A Trivela apresenta uma série especial com a história da TV no Campeonato Brasileiro, em capítulos que serão publicados ao longo da semana, como prévia do torneio que começa no próximo fim de semana. A cada dia, um novo capítulo. Veja os outros episódios : parte 1parte 2, parte 3, parte 4 e parte 5.

Se neste 2019 o futebol brasileiro parece viver uma das piores fases que muitos já viram, o cenário antes do Campeonato Brasileiro de 1990 começar era de terra arrasada, de pessimismo completo. Para começo de conversa, a eliminação da Seleção na Copa do Mundo machucava: queda precoce (oitavas de final – desde 1966 o Brasil não caía tão cedo numa Copa), com um estilo de jogo contestado por imprensa e torcida, em suas amplas maiorias.

No cenário estadual, poucas coisas estimulavam a mídia. Bragantino e Novorizontino eram merecidos finalistas do Campeonato Paulista, o título do Massa Bruta foi o impulso decisivo para a grande fase que o clube viveu naquele começo de década de 1990… mas a “Final Caipira” recebeu pouca atenção de jornais, revistas e televisões. Por exemplo, a Bandeirantes até exibiu a decisão paulista para todo o estado, mas a Globo só a mostrou para as cidades do interior.

No Rio de Janeiro, uma mudança no regulamento do Carioca levou Botafogo e Vasco a se julgarem campeões cariocas e até a darem uma volta olímpica cada um: o Botafogo, por ter mais pontos no campeonato e ter vencido a segunda partida da fase final com Fluminense e Vasco – que, por sua vez, julgava que o Botafogo deveria ter disputado uma prorrogação, pois já vencera o Fluminense na primeira partida da fase final. Só a Justiça Comum decretou que o Botafogo era o único campeão – aliás, bicampeão -, e a confusão afugentou ainda mais a torcida. No Rio Grande do Sul, com o Grêmio hexacampeão, o Internacional fora terceiro colocado (Caxias vice), e ainda vira Taffarel, um dos únicos a sair ileso da má campanha brasileira na Copa do Mundo, deixar o clube do Beira-Rio com fortes críticas à diretoria.

Além do mais, os brasileiros despontavam em outros esportes. No vôlei, a geração que seria medalha de ouro olímpica em 1992 começava com um bom quarto lugar no Mundial sediado no Brasil. No automobilismo, Emerson Fittipaldi fazia boa campanha na Fórmula Indy (foi 3º colocado nas 500 Milhas de Indianápolis), enquanto Ayrton Senna se sagraria bicampeão mundial de Fórmula 1, com Nelson Piquet conseguindo ótimo terceiro lugar no campeonato.

Tudo isso dava a incômoda sensação de que o Brasil era um país decadente no futebol, e que restaria a ele ver os países europeus dominarem o futuro, com a Argentina como país mais forte da América do Sul no cenário futebolístico da época. E isso teve reflexos na transmissão do Campeonato Brasileiro de 1990.

Só a Bandeirantes acreditou

No meio disso tudo, restava uma dúvida: qual emissora transmitiria o Brasileirão em 1990? Após a malograda crença da TV Globo na Copa União, em 1987 e 1988, o torneio fora transmitido em 1989 por três emissoras: além da própria Globo, Bandeirantes e Manchete exibiram o título do Vasco. Todavia, havia uma incerteza para o período seguinte, e já então o Clube dos 13 teria a responsabilidade (delegada pela CBF) de cuidar da venda dos direitos de transmissão.

A Globo tinha a prioridade na negociação. Porém, a pedida do C-13 afugentou a emissora dos Marinho. Com a negativa da entidade dos clubes em baixar o valor dos direitos, e um cenário combalido no futebol nacional, a Globo simplesmente… desistiu. Isso mesmo: a TV Globo não teve o menor interesse em exibir o Campeonato Brasileiro de futebol em 1990. Preferindo os investimentos em sua linha de entretenimento (com destaque para novelas, como “Pantanal”, o grande sucesso da teledramaturgia brasileira em 1990) e já começando a lidar com a crise financeira que forçou sua extinção nove anos depois, a Manchete também refugou.

Prato cheio para a TV Bandeirantes. Interesse não faltava à emissora dos Saad: afinal de contas, a chegada de Luciano do Valle e sua equipe, em janeiro de 1984, dera à Band um espaço incomum para o esporte, com muitos programas e a transmissão de vários eventos – sem contar as competições que a mente fértil e empreendedora de Luciano criava. Com tudo isso, anunciantes interessados também sobravam para as coberturas esportivas da Bandeirantes – geralmente elogiadas, como ocorrera na Copa do Mundo daquele ano.

Estavam criadas as condições para que ela desse uma cartada decisiva: por meio de BTNs (Bônus do Tesouro Nacional, espécie de “moeda” que a economia brasileira disponibilizava para cobrir correções monetárias), a Bandeirantes pagou o que o Clube dos 13 pedia. E ganhou o direito de exibir, com exclusividade, não só o Brasileirão de 1990, mas também o de 1991. De quebra, a Bandeirantes ainda comprou os direitos de transmissão das partidas finais da segunda divisão brasileira daquele ano, exibindo o título do Sport sobre o Athletico Paranaense. Claro, o canal paulista celebrou: “É um grande avanço para uma estação com programação basicamente esportiva. Estamos investindo em tiros certos”, exultou Nelson Guzzart, gerente de operações da Bandeirantes, ao guia da revista Placar para aquele campeonato.

O máximo que a Bandeirantes fez foi ceder à TV Cultura, estatal paulista, o direito de exibição de compactos dominicais noturnos, em troca do auxílio do pessoal técnico da Cultura nas transmissões em São Paulo. Para a Globo, quem diria, restou apenas exibir as imagens dos jogos em seus noticiários esportivos e telejornais – como faria no “Fantástico” de 16 de dezembro de 1990 e no “Jornal Nacional” do dia seguinte, noticiando o título do Corinthians.

Campeonatos exclusivos, televisão popularizada

Dos 204 jogos que o Brasileiro teve em 1990, a Bandeirantes exibiu 44. Cabia à direção de esportes decidir os dois jogos que seriam mostrados por ela ao vivo, e a partir disso cada emissora regional da rede escolhia qual dos dois lhe atraía mais. Claro, nada de partidas para a mesma praça em que elas aconteciam. O que não significa que o torcedor ficava sem vê-las: quando o caso era de um clássico paulista às 16h de um domingo, por exemplo, a Bandeirantes se valia do amplo espaço que era o “Show do Esporte”, das 10h às 20h, para exibir o clássico em questão, na íntegra, logo que ele acabasse, por volta das 18h. Sem contar, claro, os jogos mostrados nas noites de quarta-feira e quinta-feira, estes sempre ao vivo, às 21h.

Ter o Brasileirão com exclusividade era uma catapulta para aumentar ainda mais a popularidade da equipe de esportes da Bandeirantes. Principal narrador e diretor de esportes do canal, Luciano do Valle (1947-2014) era o primeiro carro-chefe – e trouxe ainda um “segundo carro-chefe” com a vinda de Silvio Luiz, em 1987. Só a precisão emotiva de Luciano e a irreverência criativa de Silvio já seguravam qualquer audiência, mas a variedade de locutores se ampliava com Jota Júnior, Marco Antônio Mattos (1938-2004), Alexandre Santos e Tércio de Lima (1936-2009) – este, restrito aos jogos do Brasileiro no Rio de Janeiro. A partir de 1991, mais um locutor se juntou ao grupo para marcar época: o gaúcho Januário de Oliveira, também dedicado aos jogos de clubes cariocas, que já fizera fama no RJ quando era narrador da TV Educativa, na década de 1980, mas veria sua popularidade e o alcance de seus bordões aumentarem mais ao ir para a Band.

Nos comentários, havia fartura de ex-jogadores: Rivellino, Mário Sérgio (1950-2016), Gérson, geralmente junto a outro símbolo daquela equipe, Juarez Soares. E nas reportagens, mais nomes que ficaram conhecidos do público por aquele tempo de Bandeirantes: Octávio “Tatá” Muniz, José Luiz Datena, Gilson Ribeiro, Marcelo Bianconi, Olivério Júnior e Flávio de Carvalho. Até mesmo as parcerias comerciais (leia-se merchandising) ajudavam os repórteres a se fazerem notar. Basta citar o hábito de José Luiz Datena em medir a distância de um chute que resultara em gol com a trena da Starrett, patrocinadora da cobertura da Bandeirantes. Claro, disso surgia o trocadilho “José Luiz ‘da trena'”.

Nas apresentações das transmissões, uma divisão: Elia Júnior e Luiz Andreoli se revezavam ancorando as partidas exibidas no meio de semana, enquanto a dupla clássica que apresentava o “Show do Esporte”, Elia Júnior e Simone Mello, apresentava as partidas exibidas aos domingos. Em 1991, mais duas chegaram para ancorarem as transmissões: Sílvia Vinhas, que já fazia parte daquela equipe como repórter, e a goiana Cléo Brandão.

A sorte ajuda São Paulo (e o Corinthians)

Apesar de transmitir nacionalmente o Campeonato Brasileiro, a Bandeirantes sempre se mostrou bem mais próxima de sua audiência e de sua origem paulistas. Algo que foi potencializado (para aborrecimento de muitos espectadores fora de São Paulo) pelas campanhas dos campeões brasileiros em 1990 e 1991. No primeiro ano, à medida que o Corinthians foi superando o mau começo para embalar, a Bandeirantes praticamente encampou a campanha corintiana. Fosse exibindo os compactos (como o 2 a 1 no Palmeiras, na primeira fase, VT narrado por Jota Júnior no “Show do Esporte”) ou os jogos ao vivo (como o 2 a 1 no Flamengo, em 4 de outubro de 1990, com Luciano do Valle, e o 3 a 1 no Atlético-MG, em 14 de novembro, com Silvio Luiz), a Bandeirantes foi criando intimidade com aquele grupo de jogadores – e com o técnico Nelsinho Baptista.

A intimidade aumentou mais nas fases decisivas do Brasileirão de 1990. Ficaram marcantes as narrações de Silvio Luiz para as partidas do Corinthians nas quartas de final, contra o Atlético Mineiro (2 a 1 no Pacaembu, 0 a 0 no Mineirão – no empate sem gols que garantiu a vaga corintiana nas semifinais, inclusive, Neto participou dos comentários na cabine da Bandeirantes, suspenso que estava do jogo, “antecipando” a carreira que passou a seguir em 1999), e nas semifinais contra o Bahia (outro 2 a 1 corintiano no Pacaembu, outro 0 a 0 na volta, na Fonte Nova, levando o time alvinegro à final). Ficaram famosas as críticas constantes de Mário Sérgio ao comportamento de Neto em campo, apontando que a participação tática do meio-campista era nula, caso ele não aparecesse para cobrar faltas com precisão.

Claro que a Bandeirantes exibia os outros jogos, todos ao vivo (e os que tivessem realização simultânea, em VT). Vieram as outras quartas de final, como o 1 a 0 do São Paulo no Santos em plena Vila Belmiro, com Luciano do Valle narrando. Ou os dois jogos entre Bragantino e Bahia – tanto o 1 a 1 em Bragança Paulista, com Marco Antônio Mattos narrando, quanto o 3 a 2 na Fonte Nova que levou o Tricolor de Aço às semifinais, com a locução de Tércio de Lima. Finalmente, na outra semifinal, São Paulo e Grêmio também tiveram as partidas transmitidas – tanto o 2 a 0 são-paulino na ida, no Morumbi, com Alexandre Santos na narração, quanto o 1 a 0 insuficiente do Grêmio no Olímpico, na volta, com Marco Antônio Mattos.

E se tornou inegável: Corinthians e São Paulo fizeram uma final “dos sonhos” para a Bandeirantes. A transmissão para todo o Brasil teve mais um ganho na equipe: Luciano do Valle, Juarez Soares, Rivellino e Mário Sérgio teriam o auxílio de Zico, que já fora convidado especial da Bandeirantes na cobertura da Copa de 1990. São Paulo também poderia ver aquela decisão na tevê: a liberação para a exibição das duas finais no Morumbi, em 13 e 16 de dezembro de 1990, veio em cima da hora. E o investimento na cobertura mereceu toda força da Bandeirantes: várias câmeras, incluindo uma num helicóptero.

A empolgação da emissora foi alta no 1 a 0 corintiano do jogo de ida (disponível tanto na íntegra quanto nos melhores momentos). E atingiu o ápice no outro 1 a 0 que deu o primeiro título brasileiro ao clube do Parque São Jorge – e deu à Bandeirantes a liderança na medição da audiência paulista pelo Ibope: 29,3 pontos, contra 11 pontos do SBT e 10,3 pontos da Globo. Era o prêmio pela aposta da Bandeirantes em exibir o Campeonato Brasileiro sozinha.


(Melhores momentos de Corinthians 1×0 São Paulo, jogo de volta da final do Campeonato Brasileiro de 1990, na transmissão da TV Bandeirantes, com a narração de Luciano do Valle)

E a Bandeirantes continuou aproveitando os dividendos na cobertura do Brasileiro de 1991, que seguiu o mesmo ritmo: jogos ao vivo três dias por semana (quarta-feira, quinta-feira e domingo – jogos simultâneos do domingo teriam a exibição do VT na íntegra às 18h, dentro do “Show do Esporte”), a mesma equipe, a mesma cobertura de grandes dimensões.

O entrosamento da emissora paulista do bairro do Morumbi era tamanho que Luciano do Valle, diretor de esportes, podia até deixar de lado o futebol e se focar nos esportes olímpicos em momentos decisivos. Basta notar o trabalho nas partidas da semifinal e da final. Quando Bragantino e Fluminense definiram lugar na decisão, o 1 a 0 do Braga na ida, em pleno Maracanã, foi narrado por Januário de Oliveira, enquanto Marco Antônio Mattos deu voz ao 1 a 1 no estádio Marcelo Stéfani (hoje, Nabi Abi Chedid) que levou o Massa Bruta à sua primeira decisão de Campeonato Brasileiro. Na outra definição de finalista, coube a Jota Júnior narrar o 1 a 1 da ida entre Atlético Mineiro e São Paulo, no Mineirão, enquanto Silvio Luiz deu voz ao empate sem gols no Morumbi, que levou o São Paulo à decisão.

E finalmente, Luciano do Valle pôde viajar tranquilo aos Estados Unidos para narrar Los Angeles Lakers x Chicago Bulls, a final da NBA daquele ano, enquanto Jota Júnior narrou o 1 a 0 do São Paulo no Bragantino, no jogo de ida da final de 1991 (aqui, a íntegra; aqui, os melhores momentos), e o trio Silvio Luiz-Juarez Soares-José Luiz Datena esteve no Marcelo Stéfani, em Bragança Paulista, para a transmissão da Bandeirantes no empate sem gols que deu o terceiro título brasileiro da história do São Paulo – aqui, na íntegra.


(Minutos finais de Bragantino 0x0 São Paulo, jogo de volta da final do Campeonato Brasileiro de 1991, na transmissão da TV Bandeirantes, com a narração de Silvio Luiz e os comentários de Juarez Soares)

Claro, àquela altura a TV Globo já notara que o futebol brasileiro merecia mais interesse. E tratou de comprar os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro de 1992, em consórcio com a Bandeirantes. No entanto, a transmissão exclusiva do Brasileirão em 1990 e 1991 foi uma prova de força do canal paulista. Mais do que isso, uma prova do valor que ela dava ao esporte, como Luciano do Valle lembrou na abertura da transmissão da final entre São Paulo e Corinthians:

“É o futebol, um esporte que finalmente, no ano de 1990, para nós, brasileiros, atinge um momento de êxtase, de clímax. Um momento em que a gente tem que dizer que a televisão tem muito a ver com isso que está acontecendo dentro do estádio Cícero Pompeu de Toledo. Porque, quando terminou a Copa do Mundo, ninguém queria fazer [a transmissão d]o Campeonato Brasileiro de futebol. Nenhuma rede de televisão tinha a intenção de cobrir com dignidade o maior campeonato de futebol do Brasil. Foi por isso que a Rede Bandeirantes acabou ficando com a exclusividade do campeonato. Porque eu sempre defendi a tese de que não precisa ter a exclusividade para mostrar um bom serviço. Porque a nossa equipe técnica, a nossa equipe de profissionais de microfone, é uma equipe que concorre com todas as televisões, não só daqui, mas do resto do mundo. Nós temos até essa ‘cara de pau’, entre aspas, confiamos no nosso taco. Mas acontece que ninguém queria comprar o Campeonato Brasileiro. Nós fomos lá e bancamos”.

Enfim, mais um dos momentos que fizeram a emissora dos Saad merecer o epíteto que ela própria tinha na época: o “canal do esporte”.

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