Futebol femininoHolanda

O futebol feminino holandês está num caminho promissor

#Wakkerblijven. Em holandês, “continuar acordado”. Era assim que o perfil da federação holandesa no Twitter pedia a audiência para os jogos da seleção feminina de futebol na Copa do Mundo que terminará neste domingo. Era necessário, já que o fuso horário em relação ao Canadá, país-sede, fazia com que os jogos das Oranje Leeuwinnen (Leoas Laranjas) fossem disputados na madrugada, pelo horário holandês.

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Em termos de números absolutos, por exemplo, 431 mil holandeses assistiram ao jogo contra a China, pela fase de grupos, disputado à meia-noite holandesa e transmitido pela NOS. Não foi um índice assombroso. Mas foi adequado o suficiente para mostrar que a seleção estava sendo relativamente prestigiada, na sua primeira participação em Copas do Mundo femininas.

E o desempenho das Leoas foi considerado honroso. Afinal, a eliminação nas oitavas de final foi para o Japão, atual campeão mundial, novamente finalista e medalha de prata nos Jogos Olímpicos de 2012. De quebra, em alguns momentos, o time exibiu força no ataque suficiente para assustar as experientes nipônicas, em alguns momentos do jogo. Só que a falta de experiência e, principalmente, a desorganização defensiva permitiu ao entrosadíssimo time japonês envolver a equipe em jogadas rápidas, na terça-feira retrasada, para resolver o jogo.

Mas é possível dizer, até, que as holandesas foram despachadas em sua melhor partida na competição. Na fase de grupos, o desempenho fora irregular demais. Na estreia, em Edmonton, a vitória por 1 a 0 contra a Nova Zelândia foi baseada apenas em chutes de fora da área – assim saiu o gol da meio-campista Lieke Martens que definiu o jogo.

Contra a China, no segundo jogo, um desempenho terrível. Não fossem as defesas da goleira reserva Sari van Veenendaal, substituta da lesionada Loes Geurts (que obtivera destaque no segundo tempo contra as neozelandesas), e as chinesas poderiam ter saído do gramado com uma vitória bem maior do que o 1 a 0 conseguido aos 46 minutos do segundo tempo, com Lisi Wang aproveitando falha de entendimento entre Van Veenendaal e a defensora Merel van Dongen.

Ficava, então, uma tarefa difícil a ser realizada: conseguir um ponto contra as anfitriãs canadenses, para disputarem uma das quatro vagas como terceiras colocadas dos grupos. E justamente aí se viu uma luz: mesmo pressionadas pelo empolgado time da casa, mesmo levando o 1 a 0, as holandesas não desistiram. O técnico Roger Reijners colocou em campo a atacante Kirsten van de Ven, que fortaleceu o ataque. E justamente ela marcou o gol do empate salvador, a três minutos do fim do tempo regulamentar. Com quatro pontos garantidos, a Oranje foi uma das duas melhores terceiras colocadas, empatada com a Suíça. Vieram as oitavas, e a eliminação. Mas a delegação deixou o Canadá com um sentimento positivo.

Tudo muito bom, tudo muito bem, o técnico se orgulhou do desempenho (“É nossa primeira Copa e já alcançamos as oitavas”, comentou em entrevista à NOS após o jogo da queda), mas… para onde vai o futebol feminino holandês? A resposta: ele ainda não sabe, mas tem um caminho. É lento, há riscos perturbando-o, mas também há boas condições estabelecidas. Basta um empurrão de todos os lados – jogadoras, dirigentes, clubes, até imprensa – que o processo será natural. Dentro das expectativas, a boa campanha na Copa do Mundo foi um grande passo.

Pelo menos na época atual, a caminhada se iniciou com a ótima participação na Eurocopa feminina, em 2009, quando o time treinado por Vera Pauw alcançou as semifinais, caindo para a Inglaterra na prorrogação. O reconhecimento televisivo foi até maior do que na Copa: exibido pelo canal continental Eurosport, o jogo contra as inglesas teve uma audiência de 1,7 milhão de telespectadores. Nada mal para um país de 16 milhões de habitantes.

Desde então, os passos são lentos, mas firmes. Jogadoras como a goleira Geurts, a lateral direita Dyanne Bito (convocada para a Copa, ficou no banco em todos os jogos), a meio-campista Manon Melis e Van de Ven são figuras carimbadas no time. Roger Reijners, por sua vez, assumiu o comando da equipe em 2010 e seguiu o trabalho regular deixado por Vera Pauw. O Brasil até testemunhou a consolidação do trabalho holandês: em 2010, no Torneio Internacional Cidade de São Paulo, a seleção holandesa parecia destinada a ser goleada. Pois chegou a estar ganhando das brasileiras por 2 a 1, sofrendo a virada apenas nos acréscimos.

No entanto, já se disse que há riscos. Eles são os fatores comuns ao futebol feminino, em várias partes do mapa: falta de interesse, falta de respaldo das equipes, falta de regularidade na carreira das atletas… um bom exemplo veio numa entrevista concedida pela meio-campista Daniëlle van de Donk, titular na Copa, ao diário “De Volkskrant”, em junho: “Se você fala sobre o time, muitas pessoas sabem que jogamos a Copa, mas se você pergunta quem é a camisa 10, ou quem é Daniëlle van de Donk, não acho que há muitos que saibam. Nós somos conhecidas, mas eu não sou”.

De mudança para o Kopparbergs, time sueco, Van de Donk ainda foi clara ao expor as incertezas do cotidiano do time feminino do PSV, onde jogava: “A rigor, eu sou jogadora profissional. Mas não acho que o mundo me veja assim. Se você vê como vivemos, somos profissionais. Mas eu estudo, outras trabalham. É uma combinação estranha. Eu moro com meus pais e jogo no PSV. Se eu gastar muito, vai faltar dinheiro. Daí eu prefiro poupar para estudar”.

Não se pode dizer que a federação não se esforça para tanto. Bem ou mal, há ligas femininas na Holanda desde 1973/74. Mas a Eredivisie feminina só surgiu em 2007. Em 2012, para ampliar seu alcance, houve a fusão com o campeonato belga, formando a Women’s BeNe League – que somente durou três temporadas. Agora, a Eredivisie terá de caminhar com as próprias pernas.

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Interesse dos clubes, há. Por exemplo: Ajax, AZ e PSV têm suas próprias equipes. O desafio é criar condições para que seja desnecessário ocorrer o mesmo que se viu no Twente. Campeão da BeNe League em 2013 e 2014, a equipe foi vitimada pela crise financeira que atingiu o clube de Enschede: jogadoras que estiveram na Copa, como Van Veenendaal e a meio-campista Anouk Dekker, podem sair para fazer caixa.

Mas junto a esses riscos, já se disse, há as condições. Há personagens para estimularem a continuação da caminhada. Como a volante Anouk Hoogendijk, do Ajax, titular absoluta da seleção (só não saiu do banco na Copa por uma séria contusão). Anouk lançou recentemente um livro para ensinar meninas a jogarem futebol (“Balverliefd”, em holandês, “Apaixonada pela bola”) e já tem experiência na estabelecida Liga Inglesa, tendo jogado pelo Arsenal.

Caso semelhante vive a atacante Vivianne Miedema: com 18 anos, ela é um dos destaques do time feminino do Bayern de Munique, e foi a principal responsável pela classificação holandesa à Copa, com boas atuações nas eliminatórias (mas apresentações decepcionantes no Canadá, diga-se de passagem). Miedema é vista na Holanda como o símbolo do momento promissor do futebol feminino holandês, ainda que protagonize episódios que voltam a mostrar problemas persistentes. Como este, após a visita do casal real (Willem-Alexander e Máxima) às jogadoras, durante a Copa. Vivianne uniu desencanto e esperança numa frase: “Achei que eles não faziam ideia de quem era quem naquele círculo de jogadoras, mas Willem-Alexander é um fanático por futebol e por esportes. Ele disse que assistiria aos jogos”.

Ainda assim, a participação elogiável na Copa faz crer que os passos estão sendo dados. A Eredivisie feminina será realizada em 2015 – com apenas sete clubes, mas será. O Ajax, por exemplo, renovou contrato com todas as jogadoras do elenco que estiveram na Copa (além das citadas Hoogendijk e Van Dongen, as defensoras Petra Hogewoning e Desiree van Lunteren e a meio-campista Tessel Middag). E a seleção ainda disputará uma vaga no torneio olímpico de futebol feminino, no início de 2016, em quadrangular com Suécia, Noruega e Suíça. Repita-se: as condições estão dadas. Quem sabe daqui a alguns anos, o futebol feminino holandês poderá se ver no mesmo status de Inglaterra e França, que já fizeram ótimas campanhas nesta Copa do Mundo.

Afinal de contas, o caminho para o futebol feminino está nas oportunidades e na popularidade. Tendo a chance de viver regular e continuamente como jogadoras de futebol (se boas ou ruins, depende dos espectadores), certamente se desenvolverão cada vez mais. O que só fará crescer o número de boas partidas – já grande, nesta Copa do Mundo a se encerrar. E também só aumentará a popularidade do futebol feminino.

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