Quando foi enfrentar a Letônia pela primeira vez, nas Eliminatórias para a Euro 2016, em 2 de novembro de 2014, a seleção da Holanda sabia que vivia um momento decisivo. Havia um péssimo desempenho na qualificação (tinha apenas uma vitória – conseguida a duras penas – contra o Cazaquistão, e perdera para República Tcheca e Islândia), e os amistosos não melhoravam muito a situação, com quedas para Itália e México. Dizendo que se demitiria em caso de novo tropeço, Guus Hiddink armou um ousado 4-1-4-1. Contra uma seleção letã frágil defensivamente, bastou para uma goleada por 6 a 0, que pacificou as coisas.

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Nesta sexta, em Riga, os holandeses voltaram a enfrentar a Letônia, bálsamo tradicional em sua história (haviam sido dois jogos e duas vitórias, sem sofrer gols). Como em novembro do ano passado, a situação era absolutamente periclitante: até pela vitória da Turquia sobre o Cazaquistão, uma derrota deixaria a Oranje fora até da posição de repescagem por uma vaga na Euro. Outra queda passada, no amistoso contra os Estados Unidos, na sexta retrasada, fortalecera o amarelo do sinal de alerta.

A vitória necessária veio. E as circunstâncias ajudaram a Holanda a ver suas chances aumentarem no grupo A das eliminatórias: a vitória da Islândia sobre a República Tcheca diminuiu a desvantagem laranja para três pontos em relação aos tchecos, ainda vice-líderes. E os confrontos diretos contra eles e os islandeses serão na Amsterdam Arena. Caminho livre para conseguir a vaga direta rumo à Euro, certo? Mais ou menos.

Porque nem os 2 a 0 sobre a Letônia apagaram as dúvidas que existem sobre a regularidade do trabalho de Hiddink. Muito menos sobre a segurança da equipe que normalmente vai a campo. E com quase um ano de trabalho, a ser completo em setembro, já se pode dizer: se até agora a Holanda não se tornou um time confiável, dificilmente o será daqui por diante.

Por mais que a Copa do Mundo tenha indicado um caminho para o nível apenas mediano dos jogadores holandeses de defesa (embora fosse inegavelmente cauteloso, o 5-3-2 de Louis van Gaal ajudou e muito no bom desempenho da Oranje no Mundial), o técnico atual prefere armar o time no bom e velho 4-3-3. Quando muito, no 4-4-1-1, com Van Persie como “trequartista” e Huntelaar isolado na frente. E não muda nem mesmo se as circunstâncias pedirem por isso.

O amistoso contra os norte-americanos pode ser considerado uma dessas circunstâncias. Inegavelmente, o ataque cresceu de produção. Huntelaar apresentou desempenho satisfatório como finalizador principal – mais satisfatório até do que seu eterno concorrente de posição Van Persie, diga-se de passagem. E Memphis Depay exibiu, além da rapidez costumeira, tendência e talento para ser o protagonista que pode ser na nova geração da Oranje, mesmo que esse talento escorregasse para o excessivo individualismo várias vezes. Não espanta, portanto, que a seleção tenha aberto o 3 a 1 no amistoso em Amsterdã.

O espantoso foi como a defesa colocou uma vitória segura a perder. Claro, deve-se apontar e parabenizar as atuações de Danny Williams e Bobby Wood, que aceleraram o ataque do US Team e encurralaram os quatro marcadores. No entanto, ver uma falha repetida na origem de dois gols dos Estados Unidos (Blind permitiu que DeAndre Yedlin entrasse por trás, livre de marcação, no segundo e no quarto gols) foi imperdoável. A manchete do “De Telegraaf” sobre a derrota por 4 a 3 não perdoou: “Queijo suíço laranja”, em referência aos “buracos”.

E novamente, uma partida contra a Letônia era a tábua de salvação. O que Hiddink fez? Novamente, apostou no ataque: um 4-2-3-1 bastante ofensivo, com Blind sendo o único jogador de características defensivas do meio para a frente – sem contar as escalações de Van der Wiel e Willems nas laterais. A tensão era latente nas palavras de Hiddink, em entrevista coletiva: “Quando falei que ia me demitir caso perdêssemos da Letônia em novembro, eu estava sendo irônico. Todos sabiam que em casa a gente ganhava. Não era problema naquela época. Mas agora ficou perigoso”.

Perigoso e torturante, como se viu no primeiro tempo em Riga. Memphis continuava tão individualista quanto perigoso na frente. Sneijder foi ótima surpresa, com passes inteligentes, dignos do armador que sempre foi, e protagonismo esperado do segundo jogador com mais partidas pela Oranje (114). Só que Van Persie era inapetente como ponta-de-lança, e Huntelaar não era acionado para finalizações ou tabelas.

Os ataques holandeses eram insistentes, mas paravam numa defesa letã formada por até sete jogadores dentro da área. Quando eram superados, o goleiro Andris Vanins intervinha com boas defesas. E de vez em quando, em jogadas esparsas de contra-ataque, Deniss Rakels e Valerijs Sabala traziam algum apuro à defesa, principalmente para Van der Wiel. Só para lembrar como a defesa holandesa ainda traz calafrios quando exposta. Isso, sem que um chute a gol fosse dado pela Letônia.

O 0 a 0 seguia, com o segundo tempo já na metade, e tudo fazia crer que um novo tropeço estava próximo, tornando a situação ainda mais dramática. Aí Van Persie, decepcionante, cedeu lugar a Wijnaldum. Primeiro toque do meio-campista na bola: um chute fraco, chorado, mas suficiente para que Vanins não o alcançasse. Placar aberto, pouco depois Narsingh teve premiada uma atuação razoável, escapando da linha de impedimento para fazer 2 a 0 e definir a vitória salvadora.

Hiddink foi claro após o jogo, na entrevista coletiva: “Naturalmente estou aliviado, precisávamos vencer. É duro dependermos dos resultados dos outros”. Resultado e emprego garantidos, espera-se pela volta de gente como Robben e Strootman (o joelho colaborará?), e por treinos para a defesa evoluir como o ataque fez. Porque o técnico já prometeu: “Os jogos de setembro e outubro serão interessantes”. Para o bem e para o mal.