História do Brasileirão na TV (V): o reinado da Globo – e as brigas para mantê-lo

A Trivela apresenta uma série especial com a história da TV no Campeonato Brasileiro, em capítulos que serão publicados ao longo da semana, como prévia do torneio que começa no próximo fim de semana. A cada dia, um novo capítulo. Veja os outros episódios : parte 1parte 2, parte 3, parte 4 e parte 5.

A exclusividade da TV Bandeirantes na transmissão dos Campeonatos Brasileiros de 1990 e 1991 alarmara a Globo. O bom trabalho feito pela equipe do canal paulista alarmara ainda mais a Globo. Era necessário para o canal dos Marinho voltar a disputar os direitos de transmissão do Brasileiro, nem que fosse para transmitir o torneio com o distanciamento habitual que o canal ainda tinha em relação ao futebol.

Distanciamento comprovado com o que se viu na Copa Libertadores, no começo daquela década. Empolgada com a participação de Flamengo (campeão da Copa do Brasil) e Corinthians (campeão do Brasileiro) na edição de 1991, a Globo comprou os direitos de transmissão do torneio sul-americano de clubes naquele ano, com exclusividade.

Mas a campanha mediana do time paulista (queda nas oitavas de final) e a eliminação flamenguista nas quartas tiraram a empolgação global: a emissora perdeu o interesse na negociação pelos direitos da edição seguinte. A sorte foi da Rede OM: estreando justamente naquele ano de 1992, a emissora paranaense apostou na compra da exibição da Libertadores, insuflada pela parceria nos esportes com a PGB, produtora de Galvão Bueno, que deixara a Globo para ser narrador e diretor de esportes da OM. Que ganhou a aposta, com o título do São Paulo, que rendeu a ela 52 pontos de audiência na decisão.

Ainda assim, a Globo preferiu voltar a transmitir o Campeonato Brasileiro, passando a fazer a oferta pela compra dos direitos em consórcio com a Bandeirantes, já que sua situação financeira era mais cômoda que a do canal paulista. Em 1992, as duas emissoras passaram a exibir a principal competição nacional de futebol – na decisão entre Flamengo e Botafogo, o trio Silvio Luiz-Juarez Soares-Eli Coimbra representava a Bandeirantes, enquanto Oliveira Andrade (narrador), Raul Plassmann (comentarista), Tino Marcos e Roberto Thomé (repórteres) formaram o quarteto da Globo na transmissão do título do Flamengo. Galvão Bueno, por sua vez, aceitou voltar à emissora que lhe dera fama, em março de 1993, após rescindir contrato com a Rede OM, que já encarava problemas financeiros.

Desde então, a Globo só se tornou mais e mais sobressalente na transmissão do Campeonato Brasileiro. Na televisão aberta, sua importância no pagamento dos montantes que o Clube dos 13 e a CBF desejavam sobrepujava de longe a da Bandeirantes. Na televisão fechada, novidade que entrou no mercado brasileiro no começo daquela década, a Globosat começou tendo percalços, mas logo estabeleceu a liderança no mercado.

E o Grupo Globo, então ainda Organizações Globo, passou a reinar na exibição do futebol brasileiro pela televisão. Mas houve quem desafiasse seu destaque. Desafios superados – de modo altamente controverso, por algumas vezes. São essas ocasiões que a última parte deste especial tratará.

Racha da TV a cabo: TVA Esportes/Clube dos 13 x SporTV/CBF

Quando começaram as negociações dos direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro no quadriênio 1994/1997, na televisão a cabo, as duas emissoras esportivas existentes na incipiente grade de programação da época tiveram interesse. Iniciado em 1991, como Top Sport, e intitulado SporTV exatamente a partir de 1994, o canal da Globosat acertou a compra dos direitos com a CBF, organizadora do campeonato. Exatamente no mesmo ano, a TVA Esportes, canal da TVA (operadora então bancada pelo Grupo Abril), também acertou a compra dos direitos – só que com o Clube dos 13. Os dois contratos eram considerados juridicamente válidos. Estava lançada a confusão, no ainda iniciante cenário da televisão por assinatura brasileira.

A TVA Esportes ainda conseguiu transmitir o Brasileirão-94 na íntegra, tendo narradores como Nivaldo Prieto (então o principal do canal), Milton Leite (então apenas apresentador na Rádio Jovem Pan) e Paulo “Amigão” Soares, comentaristas como Antero Greco e Roberto Petri, além de boa parte da equipe de esportes da TV Cultura (como o repórter Helvídio Mattos, o chefe de reportagem Michel Laurence e o próprio diretor de jornalismo, José Trajano) e alguns novatos em televisão – como Paulo Calçade, então ainda repórter de campo, vindo da sucursal paulista do Jornal do Brasil, e Gilvan Ribeiro, também repórter de campo, egresso do Diário Popular, outro jornal paulista.


(Gols de Palmeiras 2×0 Santos, pelo Campeonato Brasileiro de 1994, na transmissão da TVA Esportes, com a narração de Nivaldo Prieto e os comentários de Antero Greco)

Porém, a partir de 1995 – justamente quando a TVA Esportes se tornou ESPN Brasil, graças a uma parceria entre Grupo Abril, dono da TVA, e Grupo Disney, dono da marca ESPN -, quando os dois contratos começaram a viger, SporTV e CBF começaram a colocar vários impeditivos. Sobravam liminares tentando impedir até que a equipe da ESPN Brasil entrasse nos estádios. Era comum ver uma liminar impetrada pelo SporTV na sexta-feira, impedindo a transmissão dos jogos da rodada do Brasileirão pela emissora do Grupo Disney; era comum ver a mesma liminar ser derrubada por um recurso no sábado, permitindo que a ESPN Brasil mostrasse partidas aos sábados e aos domingos à tarde; e era comum ver uma nova liminar de impedimento voltar a ser impetrada na segunda seguinte. Assim, nessa disputa, ESPN Brasil e SporTV exibiram os Brasileirões de 1995 e 1996.


(Melhores momentos de Fluminense 4×1 Santos, jogo de ida da semifinal do Campeonato Brasileiro de 1995, na transmissão do SporTV, com a narração de Luiz Carlos Jr. e os comentários de Mauro Beting)

A resolução definitiva só veio quando a barafunda foi levada à Justiça Comum. Nela, o veredito foi francamente favorável ao contrato que o SporTV assinara com a CBF. A partir do Brasileiro de 1997, o canal então sediado no bairro carioca do Rio Comprido poderia exibir os jogos considerados mais importantes a cada rodada – ou no próprio SporTV, então reduzido a apenas um canal, ou no Premiere, serviço pay-per-view já existente então. Restaria à ESPN Brasil “rasgar” seu contrato com o Clube dos 13, que ficara sem validade jurídica com aquele acordo, e exibir jogos apenas entre times de menor expressão. Passou a ser comum ver, por exemplo, um Corinthians x São Paulo no SporTV, enquanto um Juventude x Paraná Clube passava na ESPN Brasil.

Claro que o SporTV, em vantagem de audiência, se deu melhor. Claro que a CBF, por meio do Clube dos 13, renovou a cessão dos direitos de transmissão em televisão por assinatura apenas para o canal esportivo da Globosat, a partir do Brasileiro de 1998. E desde então, até este 2019, SporTV e Premiere exibiram o torneio com exclusividade. Nunca mais a ESPN Brasil foi páreo para o Grupo Globo.

SBT sonha com Brasileiro. E o fim polêmico do sonho deixa a decepção

Transmitindo as Copas de 1990 e 1994 em coberturas modestas, mas relativamente elogiadas, o SBT passou a viver com essas experiências uma fase de encantamento com o futebol. Encantamento que virou namoro firme a partir de 1995, quando a emissora paulista comprou os direitos de transmissão da Copa do Brasil, com exclusividade por três anos. E ela teve a prova definitiva de que transmitir futebol valia a pena já na final da Copa do Brasil de 1995, quando a vitória do Corinthians sobre o Grêmio no jogo de volta (o 1 a 0 no Olímpico) foi simplesmente a maior audiência que o Sistema Brasileiro de Televisão tivera até então em sua história de 14 anos, com 52 pontos de audiência para a exibição que teve Luiz Alfredo na narração, Juarez Soares nos comentários e a dupla Antônio Petrin-Luiz Ceará na reportagem.


(Compacto de Grêmio 0x1 Corinthians, jogo de volta da final da Copa do Brasil de 1995, na transmissão do SBT, com a narração de Luiz Alfredo)

Luiz Alfredo se foi para a TV Record em 1996. Sem problemas: o SBT ganhou um tremendo chamariz de audiência, com Silvio Luiz vindo da Bandeirantes para ser o narrador principal da emissora e reeditar a parceria com Juarez Soares. Ainda que criticada pelo excesso de teor pró-São Paulo, essa dupla seguiu simbolizando os bons resultados de audiência na Copa do Brasil, tanto em 1996 (aqui, os melhores momentos da vitória do Cruzeiro sobre o Palmeiras na final) quanto em 1997 (aqui, o empate no Maracanã que deu o título ao Grêmio sobre o Flamengo). O SBT ainda transmitia grandes eventos, como os Jogos Olímpicos de 1996 e, no automobilismo, a Fórmula Indy. Mais nomes chegavam à equipe esportiva, como Nivaldo Prieto, que se dividia com a ESPN Brasil. E se não havia campeonatos de futebol, Silvio Santos solicitava a criação de torneios amistosos a Osmar de Oliveira, narrador e diretor de esportes do SBT. Foi assim com a Copa dos Campeões Mundiais, por exemplo.


(Gols de Flamengo 4×2 Grêmio, pela Copa dos Campeões Mundiais de 1997, na transmissão do SBT, com a narração de Nivaldo Prieto)

Tudo isso, para que o grande objetivo de Silvio Santos se concretizasse naquele “namoro” do SBT com o futebol: a compra dos direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro, no triênio 1997/1999. E quando a negociação começou, nos primeiros meses de 1997, o canal paulista fez uma oferta fabulosa ao Clube dos 13: US$ 50 milhões anuais no triênio, criação de um canal de televisão a cabo para que os clubes pudessem explorar suas marcas, jogos ao vivo às 20h30 nos dias de semana e às 16h do domingo, mais um dinheiro aos clubes via sorteios telefônicos (uma febre naquele ano de 1997). O consórcio Globo-Bandeirantes, que exibia com exclusividade o Brasileiro desde 1992, fez a oferta de modestos US$ 12 milhões – que chegavam à US$ 20 mi com os benefícios propostos

A vantagem do SBT seria clara e insuperável. Seria… se o contrato anterior com o Clube dos 13 não tivesse uma cláusula que dava a globais e bandeirantinos a prioridade na compra dos direitos, permitindo até que cobrissem qualquer oferta. Foi exatamente o que o consórcio fez: cobriu os US$ 50 milhões, sem qualquer benefício posterior. E levou os direitos de transmissão do Brasileiro no triênio. A decepção do SBT foi gigantesca. A direção do canal pensou até em entrar na Justiça contra o resultado da negociação. Mas Silvio Santos se desencantou do futebol a ponto de desistir até disso.

O SBT apenas manteve a cobertura da Copa de 1998, que já era prevista. Fez uma cobertura bem improvisada da Copa Mercosul – improvisada a ponto de exibir apenas os segundos tempos de algumas partidas, dando prioridade ao programa de Ratinho, tirado a peso de ouro da Record em 1998. E terminou ali seu namoro com o futebol, praticamente desativando seu departamento de esportes. A rápida volta em 2003 (transmitindo o Campeonato Paulista, a Copa Ouro e um torneio amistoso no Catar, com a seleção brasileira olímpica) lembrou Silvio Santos do porquê de sua desistência em lidar com o futebol – pelos problemas na transmissão do Campeonato Paulista, uma história que fica para outra vez.

Aí ,sim, nunca mais o SBT se envolveu com transmissões de futebol. Por motivos resumidos no fim da lamuriosa carta divulgada logo após perder os direitos de transmissão do Brasileiro em 1997: “[Ficamos] aguardando que, algum dia, o futebol brasileiro possa amadurecer, atingindo sua fase adulta, dando tratamento empresarial, como ocorre em todos os países, a todos os produtos dele derivados”.

Record se torna parceira, depois inimiga

A partir da vitória pelos direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro em 1997, a Globo passou a exercer de forma cada vez mais aberta o seu domínio. A terceirização do departamento de esportes da Bandeirantes à Traffic, em 1999, já sinalizava a fragilidade financeira cada vez maior do canal dos Saad. E a partir da Copa João Havelange, em 2000, a emissora da família Marinho se tornou exibidora única do principal certame do ludopédio brasileiro. Assim foi também em 2001. Só em 2002 a Globo ganhou uma parceira a quem pudesse sublicenciar os direitos. E que parceira: após rescindir com a Bandeirantes, em meados de 2001, a Traffic achou guarida no departamento de esportes da TV Record.

O canal sediado no bairro paulistano da Barra Funda voltou a se interessar por eventos esportivos com uma tremenda volúpia. Já no final de 2001, exibindo a Copa Coca-Cola – torneio de clubes do interior paulista – com Osmar de Oliveira narrando e Juarez Soares, a Record se preparava para a grande volta. Ainda no fim de 2001, incrementou a equipe. Chegaram nomes como Nivaldo Prieto (para a narração); Raí, Paulo Calçade e Oscar Roberto de Godói (para os comentários); Roberto Thomé e Fernando Fernandes (para as reportagens); e o nome que simbolizaria o retorno da emissora a uma área em que era tradicional – Milton Neves, como apresentador tanto do “Debate Bola”, mesa-redonda diária exibida após o reabilitado noticioso “Record nos Esportes”, quanto do “Terceiro Tempo”, dominical noturno. E a Record exibiu o Torneio Rio-São Paulo e o Campeonato Brasileiro, em 2002 (com um adicional em relação à cobertura da Globo, pelo menos para o estado de São Paulo: exibir um VT do jogo realizado em campos paulistas, após o jogo das 21h45 em outro estado).


(Melhores momentos de São Paulo 3×2 Santos, pela primeira fase do Campeonato Brasileiro de 2002, na transmissão da TV Record, com a narração de Nivaldo Prieto)

Em 2003, a Record teve novidade dupla. Em eventos: também teve sublicenciada a Série B, valorizada pela presença de Palmeiras e Botafogo. E em pessoal: Mauro Beting chegou, exatamente para comentar as partidas palmeirenses na Série B. Para narrá-las (e também narrar a Série A), ninguém menos que Luciano do Valle voltava à Record, “emprestado” pela Bandeirantes, sem tantos eventos que justificassem a manutenção de Luciano na casa. E em 2004, foi de Luciano a voz principal para vários eventos futebolísticos: o Campeonato Paulista, o Campeonato Brasileiro e até a Eurocopa – sim, a Record tivera cacife até para ganhar a licitação da Uefa pelos direitos de transmissão da Euro em 2004 e 2008.


(Melhores momentos de Santa Cruz 2×2 Palmeiras, pela primeira fase do Campeonato Brasileiro da Série B de 2003, estreia de Luciano do Valle na TV Record, com os comentários de Mauro Beting. Postado no YouTube por Edu Cesar)

Ficava a pergunta: por quê tanto investimento da Record nas coberturas esportivas? Simples: porque, de “parceira” da Globo, a Record desejava virar inimiga. Edir Macedo ainda se lembrava do péssimo tratamento que a emissora carioca lhe dera em seus telejornais quando foi preso, em 1992. Tinha bem viva na memória a história da minissérie “Decadência”, exibida pela Globo em 1995, cujo protagonista – o pastor Mariel, interpretado por Edson Celulari – evocava a própria história de Edir, de modo caricato, até humilhante. E seu objetivo, no meio daquela década de 2000, era claro: destronar a Globo de seu domínio histórico, para se vingar dos maus tratos. O esporte serviria para o começo dessa ofensiva. Exatamente por isso, a Record passou a se rebelar, a partir de 2005 – então já com uma nova dupla de narrador e comentarista para os principais jogos do Campeonato Brasileiro, Éder Luiz (narrador paulista, famoso pelas passagens por Rádio Bandeirantes, hoje diretor de esportes da Rádio Transamérica) e Neto, além da vinda de Maurício Torres, egresso da Globo, para narrar os jogos dos clubes cariocas, e da chegada de Júnior, substituindo Raí, que se fixara na Rádio CBN.

Não só a emissora da Igreja Universal do Reino de Deus passou a protestar contra o cabresto que a Globo lhe impunha, querendo exibir jogos diferentes no Campeonato Brasileiro, como passou a disputar os direitos de transmissão. Fez proposta pelos direitos do Brasileiro – a partir de 2007 – e chegou a oferecer R$ 70 milhões pela exibição exclusiva do Campeonato Paulista. Nas discussões acaloradas do “Debate Bola”, Milton Neves e seus convidados lembravam a tradição da Record nas transmissões de futebol. Finalmente, na 37ª rodada do Campeonato Brasileiro de 2006, na qual o São Paulo festejou o título ganho na rodada anterior com um 2 a 0 no Cruzeiro, a Record prescindiu da exibição desse jogo, mostrando “Titanic” no horário da partida no Morumbi. Exatamente para deixar claro: queria estar exibindo outra partida, não o mesmo jogo que a Globo mostrava.

De nada adiantou. Com relações então muito bem azeitadas com o Clube dos 13 e a CBF, a Globo não só manteve tranquilamente os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro para o triênio, como achou na Bandeirantes uma parceira mais dócil e inofensiva para sublicenciar os direitos – e ditar quais os jogos a Band poderia exibir, de modo a não ameaçar sua vitória nas medições de audiência, claro. Foi isso que ela fez, entre 2007 e 2015, quando até mesmo pagar pela sublicença ficou demais para a Band.

À TV Record, só restou ver a progressiva defecção de vários dos nomes de sua equipe para a Bandeirantes: Milton Neves, Neto, Luciano do Valle (que voltou à Band ainda em 2006, no começo do ano), a novata Renata Fan (que recebera suas primeiras chances apresentando o “Debate Bola”), Nivaldo Prieto…

Clube dos 13 revê domínio da Globo, que acaba com o C-13

Como dito no tópico anterior, o Grupo Globo terminou a década passada com relações muito boas com o Clube dos 13, entidade responsável pelas negociações dos direitos de transmissão. Relações tão boas que traziam desconfianças constantes de que havia algo mais a unir as duas partes. E tinha mesmo, a partir de medidas como o ágio que a Globo tinha na hora da compra dos direitos, tendo prioridade para cobrir outras ofertas mesmo que pagasse 10% a menos (exatamente por essa cláusula o SBT perdera a disputa, em 1997).

Essas ligações controversas ganharam uma atenção especial do CADE (Conselho Administrativo de Defesa Econômica), que passou a pedir – pelo menos, superficialmente – mais clareza na relação Globo-Clube dos 13. Por outro lado, com a evolução do marketing esportivo, os clubes passaram a pedir quantias maiores da Globo pela exibição dos jogos no pay-per-view, passaram a exigir mais espaço na grade de programação, mais jogos sendo exibidos. E o impasse começou a crescer.

Até que, em 2011, ele atingiu a temperatura mais alta. Primeiro, com a negociação dos direitos de transmissão para o Campeonato Brasileiro a partir de 2012. Ao invés da negociação automática com a Globo, o Clube dos 13 lançou um inesperado edital de licitação, organizado por seus dirigentes – com destaque para Ataíde Gil Guerreiro, representante do São Paulo na entidade. Irritada, a emissora carioca se negou a entrar no processo. Caminho aberto para as propostas de TV Record e Rede TV, sendo que o formato seria com “envelopes fechados” – ou seja, levaria mais quem fizesse a maior oferta. Levou a Rede TV, que já sonhava com o que faria do Brasileirão – seu presidente, Marcelo de Carvalho, já dizia que o campeonato nacional “seria a sua novela”. Ou seja, teria importância central na grade da emissora sediada na região metropolitana de São Paulo.

Mas veio o momento decisivo do impasse: a eleição da presidência do Clube dos 13, também em 2011. Habitual presidente da entidade, o gaúcho Fábio Koff (1931-2018) era novamente candidato, desejando aumentar a independência dos clubes em relação à Globo. Seu concorrente, Kléber Leite, muito vinculado à CBF, era considerado o candidato que manteria tudo na mesma. Após uma eleição tumultuada, Koff venceu Leite. Foi aí que o contra-ataque do Grupo Globo foi decisivo: a emissora passou a sondar os clubes ao lado de Leite, para que rompessem com o Clube dos 13 e assinassem contratos individuais com ela, para as televisões aberta e fechada.

Foi o que fez o Corinthians presidido por Andrés Sanchez, por exemplo – até hoje, Alexandre Kalil, então presidente do Atlético Mineiro, vocifera que o presidente corintiano aceitou a proposta da Globo por já ter prometido para ele o então sonhado estádio do clube paulista. Andrés rompeu com o C-13 e passou a negociar diretamente com a Globo. Assim fez o Flamengo. E os outros membros, um a um, por vontade ou por inevitabilidade, alinhavaram contratos individuais com o grupo da família Marinho. A Rede TV ganhara a licitação, mas não levaria o Campeonato Brasileiro. Porque não haveria mais Clube dos 13, extinto pela ação do Grupo Globo. Só restou a Marcelo de Carvalho atirar contra a Globo, em entrevista à revista Playboy: “A Globo ganhou o Brasileiro no tapetão”.

E essa vitória deu início a fortes debates, fosse entre profissionais de marketing esportivo ou até entre torcedores. De um lado, quem apontava que a individualização das negociações enfraqueceria os clubes e o próprio Campeonato Brasileiro; do outro, quem dizia que cabia a cada agremiação cuidar de seus interesses na exibição dos jogos, que os clubes de maior torcida não podiam responder pelos menores, e quem tivesse mais potencial de audiência choraria menos.

De fato, a Globo seguiu dominando, junto à dócil Bandeirantes. Pelo menos até a ofensiva seguinte, com a chegada da Turner, um novo capítulo na maximização dos interesses individuais. Conversa que fica para mais tarde, quando a Trivela terá um texto sobre como este Brasileirão 2019 será exibido.

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