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Cruyff, Euller, Pirès e agora Messi: Conheça o craque que inventou o pênalti em dois tempos

O que Lionel Messi e Luis Suárez fizeram neste domingo não é exatamente novo. Mas audácia impressiona sempre que executada. Quando o argentino rolou uma cobrança de pênalti para o uruguaio estufar as redes, repetia um verdadeiro clássico, mas que raramente se vê ao vivo. O lance não foi regular, porque o artilheiro invadiu a meia-lua antes que o camisa 10 encostasse a bola. Mas não há nada de ilegal na jogada em si: basta que o toque aconteça para frente (mesmo sem seguir reto) para que a bola esteja em jogo. E a letargia da defesa do Celta acabou sendo a mesma de muita gente em frente à TV, estupefata pela genialidade.

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Johan Cruyff é o autor mais famoso da cobrança de pênalti ensaiada. Em 1982, o camisa 14 do Ajax executou o lance ao lado do companheiro Jesper Olsen, diante do modesto Helmond Sport. E com requintes de crueldade, já que a tabela contou com dois passes antes da conclusão. Depois dele, outros repetiram, como Euller. Ou até mesmo se frustraram, como Robert Pirès. A lenda holandesa, contudo, não inventou o lance. O primeiro registro se deve a Henri Coppens, ex-atacante da seleção belga que faleceu em fevereiro de 2015, aos 84 anos – em história que Leonardo de Escudeiro contou aqui na Trivela.

Coppens é um dos maiores atacantes da história do futebol belga. Marcou época com a camisa do Beerschot, pelo qual foi artilheiro do campeonato nacional por duas vezes, e é considerado o grande craque do país entre as décadas de 1940 e 1950. Além disso, disputou a Copa de 1954 com a seleção e marcou 21 gols pelos Diabos Vermelhos. Já seu lance mais famoso aconteceu durante partida das Eliminatórias do Mundial da Suécia, em 5 de junho de 1957. Durante a goleada por 8 a 3 sobre a Islândia em Bruxelas, Rik Coppens resolveu humilhar os adversários aos 44 minutos do primeiro tempo, quando sua equipe já tinha feito seis gols. Assim como os jogadores do Celta, os islandeses ficaram sem rumo depois da jogada.

“Coloquei a bola sobre a marca da cal e Pieters se posicionou atrás de mim. Eu lhe disse em francês ‘dois tempos’ e ele entendeu rapidamente. Não chutei, lhe dei o passe, ele me devolveu e eu marquei. Foi fácil. Não me pergunte por que e como aconteceu. Estávamos felizes com a goleada, mas não havíamos combinado aquilo de antemão. Foi algo único, eu nem imaginava antes”, definiu o veterano sobre a inspiração para a jogada, anos depois.

Autor de mais de 300 gols no Campeonato Belga, Rik Coppens também fez fama pelas jogadas de efeito e pela irreverência em campo – como a famosa cobrança de pênalti tratou de eternizar. Era conhecido como o ‘Rei do Drible’ e o Beerschot chegou a negar propostas de grandes times europeus (incluindo Barcelona e Internazionale) para manter o seu craque. “Eu adorava ser criativo em campo. Aparecer com uma jogada dessas era normal para mim. E eu queria fazer algo especial para a torcida. Nós estávamos bem à frente e nada poderia dar errado. Foi uma decisão minha cobrar aquele pênalti”, relembrou a lenda.

Não há indícios de que Cruyff estudou a jogada de Coppens antes de executá-la, 25 anos depois. O holandês tinha apenas 10 anos quando o artilheiro belga a inventou, em tempos nos quais os vídeos de futebol eram bem mais raros. Segundo o goleiro reserva Ron Boomgard, o camisa 14 adorava tentar jogadas insanas para humilhar os adversários nos treinos. E aquela foi justamente a primeira cobrança do craque pelo time profissional do Ajax, depois de jogar nove anos pelo clube em sua primeira passagem. Somente para fazer aquilo.

“Eu ouvi Johan chamar a cobrança de única. Eu não gostei disso. Cruyff não deveria ter falado assim”, afirmava belga, demonstrando certo ressentimento. De fato, o holandês ajudou a popularizar o lance, e serviu de inspiração para tantos outros. Mas os créditos a quem executou a genialidade pela primeira vez em nível profissional (ao menos por aquilo que se têm registros) se devem a Rik Coppens.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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