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O Ajax finalista da Liga Europa celebra os 30 anos de sua Recopa e os 25 de sua Copa da Uefa

O tricampeonato do esquadrão de Johan Cruyff, o título dos prodígios em 1995. O Ajax possui quatro conquistas de Champions memoráveis em seu currículo. Mas a coleção de taças continentais dos Godenzonen também contempla as outras duas grandes competições da Europa: a Recopa e a Copa da Uefa. Simbólico que, justamente quando retornam a uma decisão continental, os holandeses celebram os aniversários destes outros dois troféus, marcados por craques como Marco van Basten, Frank Rijkaard, Dennis Bergkamp e Frank de Boer. No próximo sábado, se completarão 30 anos da Recopa e 25 da Copa da Uefa, ambas disputadas em 13 de maio. Partidas que ganham ainda mais cor e sentido num momento em que os Ajacieden voltam a sonhar alto para o confronto com o Manchester United na Liga Europa.

O início da década de 1980 não foi feliz para o Ajax nas competições continentais. Após a derrota para o Nottingham Forest na semifinal da Copa dos Campeões de 1979/80, os holandeses protagonizaram uma série de eliminações precoces. Nem mesmo a volta de Cruyff impulsionou a equipe. De 1980/81 a 1985/86, foram quatro quedas logo na primeira fase e duas na segunda. A lista de algozes inclui adversários de peso, como Bayern de Munique e Celtic, mas também outros de menor expressão, como Olympiacos e Bohemians. A mudança de postura viria justamente em 1986/87, quando o time acabaria vencendo a Recopa.

A Copa da Holanda de 1985/86 marcou o primeiro título de Cruyff como técnico. O Ajax superou o RBC na final, se garantindo na competição continental, após ver o PSV iniciar sua dinastia na Eredivisie. Assim, coube aos Godenzonen aproveitarem a chance no segundo escalão europeu. E eles começaram passeando. Anotaram 7 a 0 sobre o Bursaspor no agregado, antes de se vingarem do Olympiacos nas oitavas de final, com direito a goleada por 4 a 0 em Amsterdã. Na etapa seguinte, um pouco mais de dificuldades diante do Malmö. Treinados por Roy Hodgson, os celestes ganharam por 1 a 0 na Suécia, cabendo a Van Basten comandar a reviravolta com os 3 a 1 no Estádio de Meer. Já nas semifinais, os Ajacieden bateram o Zaragoza de Rubén Sosa em ambos os encontros. Na decisão em Atenas, encarariam o Lokomotive Leipzig, que surpreendeu o forte Bordeaux nos pênaltis.

Embora os alemães-orientais contassem com vários jogadores de seleção, a exemplo do goleiro René Müller e do centroavante Olaf Marschall, o Ajax era muito mais time. E vários de seus jogadores se afirmariam nos anos seguintes. Peça-chave no esquema de Cruyff pelo jogo com os pés, o goleiro era Stanley Menzo. A defesa contava com o brilhantismo de Frank Rijkaard, acompanhado por laterais rodados no clube, Sonny Silooy e Peter Boeve, além de Frank Verlaat. O meio-campo tinha a trinca formada por Jan Wouters, Arnold Mühren e Aron Winter, todos presentes na Euro 1988. Nas pontas, Robert Witschge e John van’t Schip. E o comando do ataque ficava a encargo de Marco van Basten, vivendo o seu ápice. Dennis Bergkamp, dias após completar 18 anos, entrou no segundo tempo. E isso porque John Bosman, artilheiro da campanha com oito gols, estava suspenso.

Não seria um jogo fácil para o Ajax. A vitória por 1 a 0 foi garantida logo aos 20 minutos, em cruzamento da direita que Van Basten completou de cabeça, no primeiro pau. Contudo, o Lokomotive também pressionaria, em busca de um empate que não saiu. Ao final, a taça acabou nas mãos do capitão Van Basten, levando ao delírio os torcedores presentes no Estádio Olímpico. Aquela seria a penúltima conquista do centroavante pelo clube, antes de faturar a Copa da Holanda semanas depois. Na temporada seguinte, já seguiu ao Milan, caminho que Rijkaard repetiria.

Os remanescentes levariam o Ajax a mais uma final de Recopa na temporada seguinte. A equipe de Cruyff chegou a eliminar bons times de Hamburgo e Olympique de Marseille, mas sucumbiu na decisão para o Mechelen de Michel Preud’Homme. Depois disso, já sem o gênio no banco de reservas, foram duas quedas logo na primeira fase da Copa da Uefa, enquanto sofria com o domínio do PSV na Eredivisie. E justamente quando os Godenzonen recuperaram o título nacional, acabaram de fora da Copa dos Campeões, suspensos por um incidente envolvendo a sua torcida. O retorno continental aconteceu na Copa da Uefa 1991/92. A nova campanha triunfal.

Algumas coisas mudaram no Estádio de Meer durante aquele intervalo de cinco anos. Leo Beenhakker assumiu a casamata em 1989, mas não durou até o fim da temporada de 1991/92, substituído por Louis van Gaal. De jovem promessa, Bergkamp se transformou em dono do time. Seguia com a companhia de outros remanescentes – principalmente Menzo, Winter, Silooy e Van’t Schip. Enquanto isso, novos nomes ascenderam na hierarquia dos Ajacieden. Danny Blind portava a braçadeira de capitão, acompanhado na zaga por Frank de Boer e Win Jonk. Já na linha de frente, destaques para Stefan Pettersson e Bryan Roy.

Ao longo da campanha, o Ajax teve uma caminhada praticamente perfeita até a decisão. Acumulou oito vitórias e dois empates em cinco fases. Começou superando Orebro, Rot-Weiss Erfurt, Osasuna e Gent. O primeiro desafio de peso veio apenas nas semifinais, contra o Genoa. Em duelo movimentado no Luigi Ferraris, os Godenzonen ganharam do Grifone por 3 a 2, com um gol de Winter aos 44 do segundo tempo. A vantagem permitiu que os holandeses segurassem o empate por 1 a 1 em Amsterdã, diante do forte ataque adversário, estrelado por Tomáš Skuhravý e Carlos Aguilera. Na decisão, outra batalha italiana com o Torino, responsável por deixar o Real Madrid pelo caminho.

Em tempos nos quais a decisão da Copa da Uefa era disputada em jogos de ida e volta, o primeiro embate aconteceu no Estádio delle Alpi. Treinado por Emiliano Mondonico, o Toro possuía vários jogadores de seleção, entre eles Luca Marchegiani, Gianluigi Lentini, Enzo Scifo e Rafael Martín Vázquez. Quem brilhou naquela tarde, todavia, foi o artilheiro Walter Casagrande, em esforço que acabou sendo insuficiente. Jonk abriu o placar no primeiro tempo acertando um chutaço do meio da rua, com Casão buscando o empate em rebote na segunda etapa. Os visitantes voltaram a tomar a dianteira a partir de pênalti batido por Stefan Pettersson, enquanto o brasileiro botou um ponto final com o empate por 2 a 2. De qualquer maneira, com a regra dos gols fora vigorando, os holandeses davam um passo à frente pelo troféu.

Diante do cenário, o Estádio Olímpico de Amsterdã se preparou para um inferno. Com 42 mil torcedores, as arquibancadas abrigaram uma torcida barulhenta, que colocava muita pressão. E que, no fim, pôde comemorar a sorte do Ajax para terminar o dia com a faixa no peito. Os donos da casa até criaram suas chances, principalmente no primeiro tempo. Entretanto, o Torino poderia muito bem ter vencido na segunda etapa. Foram três bolas dos grenás na trave, ficando com o grito entalado na garganta. Ao final, melhor para os Godenzonen, seguindo a Juventus e se tornando o segundo clube a ter em seu museu as quatro taças europeias. Já Bergkamp, que não esteve em campo na segunda partida, terminou o ano na terceira colocação da Bola de Ouro, um ano antes de rumar à Internazionale.

A Copa da Uefa, de qualquer maneira, sinalizou outra passagem de bastão no Ajax. Aquele foi o primeiro título de Louis van Gaal no clube. Uma caminhada vitoriosa que chegaria ao seu ápice três anos depois, já com um elenco bastante renovado, na conquista da Liga dos Campeões de 1994/95. A glória mais recente dos Ajacieden, em espera que pode se encerrar no próximo dia 24.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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