Holanda

O reinado menos lembrado de Romário: os anos de ouro com a camisa do PSV

Compensando as críticas que recebia com a genialidade de sempre, atacante é considerado o maior jogador da história dos Boeren

Julho de 2011. Um grupo é guiado por uma visita ao Philips Stadion, estádio do PSV. Na sala de troféus, está tudo lá: a réplica da taça da Copa/Liga dos Campeões 1987/88, a taça da Copa Uefa 1977/78, e as 21 (na época) salvas de prata pela conquista dos campeonatos holandeses. A certa altura, entre perguntas dos visitantes e explicações do guia, este fica sabendo da presença de um brasileiro. Na saída da sala, uma foto de Romário. O guia aponta para ela, olha para o compatriota do ex-jogador presente ali e comenta: “Ele só não gostava de treinar… mas com o que jogava, nem precisava”.

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Nem se sabe mais se o formato da visita é o mesmo. Afinal de contas, o PSV reformou internamente seu estádio e inaugurou um museu propriamente dito, em 2013, ano de seu centenário. Não importa: Romário sempre terá destaque gigantesco na história do clube. Pelos cinco anos passados ali em Eindhoven (foi o clube europeu em que ficou por mais tempo), pelos gols marcados (dependendo das listas de gols e dos critérios delas, sua média passa de 1 gol por jogo – pelo critério de Romário, auxiliado pelo PSV, foram 165 gols em 163 jogos, média de 1,01; outras fontes falam em 165 gols em 167 jogos), e até pela personalidade sempre marcante, o atacante que completa 50 anos nesta sexta é tido e havido como o grande atleta da história dos Boeren. Talvez só o ex-atacante Willy van der Kuijlen, cria da base do PSV, que passou 17 anos no clube e conquistou a supracitada Copa Uefa, se aproxime do filho de Edevair e Manoela (“Lita”), irmão de Ronaldo e Zoraide.

O curioso é pensar que, de parte a parte, a história brilhante do brasileiro esteve muito perto de não sair da imaginação. Primeiro, porque o próprio atacante mal ouvira falar em PSV. Na biografia escrita pelo jornalista Marcos Vinícius Rezende de Morais, lançada em 2009, o próprio comentou: “Minha transferência para o exterior poderia ter sido para um clube da segunda divisão da Itália, que fez a primeira proposta. (…) Fui ao Eurico [Miranda, na época diretor de futebol do Vasco] pedir que ele me vendesse, mas ele não quis, alegando que eu não era jogador para atuar na segunda divisão. Disse-me que ficasse tranquilo que surgiria outro clube. Fiquei possesso”.

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Segundo, porque Romário também passava longe de ser a primeira opção da direção do clube. No documentário “Samba in Eindhoven”, lançado em 2013 pela emissora VPRO para celebrar os 100 anos do PSV e lembrar Romário, Adrie van Kraay (presidente do PSV em 1988) e Kees Ploegsma (diretor geral do clube na mesma época) justificaram: era necessário ter um atacante para fortalecer o time, que só avançara na Copa dos Campeões 1987/88 na base dos empates fora de casa – 0 a 0 em Eindhoven, 1 a 1 fora -, e só ganhara a final nos pênaltis. Pois bem: a escolha primordial era pelo atacante belga Marc Degryse.

Ploegsma foi à Bélgica negociar com o Club Brugge, que pediu uma quantia gigante por Degryse. Negócio fracassado, Ploegsma voltou a Eindhoven. Segundo comentou no documentário, “não havia nenhum evento especial ocorrendo no futebol então, só o torneio olímpico”. Era outubro de 1988. Por mera curiosidade, o diretor perguntou a seu filho homônimo quem estava se destacando nos Jogos de Seul. E Kees Ploegsma Jr. respondeu: “Romário! Esse cara está fazendo um gol atrás do outro nos Jogos Olímpicos”.

Kees pai viu os jogos do time olímpico brasileiro que terminaria com a prata. E o que viu de Romário – goleador máximo do torneio olímpico, com sete gols – foi o suficiente para chegar a Adrie van Kraay, pedir a contratação o mais rápido possível e obter a resposta: “Muito bem, você vai para o Rio de Janeiro”. E Ploegsma sênior viajou ao Rio para negociar com o Vasco, junto de Guus Hiddink, treinador dos Eindhovenaren na época. Lá chegando, ambos falaram com um funcionário da filial brasileira da Philips, em São Paulo. Segundo a revista “Placar” noticiou à época, ele ligou para o Vasco e comunicou: “Dois holandeses estão aqui. Eles querem levar Romário”.

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Romário comentou em sua biografia que soube da oferta, novamente, por Eurico Miranda: “Pouco depois apareceu o PSV, ele me chamou e disse: ‘Agora você pode ir. Está indo para um grande time’. O PSV tinha sido campeão da Europa”. E as negociações com o procurador de Romário, André Cardoso, definiram: por 6 milhões de dólares, mais algumas exigências – passagens aéreas, eletrodomésticos da Philips, cursos de inglês e holandês, intérprete -, Romário se tornava o segundo jogador brasileiro a ir para o futebol holandês (ao contrário do que a coluna informou em 2013: Romário não foi o primeiro, já que Reinaldo fizera algumas partidas pelo Telstar, no início de 1988).

Não demorou muito para Romário mostrar aos holandeses como as coisas seriam. Estreou pelo novo clube em 30 de outubro de 1988, no 3 a 0 contra o Twente, pela 11ª rodada do Campeonato Holandês. Duas rodadas depois, em 6 de novembro, marcou o primeiro de seus 165 gols pelo PSV: o único do 1 a 0 sobre o Roda JC. Na final do Mundial Interclubes de 1988, em 11 de dezembro, contra o Nacional-URU, Romário fez o gol de empate no tempo normal (o jogo terminou 2 a 2 ao fim dos 120 minutos). A atuação estupenda do goleiro Jorge Seré na disputa de chutes da marca do pênalti deu o terceiro título mundial ao Bolso, mas o carioca da favela do Jacarezinho já estava provando: estava ali para ser protagonista, superando todos os destaques que haviam estado no título europeu.

A prova veio ao final da temporada 1988/89: o PSV comemorava a Copa da Holanda e o primeiro tetracampeonato holandês de sua história, e Romário já brilhava como o máximo goleador da Eredivisie, com 19 gols – dois a mais do que Wim Kieft, colega de equipe, artilheiro da temporada anterior da Liga. E algumas partidas só ampliavam a fama junto à torcida do PSV. Bom exemplo foram as oitavas de final da Copa dos Campeões daquela temporada: em 18 de outubro de 1989, o Steaua Bucaresti superara os Eindhovenaren na Romênia, por 1 a 0, com gol de Marius Lacatus. Em 1º de novembro, o time romeno abriu o placar no jogo de volta, em Eindhoven, de novo com Lacatus. O PSV precisava vencer por três gols de diferença, se quisesse a vaga nas quartas. Resultado: 5 a 1 para o time de Guus Hiddink. Três gols de Romário. Tal atuação é tida como a maior dos cinco anos que o atacante passou no clube.

A temporada 1989/90 consolidou o brilhantismo do brasileiro: mais uma vez, liderou a lista de goleadores do Holandês ao final das 34 rodadas, com 23 gols. Ainda foi artilheiro da Copa dos Campeões (6 gols, junto de Jean-Pierre Papin, do Olympique de Marselha). Sem contar mais uma conquista na Copa da Holanda. Só que aquela temporada teve um fim abrupto para Romário, que começou a mostrar as rachaduras que sempre existiram em sua relação com o PSV. Ele veio em 4 de março de 1990: já tendo marcado dois gols na goleada que terminaria 9 a 2 sobre o então FC Den Haag (o mesmo que hoje é ADO Den Haag), o atacante fraturou a tíbia.

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A presença praticamente certa na Copa do Mundo daquele ano tornava-se possibilidade remota. Pior: engessado pelos médicos do PSV, o jogador tirou o gesso da tíbia por conta própria, para jogar uma partida promocional em Roma. Jogou, mas o local ficou inchado, o que piorou sua relação com os médicos. Aí, em abril de 1990, Romário decidiu chamar um médico de fora para ajudar na recuperação, já que o tempo corria. Tentou Clóvis Munhoz, com quem trabalhara no Vasco, mas este recusou. Aí, seguindo conselho do amigo Maurício dos Santos, Romário teve o primeiro contato com Nilton Petrone, que prometeu recuperá-lo em 40 dias. Na biografia de Romário, Nilton comentou: “Os médicos holandeses foram contra o tratamento. Acreditavam que aquele trabalho não teria efeito e era coisa de louco. Romário, apesar de falar holandês, chamou o tradutor e disse: “Manda esses caras aí tomarem no cu, manda eles se foderem e fala que esse cara vai ficar aqui comigo que eu vou garantir”.

Petrone garantiu, ganhou o apelido que o segue desde então (num dia de tratamento em piscina, Romário o viu de sunga, mandou um “parece um filé de borboleta” e Petrone estava rebatizado como “Filé”), Romário se recuperou e foi para a Copa de 1990. Mas sua relação com os médicos do PSV estava esgarçada. Não só com eles, aliás: antes do início da temporada 1990/91, Guus Hiddink deixou o PSV. E o inglês Bobby Robson chegou a De Herdgang, mas não saberia lidar com o histórico apreço de Romário pela noite – e o apego pelo Brasil, como comentou Maurício dos Santos na biografia: “Tanto no PSV quanto no Barcelona, nas folgas, ele viajava 24 horas para passar 12 no Rio”.

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O gosto pelas festas (outro amigo, Wilson Mussauer, comentou na biografia: “Quando conseguia uma folga, no PSV, no final de semana, lá estávamos nós, nas noitadas!”) foi irritando alguns colegas de clube. Outros mantinham a boa relação, como o atacante Twan Scheepers – talvez o grande amigo que Romário fez no futebol holandês, a ponto de viajar com ele para o Rio algumas vezes – e o lateral direito Berry van Aerle (que dizia aos que reclamava: “Se ele não vem treinar a semana inteira, mas ganha o jogo para nós, recebo o bicho do mesmo jeito”). E Scheepers esclareceu, no documentário “Samba in Eindhoven”: “Ele não fumava, nem bebia. A única coisa que tomava era um copo de refrigerante”.

Assim, a temporada 1990/91 foi de mais uma dobradinha no Campeonato Holandês: título e artilharia (25 gols, junto a Dennis Bergkamp, que estava no Ajax). E de novas boas atuações, como os dois gols do 2 a 0 sobre o Ajax, no primeiro turno da Eredivisie. Mas ficava mais difícil calar os pedidos de mais aplicação fora de campo. O que foi irritando Romário. Na temporada seguinte, 1991/92: contra o Besiktas, na primeira fase da Copa dos Campeões, Bobby Robson o substituiu, colocando o amigo Scheepers em seu lugar. E o brasileiro não só aplaudiu ironicamente a substituição, mas também fez um gesto obsceno ao sair de campo.

No fim de 1991/92, mais um título de Eredivisie, além da conquista de uma Supercopa da Holanda. Mas as coisas iam piorando. Bobby Robson deixou o PSV, e em seu lugar foi contratado Hans Westerhof. Que também não teve a melhor das relações com o “Peixe”. E durante a temporada 1992/93, Romário decidiu deixar Eindhoven. Ainda fez mais um lance de pura genialidade: contra o Milan, na fase de grupos da Liga dos Campeões, virou-se contra três zagueiros (entre eles, Baresi e Maldini) e marcou outro gol que simboliza o seu brilhantismo em Eindhoven. Antes da temporada 1993/94, o apogeu de sua carreira, Romário foi para o Barcelona, embora Guus Hiddink tenha querido trazê-lo para o Valencia.

Vinte e três anos após sair do PSV, está claro que a lembrança de Romário em Eindhoven é indelével. Até hoje, vez por outra, ele vai à cidade reencontrar os amigos. E se resta dúvida de como Romário marcou época em Eindhoven, basta saber que surgiu nas categorias de base do PSV, em 2008, um atacante nascido em 1989, na cidade holandesa de Haarlem, cujo nome era… Romario Sabajo (hoje, Romario está sem clube). Ou então, ouvir a canção “Ja, daar is Romario”, samba estilizado lançado em compacto simples, até hoje hit da torcida do PSV para lembrar o maior jogador de sua história.

“Ja daar is Romario (sim, lá está Romário)

Ster uit Rio de Janeiro (a estrela que veio do Rio de Janeiro)

Hij kan draaien, hij kan kappen (ele pode gingar, ele pode driblar)

Het is bijna niet te snappen (quase nem dá pra pegá-lo)

Ja, die jongen steelt de show (sim, aquele cara rouba a cena)”

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