Manchester City e Tottenham podem não sustentar uma grande rivalidade entre si, mas protagonizaram alguns momentos enormes desde o século passado. Nesta terça-feira, os ingleses começam a escrever um capítulo importante dessa história na Liga dos Campeões, se enfrentando por uma vaga nas semifinais. Ainda assim, é difícil imaginar que esta ocasião supere a ocorrida há quase 38 anos. Em 1981, Spurs e Citizens não fizeram apenas a 100ª final da Copa da Inglaterra. Eles também ofereceram um jogo memorável aos anais da competição, com a vitória dos londrinos no replay por 3 a 2. E a partidaça seria selada por um grande tento. Uma pintura do argentino Ricardo Villa que, em 2001, acabou eleita como o “melhor gol do Século XX” anotado dentro do mítico Wembley.

Aquela decisão da FA Cup possuía um peso singular a Manchester City e Tottenham, não apenas por ser uma edição histórica do certame. Os Citizens vinham caindo de rendimento desde o período dourado na virada dos anos 1960 e a taça nacional representava justamente uma oportunidade para se reafirmar. Era a primeira final no torneio desde o título de 1969 e o goleiro Joe Corrigan servia como único elo com os períodos gloriosos, referência a uma nova geração que ascendeu principalmente a partir do fim da década de 1970. Os Spurs, em contrapartida, faziam o caminho inverso. A equipe havia passado pela segunda divisão em 1978 e se reconstruía confiando principalmente em destaques estrangeiros. A abertura das fronteiras na Football League permitiu que os londrinos levassem Ossie Ardiles e Ricky Villa ao White Hart Lane, ídolos que marcariam a guinada do clube. A Copa da Inglaterra de 1980/81 referendava os novos ares experimentados no norte da capital.

Os dois oponentes fizeram campanhas notáveis rumo à final. O Manchester City goleou Crystal Palace e Norwich City, antes da vitória magra sobre o Peterborough nas oitavas. Dependeu do replay para despachar o Everton nas quartas, até surpreender o favorito Ipswich Town dentro do Villa Park pelas semifinais. Treinados por Sir Bobby Robson, os oponentes foram campeões da Copa da Uefa e vices do Campeonato Inglês naquela temporada, mas não resistiram aos celestes na prorrogação, com Paul Power determinando a classificação rumo à final. Já o Tottenham eliminou Queen’s Park Rangers, Hull City, Coventry City e Exeter City, até duelar com o Wolverhampton nas semifinais. Os Lobos arrancaram o empate por 2 a 2 aos 45 do segundo tempo em Hillsborough, forçando o replay quatro dias depois. Curiosamente, dentro de Highbury, os Spurs fizeram a festa com a vitória por 3 a 0 e confirmaram a presença em Wembley. Enquanto Garth Crooks brilhou com dois gols, Villa também chamaria atenção pela bomba que arrematou o resultado favorável naquele embate.

Marcada para 9 de maio, a final reuniu dois oponentes com totais condições de erguer a taça, embora no papel o Tottenham se provasse como um time bem mais valoroso. Os londrinos eram treinados por Keith Burkinshaw, à frente da equipe desde 1976. A metade final de seu trabalho o consolidaria como um dos maiores treinadores da história de White Hart Lane. Campeões com a Argentina na Copa do Mundo de 1978, Ardiles e Villa ofereciam uma dose notável de talento na faixa central, ainda que o elenco estivesse bem servido em outras posições. Chris Hughton, Paul Miller e Graham Roberts se firmavam no sistema defensivo, liderado pelo capitão Steve Perryman, emblema da agremiação. O meio era complementado por Tony Galvin e principalmente Glenn Hoddle, um dos mais talentosos de sua geração. Já na frente, Garth Crooks e Steve Archibald se azeitavam como uma dupla oportunista. O Manchester City, por sua vez, mesclava uma geração jovem com outros reforços mais experientes na base montada pelo técnico John Bond. Além de Corrigan, o capitão Paul Power era mais um nome muito respeitado em Maine Road.

A igualdade prevaleceu no primeiro encontro, e com um nome principal: Tommy Hutchinson. O camisa 10 escocês parecia pronto para encaminhar o Manchester City à conquista, abrindo o placar aos 30 minutos com uma cabeçada certeira. Contudo, aos 34 do segundo tempo, teve a infelicidade de desviar uma cobrança de falta contra as próprias redes e tirar Joe Corrigan do lance, permitindo o empate do Tottenham. Mesmo com a prorrogação, o empate por 1 a 1 prevaleceu. Em tempos que as regras não previam pênaltis, um novo jogo aconteceu cinco dias depois. Este sim, pronto a justificar a ocasião especial.

O Tottenham, todavia, tinha um problema a resolver. E ele atendia justamente pelo nome de Ricky Villa. Mal no primeiro jogo, o meio-campista foi substituído aos 23 minutos do segundo tempo e, irritado, saiu diretamente aos vestiários. O técnico Keith Burkinshaw perguntou a opinião do capitão Steve Perryman sobre o caso e, mesmo sendo amigo do argentino, ele garantiu que o camisa 5 deveria ser barrado para dar o exemplo. O treinador, por outro lado, teve a feliz ideia de não ouvir o veterano. Ao sentir Villa mordido para o reencontro, resolveu dar uma nova oportunidade. Mudou os rumos daquela batalha, da própria carreira de Ricky e também do clube.

Hoddle e Villa beijam a taça da FA Cup (Allsport/Getty Images)

Após a pressão inicial do Manchester City, Ricky Villa deu seu cartão de visitas aos oito minutos, colocando o Tottenham em vantagem. A partir de uma jogada de Ardiles, Archibald carimbou Corrigan e, no rebote, o argentino aproveitou a meta escancarada para balançar as redes. Ganhou uma injeção de confiança para a sequência da peleja. Porém, três minutos depois, os Citizens empataram. E a igualdade se deu graças a um gol absurdo de Steve MacKenzie – que, se tivesse culminado na vitória, talvez fosse lembrado atualmente como o tal “gol do século”. A bola sobrou na entrada da área e o camisa 9 acertou um sem-pulo maravilhoso, mandando direto na gaveta de Milija Aleksic. Apesar do baque, os londrinos seguiram melhores até o final da primeira etapa. Chegaram a carimbar a trave, além de pararem nas boas defesas de Corrigan.

No segundo tempo, o City se mostrou pronto a cometer o crime. Logo aos cinco minutos, teve um pênalti anotado a seu favor. Kevin Reeves partiu para a cobrança e venceu Aleksic. Porém, o Tottenham teve forças para virar o placar novamente. Diante do clima tenso, o empate nasceu em um ataque de pura raça. Após o lançamento primoroso de Hoddle, Archibald ajeitou e Crooks bateu de primeira, superando Corrigan. Restavam mais 20 minutos para tentar a vitória. Seis depois, aos 31, Villa assinou sua obra-prima. Em chamas, a torcida dos Spurs criava uma atmosfera fantástica em Wembley. O ambiente perfeito para que, na 100ª final, o Gol do Século se concretizasse diante dos olhos de todos.

O cansaço certamente pesava sobre as pernas dos jogadores, ao longo de uma intensa decisão. Ainda assim, depois do desarme realizado por Graham Roberts, Tony Galvin teve energia para arrancar desde o campo de defesa. Ganhou de dois marcadores e, já na intermediária adversária, encontrou Ricky Villa livre. O argentino dominou e logo avançou, encarando a defesa mancuniana. Na entrada da área, chamou os dois primeiros oponentes para dançar e abriu o seu caminho. Poderia tentar o chute cruzado, mas teve requintes de crueldade. Mais um corte desconcertante para ficar de frente para o gol e, na saída de Joe Corrigan, tocou por baixo do goleiro. Até aquele momento, o camisa 5 vivia altos e baixos em Londres, diante de sua difícil adaptação. O golaço ajudou que realmente deslanchasse e, tempos depois, o confirmaria como lenda. A cena dos seis adversários celestes desolados à sua frente se eternizou como um quadro pincelado pela maestria do meio-campista.

“Esse gol quase faz parecer que apenas joguei uma partida na minha carreira e só balancei as redes uma vez. Toda a minha vida e sempre as perguntas feitas a mim são sobre esse gol!”, brincou Villa, em entrevista ao Daily Mail em 2018. “Passei muito tempo me dedicando ao meu próprio talento, então eu achava um pouco difícil passar a bola quando comecei a treinar profissionalmente. Este gol vem da minha infância, quando eu não precisava de ninguém, só de alguns jogadores ao redor para me distrair e poder driblar em direção ao gol”.

Os 15 minutos finais ainda guardaram um grande jogo. O Manchester City buscava seu último suspiro para forçar a prorrogação, sem conseguir vencer a defesa adversária. O Tottenham, por outro lado, quase matou o confronto nos contragolpes. Ao final, as chances desperdiçadas não fizeram falta aos londrinos e o apito derradeiro proporcionou uma inflamada comemoração nas arquibancadas de Wembley. Villa era o grande personagem. Ardiles, outro amado no norte da capital, vestia seu cachecol. A taça reluzia nas mãos de Perryman. E o técnico Keith Burkinshaw iniciava ali a segunda era mais vitoriosa da história do clube, abaixo apenas dos tempos incomparáveis de Bill Nicholson.

“No fim das contas, a 100ª final da Copa da Inglaterra produziu o Jogo do Século. Depois de uma partida que fascinou Wembley, com a liderança no placar trocando de mãos por três vezes, o Tottenham derrotou o Manchester City por 3 a 2. O gol da vitória, anotado por Ricky Villa, pertencerá para sempre à história do futebol”, descreveu o jornal The Guardian, em sua edição do dia seguinte. “O gol de Villa foi o clímax perfeito a um duelo inesquecível. Antes da noite de ontem, a final de 1948, entre Manchester United e Blackpool, era considerada o melhor exemplo de futebol ofensivo a ser praticado em Wembley. A vitória do Blackpool por 4 a 3 na final de Stanley Matthews, em 1953, sempre foi considerada a partida mais dramática. A noite passada emprestou algo dos roteiros amarelados de ambos os jogos e colocou eles em um ambiente moderno, com uma pitada latina-americana. Enquanto o empate do sábado foi um embate tenso, a partida da noite passada superou as expectativas mais insanas”.

Os destinos dos clubes seriam totalmente diferentes. Dois anos depois, o City caía para a segunda divisão e precisou esperar 30 anos para disputar outra final da Copa da Inglaterra. O Tottenham conquistou o bicampeonato da FA Cup na temporada seguinte, bem como a Charity Shield, além de ser vice da Copa da Liga e semifinalista da Recopa Europeia. E aquela geração renderia outro grande fruto em 1984, ao levar para White Hart Lane a Copa da Uefa. O gol de Villa também é bastante lembrado por isso: de certa maneira, iniciou um ponto de virada aos Spurs, em cena que virá à mente dos torcedores durante o reencontro com os Citizens na Champions.