A história que você não sabia de Fontaine: como ele fundou o Bom Senso FC da França

Maior artilheiro de uma única edição da Copa, o craque também foi o primeiro presidente da união de jogadores franceses

O nome de Just Fontaine estará eternamente ligado à Copa do Mundo. Afinal, marcar 13 gols em uma edição do torneio não é para qualquer um. E provavelmente nunca vai ser. A não ser que o número de partidas no Mundial aumente, é difícil imaginar alguém balançando as redes tantas vezes quanto o craque. A carreira de Fontaine, porém, ficou aquém do que poderia ser. Mesmo fazendo história também no Stade de Reims da década de 1950, o artilheiro nunca pôde voltar à Copa. Aposentou-se em 1962, aos 28 anos, por conta de uma série de lesões. Não sem antes deixar uma grande contribuição extracampo aos jogadores franceses.

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O fim da carreira de Fontaine se prenunciou no dia 20 de março de 1960, quando o atacante sofreu uma dupla fratura na perna durante partida contra o Sochaux. O problema é que o jogador do Stade de Reims nunca se recuperaria da lesão, disputando apenas 14 partidas nas duas temporadas seguintes. Afastado dos gramados, o marroquino teve mais tempo para olhar para as condições de trabalho dos atletas na França. O suficiente para ajudar a criar o principal sindicato de jogadores do país.

Fontaine encabeçou a ideia ao lado de Eugène N’Jo Léa, então atacante do Racing Paris e antigo ídolo do Saint-Étienne. O camaronês, que havia se mudado à França para estudar e se tornou jogador por prazer, já tinha concluído sua faculdade de direito em Lyon e fazia pós-graduação em Paris. Ao lado do advogado Jacques Bertrand, que representava ciclistas e jornalistas esportivos, os dois craques eram a base do movimento para melhorar as condições do futebol francês.

fontaine

Embora a França houvesse adotado o profissionalismo em 1932, a lei do passe ainda perdurava no início dos anos 1960, sem garantir repasses aos atletas ou liberdade de transferência. Da mesma forma, os salários eram baixos, a maioria próxima do salário mínimo nacional e sujeitos a reduções conforme a vontade dos dirigentes. O primeiro passo para a mudança foi a criação da União Nacional de Jogadores Profissionais, a UNFP, em novembro de 1961. A iniciativa visava pressionar federações e clubes, acomodados com a situação. Logo de início, N’Jo Léa assumiu o cargo de secretário geral e Fontaine foi o primeiro presidente.

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O movimento contou com a adesão de outros jogadores importantes do futebol francês. Raymond Kopa, grande parceiro de Fontaine no Stade de Reims e na seleção, se tornou vice-presidente do sindicato. E a primeira grande vitória aconteceu em 1964, três anos depois da criação da UNFP, quando os jogadores conseguiram forçar uma reforma no sistema de aposentadoria. Naquele ano, Fontaine foi substituído na presidência por Michel Hidalgo, outro ex-companheiro de Reims e que, décadas depois, conquistaria a Euro de 1984 como técnico dos Bleus. De qualquer forma, o caminho da UNFP estava pavimentado. Em tempos de movimentações sindicais no país, entre 1968 e 1969, os jogadores aprovaram o início da publicidade nas camisas e o fim dos contratos que os prendiam aos clubes.

A partir de 1967, Fontaine passou a trabalhar como treinador, comandando Paris Saint-Germain, Toulouse e também as seleções de França e Marrocos. Mas seu grande legado aos jogadores já estava feito. Atualmente, o futebol francês possui um dos sindicatos mais organizados do mundo – em 2013, os jogadores ameaçaram uma greve por causa da supertaxação planejada pelo governo de François Hollande. E, de certa forma, repercutiu no Brasil, já que algumas bases para o Bom Senso FC foram inspiradas durante a passagem de Paulo André pelo Le Mans. Mais um motivo para os parabéns a Fontaine, que completa 81 anos nesta segunda com a memória bem mais viva do que se sugere.