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A seleção holandesa não é “odiada”. E isso é ruim para ela

Durante a fase de grupos desta Eurocopa, as atuações decepcionantes da seleção da Bélgica trouxeram algo que já se havia visto durante a Copa de 2014: críticas à excessiva valorização das qualidades da “promissora/boa/ótima/excelente geração belga” – algumas críticas, até agressivas. Pelo menos, diminuíram, após atuações mais convincentes dos Diabos Vermelhos – principalmente nos incontestáveis 4 a 0 sobre a Hungria, nas oitavas de final.

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A partir de então, o foco das críticas foi para outras duas equipes nacionais. Por sinal, as duas eliminadas da segunda-feira passada na Euro. Superada justamente pela Itália, a Espanha teve sua queda novamente comemorada por muita gente – como se representasse o enfraquecimento definitivo daquela seleção. Horas depois, a vitória empolgante da Islândia sobre a Inglaterra direcionou a metralhadora para o English Team e a supervalorização (existente) de suas qualidades, inversamente proporcional à vontade demonstrada dentro do gramado do Stade de Nice.

Tudo isso deixou o autor destas mal traçadas pensativo. Nem mesmo em seus melhores momentos a seleção holandesa foi merecedora de tamanha torcida contrária – falando no popular, de tamanha “zica”. Por que a seleção holandesa, a Oranje, merece mais benevolência do que algumas congêneres – seja a espanhola, de currículo indiscutível, ou a belga, que agora vive uma fase de bonança até invejável?

E o fenômeno não fica apenas na Europa. Após sofrer o pesado 7 a 0 do Chile nas quartas de final da Copa América Centenário, a seleção do México voltou a viver sob pesadas dúvidas. Voltou a ter força sobre El Tri o estigma do “nunca será”, algo semelhante ao que Portugal vive (e tenta superar nesta Euro). Ainda assim, os mexicanos mostram superioridade continental incontestável, ao contrário da Holanda. E nunca tiveram tantas chances de superar tal estigma como a Laranja, que tem três finais de Copa no currículo – e três vice-campeonatos. Por que, então, um é respeitado e o outro não? Por que perdura certo carinho pela seleção holandesa, até hoje, e não pelas outras mencionadas até aqui?

O mais curioso é que cada uma das justificativas dadas para a admiração pela Oranje, aqui no Brasil, está caducando ou é altamente questionável. A mais forte delas, sem dúvida, evoca o “Futebol Total”. Um estilo de jogo muito atraente, inegavelmente revolucionário. Mas que, pelo menos em termos de seleção holandesa, ficou restrito àquelas semanas em que se jogou a Copa de 1974, na Alemanha Ocidental. Nem mesmo a equipe holandesa vice-campeã na Copa de 1978 replicava a troca incessante de posições ou a habilidade vista em gramados alemães, havia quatro anos.

O que leva a outra razão de admiração pela Laranja: uma suposta fidelidade ao 4-3-3, aos pontas, à velocidade, enfim, aos cânones inesperadamente preconizados há 42 anos. Pois bem: basta lembrar do que se deu nas Copas de 2010 e 2014 para que tal fidelidade seja desmentida. Na Copa sediada na África do Sul, a Holanda ficava num 4-2-3-1 claro – até pela fama que fez (por motivos duvidosos) a dupla de volantes formada por Mark van Bommel e Nigel de Jong. E há dois anos, após eliminatórias para o Mundial no 4-3-3 velho de guerra, a lesão de Kevin Strootman forçou Louis van Gaal a fazer algo semelhante ao que se vê ocorrer com a Itália de Antonio Conte nesta Euro: escolher um esquema com férrea determinação tática e cuidadoso na defesa (o 5-3-2), e esperar que os atacantes da frente estivessem inspirados. Para a sorte holandesa, Arjen Robben cumpriu essa expectativa, e a campanha no Brasil foi surpreendentemente boa.

E mesmo hoje, com 4-3-3 e tudo, a seleção holandesa nada lembra o seu histórico tático. Coisa que até foi apontada num relatório divulgado pela federação, após estudos, reuniões e encontros dentro e fora do país: mesmo com seu ideário bem definido, a Holanda precisa se atualizar. Afinal de contas, fragilidade na marcação e falta de compactação não têm nada a ver com o que se viu na Copa de 1974. E essas duas falhas são comuns na equipe convocada e treinada por Danny Blind – o vexame nas eliminatórias da Euro prova isso.

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Outra razão que leva a Oranje a ter torcedores mundo afora é uma suposta “tradição”. Novamente desmentida pela realidade. A supracitada Espanha participa de Copas do Mundo desde 1934. Desde 1978, bate ponto em Mundiais. Mesmo em épocas mais remotas, sem times brilhantes (e isso era comum na Fúria), tinha lá alguns craques, como Francisco Gento e Luis Suárez Miramontes. Após muitas expectativas frustradas, enfim ganhou títulos que poderiam fazê-la respeitada. Mais do que isso: com uma geração notável de jogadores, certamente a mais qualificada da história do futebol do país em termos técnicos. Pode ter faltado habilidade; tradição, jamais.

Ainda assim, a goleada holandesa sobre os espanhóis na Copa de 2014 foi muito comemorada, como se fosse a prova de que a campeã mundial de 2010 “não era tudo isso”. Pois bem: se há uma equipe que ainda não é tudo isso, é a Holanda. Não só pelas chances que teve e não aproveitou, mas pela história relativamente inconstante. Mesmo após 1974, um segundo “Big Bang” do futebol holandês: desde então, a equipe esteve fora de duas Euros (além desta, 1984) e três Copas (1982, 1986 e 2002). Nem por isso perdeu o respeito que ainda tem.

Outro traço que faz a seleção batava elogiada é a “constante revelação de talentos”. Pois bem, aqui cabe a comparação com a geração atual da vizinha Bélgica. Que não conquistou nenhum torneio europeu de base, mas revelou bons jogadores (atenção: bons, não excelentes, talvez nem craques, mas bons). Já a Jong Oranje, o time sub-21, chegou até a ser bicampeão europeu em 2006 e 2007. Mas dos times desses dois títulos, só Klaas-Jan Huntelaar teve uma carreira que se aproxima de algo exitoso. Nem mesmo Ron Vlaar, Ryan Babel e Michel Vorm, que estavam nas conquistas, cumpriram as expectativas – isso, sem citar os Royston Drenthe e Maceo Rigters da vida.

Sendo assim, só se pode concluir que a seleção holandesa, na verdade, é respeitada por ser “simpática”. E nada pior numa competição do que ser visto como o “simpático”, o “café-com-leite”, aquele que na hora da decisão… “nunca será”. Nas próximas competições em que estiver, independente da qualidade de seu elenco, a Holanda precisará ter o tal do “espírito vencedor” – necessidade ressaltada até pela própria federação em seu relatório.

Quem sabe, quando a capacidade técnica e esse espírito se equilibrarem bem, a Oranje mereça o respeito definitivo. Por enquanto, ela até merece algo, pelo que fez – mais até do que Inglaterra e Bélgica. Mas talvez fosse melhor ser “odiada” por ser vencedora, como a rival Espanha é até hoje.

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