Holanda

Mais prevenção

Uma coisa inesperada. Uma coisa chocante. Que mostra como não adianta estar preparado para tragédias, se elas acontecem, de qualquer maneira – afinal de contas, problemas e coisas que saem do controle existem em qualquer sociedade. Isso poderia ser falado sobre o que aconteceu nesta semana, em Almere, cidade da província da Flevolândia, na região central da Holanda. Mas não é.

Porque, caso não haja a lembrança, há quase um ano ocorreu outro episódio que assustou o futebol holandês: em 21 de dezembro de 2011, Ajax e AZ jogavam, pelas quartas de finais da Copa da Holanda. E, de repente, um torcedor do Ajax, absolutamente embriagado, invadiu o gramado da Amsterdam ArenA para agredir o goleiro Esteban, do AZ, pelas costas. Reagindo, Esteban chutou o torcedor – e até foi expulso, pelo árbitro Bas Nijhuis, que viu o cartão vermelho ser revogado, com justiça, diga-se de passagem.

O torcedor foi preso. Só que os jogadores do AZ, exortados pelo técnico Gertjan Verbeek, já haviam deixado o gramado do estádio em Amsterdã, temerosos pelo imprevisto. Só haveria uma nova partida (sim, houve o recomeço dela) no dia 19 de janeiro, com vitória do AZ, por 3 a 2, em jogo que recebeu somente crianças nas arquibancadas. Iniciativa saudável. Porém, era o primeiro sinal de que nem mesmo um país relativamente preparado para imprevistos em jogos de futebol, como a Holanda é, consegue prever algum acontecimento.

O sinal de alerta já fora dado no incidente de Amsterdã. Mas houve um clima de “tudo bem, acontece”. Deu-se a chance para que ocorresse a tragédia na última segunda-feira, em Almere, quando Richard Nieuwenhuizen, 41 anos de idade, funcionário do Buitenboys, clube amador, faleceu devido aos ferimentos sofridos no dia anterior. Sendo bandeirinha de uma partida entre times juvenis do Buitenboys e do Nieuw Sloten, Richard foi agredido por três jogadores do Nieuw Sloten, entre 15 e 16 anos de idade. Depois, foi internado, mas não resistiu.

Evidentemente, o clima de consternação generalizou-se. O presidente da federação holandesa, Michael van Praag, manifestou-se por sua conta no Twitter, pedindo mudanças: “Pessoal, não deixem que isso fique nas palavras, mas ajudem, pensem junto. Isso é inaceitável. Sem árbitros, sem auxiliares, não há futebol. Simples assim”. O apresentador e jornalista Humberto Tan, figura popular na imprensa, foi até duro: “O papel da federação é pedir aos jogadores que sirvam ainda mais de exemplo. E ajudaria se os pais dos jogadores tivessem mais noção da realidade. Seu filho não é o Messi, o time dele não é o Barcelona. Por uma nova cultura para o jovem”.

Muito bem, os agressores estão detidos, e é sempre louvável ver o comandante máximo de uma federação demonstrando compaixão em relação a uma tragédia (melhor ainda é notar que ele o fez por meio de um perfil pessoal numa mídia social, nada das lacônicas notas oficiais das federações). E não é que o futebol holandês seja absolutamente dado a ocorrências do tipo: os estádios são bons e minimamente seguros. No entanto, a morte de Nieuwenhuizen continua sendo uma mostra de que o futebol holandês tem sido incapaz de prevenir determinados atos de ensandecidos idiotas.

“Ah, mas foi em um jogo amador.” O futebol amador é extremamente organizado e descentralizado na Holanda, até por predominar, da terceira divisão para baixo. E a federação holandesa se esforça para organizar tudo – tendo, portanto, parcela de culpa na tragédia em Almere. “O problema não é do futebol, mas da sociedade”, como tuitou um torcedor, e retuitou Van Praag. Sem dúvida. Humanos, logo, falíveis. E idiotas há em todo lugar – em Pereiro, alhures ou na França, citando Falcão (o cantor).

No entanto, dá para controlar mais e mais a hipótese de acidentes e sandices inevitáveis. Coisa que a federação (e os clubes) não têm se esforçado muito para fazer, nos últimos tempos. Vejamos: o torcedor que invadiu o campo em Ajax x AZ já havia tido sua entrada na Amsterdam ArenA proibida, mas conseguiu o acesso, usando o cartão de outro torcedor. E os “clássicos de torcida única”, medida polêmica – e que, no fim das contas, não acabam com a violência, apenas colocam-na em outro lugar -, também existem na Holanda. Caso disso está em Feyenoord x Ajax.

Ou seja, o fato de reconhecer os fatos tristes que ocorrem vez por outra em seu futebol não significa que a federação holandesa não pode fazer nada para resolvê-los. Repita-se: idiotices sempre existiram e sempre existirão na raça humana. O que não significa que o alcance delas não possa ser diminuído a níveis baixíssimos.

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