e Almere City farão a primeira fase: duas chaves, jogos de ida e volta entre dois.

Definida a dupla de classificados, ela vai para uma nova fase de play-offs, onde já esperam os quatro melhores vindos da Eerste Divisie, mais antepenúltimo e penúltimo colocados da Eredivisie. As oito equipes são divididas em quatro chaves, sempre definidas em ida e volta. E os vencedores das quatro chaves fazem mais duas partidas, em duas chaves, para (até que enfim!) definirem quem conquista o acesso à elite – ou a permanência nela. Quem é derrotado, obviamente, fica na segunda divisão, ou cai para ela.

É evidente que ocorrem histórias de alta emoção nos play-offs. Por exemplo: na temporada 2009/10, Sparta e Excelsior, ambos de Roterdã, chegaram a uma das decisões de vaga na Eredivisie. Após empate sem gols na ida, com o Excelsior como mandante, a decisão ficou para 16 de maio de 2010, no Kasteel, estádio do Sparta. Aos 43 minutos do segundo tempo, pênalti para o Excelsior. Guyon Fernandez, atacante (hoje no NAC Breda), desperdiçou a chance. Aos 45, Rydell Poepon fez 1 a 0 para o Sparta. Acesso definido? Negativo: aos 47, inacreditavelmente, Fernandez consertou o erro no pênalti da menor maneira possível, fazendo o gol de empate e levando o Excelsior para a primeira divisão, graças ao gol fora de casa.

No entanto, a compreensão difícil do sistema de disputa faz com que a inegável emoção do mata-mata pelo acesso seja desperdiçada e tenha seu impacto diminuído. E é uma complicação que merece revisão urgente, até para possibilitar a cogitação da volta dos play-offs na Eredivisie (já houve Nacompetitie pelas vagas da elite nas competições continentais, entre 2005 e 2008). Do modo atual, os play-offs só realçam os eventuais defeitos do mata-mata.

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