Holanda

25 anos da Euro 1988 (IV): o golaço, o pênalti, a festa

No texto mais recente deste especial, falando sobre a semifinal da Eurocopa de 1988 e a vitória empolgante da Holanda sobre a Alemanha, a última frase foi: “Mas ainda faltava uma final”. Pelo esforço mental despendido em campo, os jogadores da Oranje pareciam esquecer disso. Felizmente, para eles, havia alguém que não permitiu que isso continuasse. O nome dele: Marinus Hendricus Jacobus Michels, vulgo Rinus Michels.

Duas histórias confirmam isso. A primeira ocorreu enquanto a equipe tomava café da manhã, no hotel em que estava, em 23 de junho, um dia após o 2 a 1 sobre os alemães. Van Breukelen chegou ao refeitório dizendo: “Bem, podemos ir para casa”. Van Basten respondeu, alerta: “Ainda tem a final”. Veio a tréplica do goleiro: “Nós já a jogamos. Foi maravilhoso vencer os manés. Se eu pudesse escolher entre vencer os alemães ou superar os russos na final, eu não teria a menor dúvida. Escolheria vencer a Alemanha”.

Van Basten discordou: “Eu não vejo a coisa assim. Quero finalmente acabar com essas histórias de que a equipe de 1974 seria muito mais forte. Pelo menos, mais forte do que a nossa. Essa é a chance de colocar as coisas no lugar. Eles só chegaram ao segundo lugar”. Era tudo o que Rinus Michels queria ouvir. Finalizando a discussão, o treinador arrematou: “Então, que tal nos lembrarmos de que a gente ainda pode vencer um torneio?”.

Outra história que revela como Michels apagou rapidamente a vitória contra a Alemanha de sua cabeça ocorreu no dia 24 de junho, véspera da final. Após aproveitarem o dia de folga, um grupo de jogadores, liderados por Ruud Gullit, bateu à porta do quarto de Rinus, que havia ficado no hotel. E entregou ao treinador um presente, comprado por Carel Akemann, supervisor dos jogadores na delegação: um relógio Cartier, comprado para o técnico a pedido dos próprios atletas. Michels olhou para o relógio. No verso, estava gravado: “Obrigado, do elenco da Euro ‘88”.

Comovido, abriu o coração: “Eu o usarei. Trabalho há muito tempo no futebol, mas ganhar um presente desses de um elenco de jogadores realmente me emociona. Se vocês me permitem, eu ligarei para a minha esposa, agora”. Bonito. Mas, enquanto os jogadores se distanciavam, o comandante pediu atenção, e alertou: “Mas se vocês perderem amanhã, eu devolvo o relógio”. Mensagem compreendida. E Michels retirou-se para o quarto – não sem antes chorar ao telefone, junto da esposa Wil, ainda emocionado com o gesto dos atletas.

No dia seguinte, 25 de junho, era ir para o gramado do Estádio Olímpico de Munique e jogar contra a União Soviética, que pouco havia mudado em relação à primeira fase. E a Holanda pareceu tranquila, em campo. O ataque soviético era ativo e até mais perigoso em campo, com Gotsmanov, Protasov e Belanov trazendo perigo à área, mas a defesa holandesa não sofria em campo, com boas atuações de Rijkaard e Van Tiggelen – este último, até melhor do que Rijkaard, até avançando ao meio-campo para ajudar Mühren e Wouters na marcação.

Além da tranquilidade, a Oranje tinha um fator de sorte: principal zagueiro da equipe soviética, Oleg Kuznetsov estava suspenso, pelo cartão amarelo levado na vitória por 2 a 0 sobre a Itália, nas semifinais. Assim, o ataque mantinha o controle do jogo. E a ausência de Kuznetsov pode explicar o que se viu aos 33 minutos do primeiro tempo: Erwin Koeman cobrou escanteio da esquerda, alto demais. A bola foi rebatida, e Erwin Koeman cruzou novamente. Aí deu-se a sorte: orientados pelo atacante Sergei Aleinikov, os defensores fizeram a linha de impedimento. Só se esqueceram de combinar com Van Basten, que desviou de cabeça, e Gullit, que completou, também testando, para o gol de Dasaev. 1 a 0.

A tranquilidade holandesa aumentou ainda mais. Embora a pressão soviética continuasse, a organização tática com que o time fora pensado por Rinus Michels facilitava a diminuição do perigo. E essa organização iniciou a jogada que simboliza aquela partida, aquela vitória, aquele título. Aqui, cabe uma pequena lembrança: antes da Euro, a Holanda disputou jogos-treino, durante a fase de preparação. Num deles, contra o Quick Nijmegen, time amador, mesmo com goleada da seleção, o gol de honra do Quick foi marcado com… um voleio improvável, que encobriu Hiele, goleiro reserva.

Voltemos ao jogo: eram nove minutos do segundo tempo. A União Soviética pressionou, mas Van Tiggelen desarmou um jogador, próximo à área holandesa. E o lateral esquerdo progrediu com a bola até pouco depois do meio-campo, quando passou a Arnold Mühren. Da esquerda, o veterano volante, então, cruzou a bola, de primeira, para Van Basten, que vinha pelo lado oposto, correndo para a grande área. Ao lado de Carel Akemann, no banco de reservas, Rinus Michels lamentou: “O que ele está fazendo?!”.

Na área, Van Basten chegava. Um zagueiro aproximou-se dele, mas ouviu Dasaev gritar: “Preste atenção em Gullit!”. E deixou o camisa 12 livre. Pouca chance de haver problemas, até porque o cruzamento de Mühren saíra alto demais, indo além da segunda trave, onde ele pensara em mandar a bola. E o atacante holandês, com quatro gols até então, teria de resolver a jogada daquele modo. Na base do “é tudo ou nada”, Van Basten chutou. Mais distante, testemunhando a jogada, Jan Wouters pensou: “Ele é louco”.

Já se sabe o que aconteceu: a bola encobriu Dasaev, que não esperava por aquela solução para a jogada. E balançou as redes. 2 a 0. Delírio na torcida holandesa, incredulidade em campo, provada pelo diálogo entre Wouters e Van Basten, durante a comemoração. “Como você fez isso?” “Eu não sei!” Mas fez. Sorte da Holanda. Sorte de quem viu o que foi, seguramente, um dos gols mais bonitos da história do futebol até os dias de hoje.

Van Basten comemora o gol na final com Gullit, o capitão (Ap Photo/Carlo Fumagalli)
Van Basten comemora o gol na final com Gullit, o capitão (Ap Photo/Carlo Fumagalli)

Só que o jogo não acabara. A pressão da União Soviética só aumentou: pouco depois do gol de Van Basten, Alexander Zavarov aproveitou falta cobrada para a área e chutou na trave. E aos 29 minutos daquela etapa final, após lançamento para a área mal rebatido, a bola foi para a linha de fundo. Gotsmanov foi pegá-la. Pouca chance de a jogada seguir. Mas Van Breukelen foi perseguir o camisa 18 soviético e derrubou-o. O árbitro francês Michel Vautrot não pestanejou: pênalti. Até duvidoso, mas mais “marcável” do que os vistos na semifinal.

Ali se veria a necessidade de Van Breukelen colocar em prática o que refletira nos últimos meses, em consultas com o psicólogo Ted Troost. Desde 1984 titular absoluto da Oranje, o goleiro passara a sofrer pressão em 1987: com o estilo de jogo ofensivo no Ajax treinado por Johan Cruyff, onde o titular Stanley Menzo era daquele tipo de goleiro mais afeito ao jogo com os pés, o pedido para que a seleção adotasse o mesmo esquema era sistemático. Da mídia, da torcida, de onde fosse.

Goleiro muito mais afeito ao trabalho típico da posição (isto é, defender bolas), Van Breukelen começou a sentir-se boicotado. Começou a falhar em algumas partidas. Nas partidas por seu clube, o PSV, entrava em campo e via faixas pedindo por Menzo, ou até Joop Hiele, na seleção. Perdia visivelmente a autoconfiança. Em uma partida das eliminatórias da Euro, até fora barrado por Michels, em detrimento de Hiele. Somente ao começar as consultas com o psicólogo, Van Breukelen retomou seu nível normal de atuações, aprendendo a impor mais em campo, a ser mais agressivo.

O trabalho mental dava certo. A ponto de Van Breukelen já ter sido decisivo na final da Copa dos Campeões 1987/88, defendendo a cobrança de Antônio Veloso, zagueiro do Benfica, na série de chutes da marca do pênalti, garantindo o 6 a 5, após empate sem gols no tempo normal, e o primeiro título europeu do PSV. Mas a final da competição europeia de clubes fora em 25 de maio, exatamente um mês antes. Agora eram Van Breukelen e Belanov, um em frente ao outro, na grande área do Estádio Olímpico de Munique.

Belanov bateu no canto direito, forte. E o arqueiro rebateu com tanta força que a bola foi parar fora da área. Mas seu olhar imponente, e até furioso, após defender, deixava claro: a Eurocopa de 1988 tinha dono. O apito final de Michel Vautrot ratificou uma conquista merecida, de um time que foi se acertando durante a competição, que tinha vários atletas determinados, um craque que explodiu na hora mais apropriada (Van Basten), um gênio no banco.

Agora, era levantar a taça. E ser recebido na Holanda. A festa foi otimamente descrita por Johan Derksen, redator-chefe da revista Voetbal International: “A estrada de Munique até Amsterdã foi uma festa. Não tinha gente mostrando o dedo do meio na parte chamada Autobahn, mas só compatriotas comemorando. A solidariedade era incrivelmente grande. Muçulmanos e cristãos, torcedores do Ajax e do Feyenoord, socialistas e liberais; todos eles haviam sido campeões europeus. Rinus Michels, Jan Wouters, Hans van Breukelen e Marco van Basten eram heróis nacionais, agora”.

Depois, a recepção pela rainha Beatrix, na casa real. A ensandecida torcida que seguiu os canais da capital, atravessados pelo elenco de barco. O discurso de Rinus Michels, que reconheceu: “O jogo contra a Alemanha foi a verdadeira final”. Tudo isso, tendo como trilha sonora de “Wij houden van Oranje” (Nós amamos a Laranja), canção de André Hazes, que frequentou as primeiras posições das paradas de sucesso na Holanda durante aqueles dias que emocionaram o país. E virou um clássico no futebol do país.

Seu refrão: “Nederland, oh, Nederland/Jij bent de kampioen/Wij houden van Oranje/Om zijn daden em zijn doen” (Holanda, oh, Holanda/Você é a campeã/Nós amamos a Laranja/Por suas façanhas e seus feitos). Na verdade, somente um feito. Mas que até hoje emociona os holandeses. Que esperam por uma festa como a que viveram em 1988.

Confira os capítulos anteriores dessa saga:

Parte I

Parte II

Parte III

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