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El Ghazi: uma promessa em meio a tempos difíceis

Se vários países da Europa sofrem com a discussão da questão imigratória, a Holanda não poderia ser diferente. Há pelo menos uma década a presença e a influência muçulmanas na cultura do país são discutidas pesadamente. E a discussão não é amena. Basta lembrar Pim Fortuyn. Candidato a primeiro-ministro nas eleições nacionais de 2002, Fortuyn era francamente contrário ao que chamava de “islamização da Holanda” e tinha opiniões fortíssimas anti-Islã, chegando a dizer no ano anterior: “Sou a favor de uma ‘guerra fria’ contra o Islã. Eu o vejo como uma ameaça estrangeira, e uma sociedade inimiga da nossa”.

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O assassinato de Fortuyn, a uma semana das eleições, comoveu – até hoje comove, aliás – toda a Holanda. O matador confesso, Volkert van der Graaf, militante radical de esquerda, justificou o ato: desejava evitar que o candidato, subindo nas pesquisas, usasse os muçulmanos como “bodes expiatórios” dos problemas holandeses. Estava reaberta a discussão. Que foi acirrada em 2004, com outra triste lembrança na sociedade civil holandesa: o assassinato do cineasta Theo van Gogh (bisneto do pintor), por Mohammed Bouyeri, holandês de ascendência marroquina, um dos fundadores da “Sociedade Hofstad”, célula assumidamente terrorista.

Atualmente, a discussão sobre a influência do Islã na cultura holandesa, bem como as críticas acerbas ao radicalismo e ao terrorismo dos xiitas, têm um personagem principal: Geert Wilders. Principal líder do conservador PVV (Partij voor de Vrijheid – em holandês, “Partido pela Liberdade”), Wilders é o principal dos 12 deputados que o partido tem na chamada Segunda Câmara – fora os nove senadores na Primeira Câmara. E com o crescimento do PVV no país (nas eleições da Segunda Câmara, em 2012, foi o terceiro partido mais votado; nas eleições do Senado, em maio passado, foi o quarto), há o crescimento de um “lema” iniciado por Wilders, durante a apuração das eleições municipais de 2014: “Minder Marokkanen” (em holandês, “menos marroquinos”).

Além do crescimento do PVV de Geert Wilders, há a presença de outra personagem a ponderar sobre o perigo oferecido por alas do Islã: a ex-deputada Ayaan Hirsi Ali. Somali que conseguiu abrigo político na Holanda, Ali está envolvida com a luta antiterrorismo desde 2003, quando roteirizou “Submissão”, filme dirigido por Theo van Gogh, altamente crítico à posição feminina no Islã. Mesmo fora da política, Ayaan tornou-se outra voz crítica ao Islã famosa na Holanda. Até pelo best-seller mundial que escreveu, lançado em 2006: “Mijn vrijheid” (“Minha liberdade”, traduzido no Brasil como “Infiel”).

E o que tem isso a ver com o futebol? De fato, não tem muito. Mas a ligação pode ser feita ao abordar o principal destaque da primeira rodada do Campeonato Holandês: o atacante Anwar El Ghazi, do Ajax. “Ué, mas o destaque não foi Martin Hansen?” De certa forma, sim. Mas não só já se falou muito do arqueiro dinamarquês (inclusive aqui), como se sabe que foi um lance fortuito, desses que acontecem uma vez na vida e outra na morte. O próprio Hansen assumiu: “Foi por instinto, eu não conseguiria pegar na bola de outro modo”.

Já El Ghazi foi o grande destaque do Ajax, num momento em que os Amsterdammers precisavam. O atacante apareceu bastante nos 3 a 0 sobre o AZ, e não só pelo golaço que abriu caminho para a vitória: também se movimentou com muita rapidez, por todos os setores do ataque. Esperava-se mais ação dele na ponta-esquerda, sua posição “de raiz”, mas as aparições no meio da área eclipsaram até o ocupante do setor, Arkadiusz Milik. Como no segundo gol, feito por El Ghazi, de cabeça – com certo auxílio do goleiro adversário, Sergio Rochet.

E também é inegável: El Ghazi tem mais chance de aparecer constantemente no time de Frank de Boer. A equipe precisa urgentemente de aceleração nas jogadas ofensivas, até pela saída turbulenta de outra promessa surgida em De Toekomst: Ricardo Kishna, que chegou à Lazio enchendo a boca para criticar o técnico Ajacied (“Num certo momento, eu não via mais como poderíamos chegar a um bom trabalho juntos”). E El Ghazi mostrou, pelo menos na primeira rodada, que tem talento para isso.

Aliás, o camisa 21 Ajacied tem talento até para chegar à seleção, caso mantenha a determinação que expôs ao jornal “De Volkskrant”, no início do mês: “Daqui por diante, será o momento de dar um passo, para deixar de ser promessa e virar um jogador maduro. [As pessoas me cobram isso], e eu faço o mesmo”. No entanto, a questão é por qual país El Ghazi fará isso. Já atuando pela seleção holandesa sub-21, ele ainda não fez a opção entre a Holanda, onde nasceu e cresceu, e Marrocos, país de ascendência, onde nasceram seus pais. Indecisão explicitada à revista “ELF Voetbal”: “Não estou pronto para decidir. Nem por Marrocos, nem pela Holanda. E felizmente não preciso tomar a decisão agora. E ela é, de fato, impraticável. Como escolher entre a terra de que seus pais vieram e a terra onde você nasceu e cresceu?”.

E aí vem a ligação entre o início da coluna e o futebol: El Ghazi falou abertamente sobre sua situação como muçulmano na Holanda, na entrevista supracitada ao “Volkskrant”. E explicitou o desconforto vivido pela confusão popular – com o atentado ao semanário “Charlie Hebdo”, em janeiro, como capítulo mais recente: “As pessoas me perguntam: ‘Por que vocês atiraram contra aqueles homens?’. Isso me deixa um pouco irritado. Dói saber que por causa disso eu sou comparado aos autores. Eu digo: ‘Deixem-me esclarecer uma coisa: eu não tenho nada a ver.’ Na Holanda também há gente que faz coisa errada, mas não quer dizer que todos os holandeses são assim.”

E também tocou de leve na questão do preconceito: “Dói quando as pessoas falam mal de você, porque elas não sabem quem sou eu. Elas veem um jovem mulato, de cabelo preto. (…) Precisamos mostrar que há holandeses de ascendência marroquina suficientes para obterem sucesso. Pelo bom trabalho em conjunto poderemos solucionar os problemas”.

Claro, El Ghazi não solucionará a tensão sobre a presença islâmica na Holanda. Mas seu sucesso eventual (e possível) na Eredivisie pode torná-lo um símbolo de um caminho melhor para um assunto que não poderá ser discutido com submissão a terroristas. Nem com a aversão aos muçulmanos que aumenta na política holandesa.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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