Holanda

O que a Pro League tem que a Eredivisie não tem? Algumas coisas

Até pela proximidade fronteiriça, Holanda e Bélgica são rivais históricos quando o assunto é futebol. E é óbvio que o momento é mais favorável para o país de Jan Ceulemans, Eddy Merckx e da Stella Artois. Primeiramente, porque enquanto a Oranje apenas verá a Euro 2016 pela tevê (de holandeses, na França, só estará o quinteto de arbitragem formado pelo juiz Bjorn Kuipers e os auxiliares Sander van Roekel, Erwin Zeinstra, Pol van Boekel e Richard Liesveld), a seleção belga é cotada para fazer outra campanha razoável num grande torneio, voltando à Euro após 16 anos.

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Segundo, e mais importante, porque a tabela de coeficientes da Uefa indica realidades diferentes para os dois países. Não será na próxima, mas tudo leva a crer que a partir de 2017/18, a não ser que os holandeses participantes de Liga dos Campeões e Liga Europa façam campanhas muito boas, a Eredivisie perderá sua vaga direta na fase de grupos da Liga dos Campeões, ao passo que a Pro League manterá o lugar que obteve desde a temporada 2013/14.

E no entanto, a reta final das duas ligas mostram rumos semelhantes. Na Holanda, houve a pausa, no final de semana passado, para a final da copa nacional – lembrando a coluna passada, o Feyenoord conseguiu a consolação, conquistando o título ao fazer 2 a 1 no Utrecht. Agora, empatados nos 78 pontos, PSV e Ajax jogarão simultaneamente na penúltima rodada da Eredivisie, neste domingo, tentando vencer o adversário (PSV contra o Cambuur, Ajax contra Twente) e olhando para o saldo de gols do oponente na disputa do título (o saldo do Ajax é maior: 56 contra 50 do PSV).

O equilíbrio não é menor no Campeonato Belga: no hexagonal final, uma sequência de duas derrotas do Club Brugge (e três vitórias do Anderlecht) quase colocou os Mauves na liderança. Só que a quinta rodada do hexagonal mudou tudo: os Azuis-e-Negros fizeram 5 a 0 no Zulte Waregem, enquanto o time de Parc Astrid foi surpreendido pelo KV Oostende, caindo por 4 a 2. Isso, sem contar o Gent: em busca do bicampeonato, os Búfalos se reanimam e já estão há três partidas sem perderem (um empate e duas vitórias). Agora, a cinco rodadas do fim do hexagonal, o Brugge lidera, com 41 pontos, enquanto Gent e Anderlecht estão iguais nos 38 pontos – o Gent é o vice-líder, por ter encerrado a fase regular já na segunda posição.

Isto é: os campeonatos das duas nações vizinhas são inegavelmente equilibrados. Todavia, fica a pergunta: por que o futebol belga aparenta estar numa fase mais pujante do que o holandês? Fora a óbvia superioridade dos Diabos Vermelhos no momento atual, o momento da Jupiler Pro League pode indicar alguns caminhos. O primeiro deles é a maior flexibilidade tática que as equipes belgas mostram. Azar holandês: em tempos de rememorar a importância imorredoura de Johan Cruyff no estilo que o país tem de jogar, fica difícil não compreender a opção persistente pelo lado ofensivo, pelo 4-3-3, pelos times jogando com pontas abertos etc.

No Campeonato Belga, a variedade de esquemas já é algo mais historicamente aceito. Algo mostrado no esquema com que os líderes do hexagonal final vão a campo. O Club Brugge jogam num 4-2-3-1, com fluidez ofensiva; no 4-1-4-1 do Anderlecht, a fluidez fica no meio-campo (Steven Defour tanto pode jogar mais atrás, como volante, como pode ser o principal criador das jogadas de ataque, como é mais frequente); no Gent, o 3-4-2-1 fortalece mais a defesa, como se viu na boa campanha pela Liga dos Campeões.

Se a falta de prática com esquemas mais defensivos vitima bastante o futebol holandês, outro fator que o país perdeu e o vizinho/rival ganhou foi o hábito de dar oportunidades a jogadores de outros países, para que ali se desenvolvam. Basta notar os destaques dos candidatos ao título belga. No Anderlecht, o italiano Stefano Okaka Chuka se consolidou no ataque; o Club Brugge é quem mais aposta nos “estrangeiros” – dos zagueiros holandeses (Stefano Denswil e Bram Nuytinck) ao atacante uruguaio/brasileiro Felipe Gedoz, passando pelo ponta-esquerda colombiano José Izquierdo; o Gent é a única exceção, tendo apenas o meia brasileiro Renato Neto como destaque.

Mas apesar dos pesares, o futebol holandês pode dizer que ainda tem uma superioridade. Até previsível: se se fechou mais aos estrangeiros, também dá um destaque mais imediato aos talentos nativos. Por exemplo: nem Dennis Praet, nem Youri Tielemans são destaques absolutos na campanha do Anderlecht, mesmo que sejam promessas belgas. Já o Ajax permite que Davy Klaassen ou Riechedly Bazoer ganhem espaço no time de cima a ponto de merecerem as convocações de Danny Blind na seleção holandesa.

Coisa que não acontece muito sob Marc Wilmots na seleção belga: as últimas novidades nas convocações limitam-se ao zagueiro Bjorn Engels, titular no Club Brugge, e a Laurent Depoitre, atacante titular do Gent. E ainda assim, nenhum deles tem lugar garantido entre os 23 que irão à Euro. Até por isso, alguns jogadores belgas até acham espaço no futebol do país vizinho para despontarem em suas carreiras. As presenças certas na seleção da Bélgica mostram isso: Jan Vertonghen, Thomas Vermaelen, Toby Alderweireld (todos surgidos no Ajax), Nacer Chadli (despontou no Twente), Dries Mertens (começou a ganhar espaço com as atuações por Utrecht e PSV), Moussa Dembélé (cresceu futebolisticamente ao atuar pelo AZ)…

Assim, não se estranha o cenário indicado pela relação dos 500 jogadores mais importantes da atualidade, feita na edição de março da revista “World Soccer”: há mais belgas do que holandeses (20 contra 14), mas também há mais gente que atua na Eredivisie do que na Pro League (18 a 11). Por tudo isso, embora a fase atual seja difícil e indique problemas que só serão resolvidos a médio prazo, o Campeonato Holandês ainda atrai mais atenções do que o Belga. Por isso, no domingo, a atenção ainda recairá mais sobre a disputa de PSV e Ajax pela Eredivisieschaal. Pelo menos, por enquanto.

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