A Trivela apresenta uma série especial com a história da TV no Campeonato Brasileiro, em capítulos que serão publicados ao longo da semana, como prévia do torneio que começa no próximo fim de semana. A cada dia, um novo capítulo. Veja os outros episódios : parte 1parte 2, parte 3, parte 4 e parte 5.

Quando o Campeonato Brasileiro de 1986 começou, já se sabia: a intenção era partir das 44 equipes participantes dele, divididos em 4 grupos de 11 times, para que os 24 classificados à segunda fase (seis times de cada grupo) formassem a primeira divisão brasileira no campeonato de 1987. Porém, a partir da má campanha do Vasco – oitavo lugar em seu grupo -, surgiu uma série de casuísmos. Que tornaram o Brasileiro de 1986, conhecido como “Copa Brasil”, um dos mais confusos da história do futebol aqui. Que tiveram influência na organização do(s) Campeonato(s) Brasileiro(s) de 1987. E que, por fim, influíram no modo como a televisão cobriu a principal competição do ludopédio nacional em 1987.

Em meio à crise e à incerteza sobre o que seria do Brasileiro em 1987, em 7 de julho daquele ano, o presidente da CBF, Otávio Pinto Guimarães, decretou: a entidade estava sem dinheiro para organizar o torneio. Fosse verdade ou blefe – muitos acreditam que Otávio queria mesmo era afagar os chamados “clubes grandes”, de quem vinha se aproximando naqueles tempos -, o fato é que o anúncio do dirigente carioca foi o estopim para que os presidentes de São Paulo (Carlos Miguel Aidar) e Flamengo (Márcio Braga) se decidissem por uma ruptura, que tomou forma naquela semana. Mesmo que precisassem manter relações com a CBF, os clubes mais conhecidos de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul tentariam aumentar sua representatividade.

Em 11 de julho de 1987, nascia a União dos Grandes Clubes do Futebol Brasileiro. No popular, nascia o “Clube dos 13“. Que tentava manter boas relações com a CBF: até por isso, a aceitação de um representante do Nordeste, o Bahia. Mais do que isso: que até aceitou uma sugestão inicial da CBF para um primeiro esboço de regulamento do Campeonato Brasileiro de 1987, apresentado em 23 de julho, com 32 clubes divididos em três grupos: 16 do Módulo Verde (o Clube dos 13, mais Coritiba, Goiás e Santa Cruz), 16 do Módulo Amarelo (com clubes vindos do ranking da CBF, campeões estaduais e clubes com boa campanha no Brasileiro de 1986 sem presença no Clube dos 13, como o semifinalista América-RJ e o vice-campeão Guarani).

(Um parêntese: a partir daqui, quem desejar mais informações sobre a confusão entre Campeonato Brasileiro e Copa União em 1987 fica com duas fontes indicadas. A matéria “Crise, revolução e traição”, que Ubiratan Leal fez para a revista Trivela em 2007 e virou bibliografia básica sobre o furdunço, e “1987: de fato, de direito e de cabeça”, livro dos jornalistas André Gallindo e Cássio Zirpoli, mostrando as origens de Brasileiro e Copa União – e retratando o caminho do Sport até o seu título nacional)

Aqui começa a participação da televisão no futebol brasileiro em 1987. Porque o Clube dos 13 queria organizar o seu torneio no Módulo Verde, baseado no potencial mercadológico e popular inquestionáveis que seus 16 integrantes tinham. Mas de nada adiantaria aquela vontade sem dinheiro – e esse fato, somado à pressão da CBF, já fazia com que alguns integrantes pensassem seriamente em desistir do torneio. Havia um montante necessário: US$ 1 milhão. Sem esse montante, nada de campeonato do Clube dos 13. Sobre isso, trataria uma reunião dos clubes, em 24 de agosto de 1987.

Três dias antes, Márcio Braga dividiu sua preocupação com o publicitário João Henrique Areias, funcionário da IBM nas áreas de marketing e comunicação – e nas horas “vagas”, vice-presidente de marketing do Flamengo. Em seu livro “Uma bela jogada: 20 anos de marketing esportivo” (Rio de Janeiro, Outras Letras, 2007), Areias se lembrou de replicar ao presidente do Flamengo sua incredulidade com a dificuldade de uma união dos mais populares clubes brasileiros em viabilizar financeiramente um campeonato. Márcio Braga o desafiou: “Ah, é fácil? Pois então você tem até segunda-feira para elaborar um projeto e apresentar aos clubes na reunião”.

Só restou a João Henrique Areias passar na sede da IBM, pegar rascunhos de um projeto de comunicação que a gigante da área de informática tinha e passar o fim de semana debruçado neles, pensando o que apresentaria ao Clube dos 13 no 24 de agosto decisivo. Havia algo em comum: se a IBM era uma empresa conhecida, o Clube dos 13 era repleto de entidades célebres. Conforme o publicitário contou em seu livro, a solução veio de um outro assunto que o impressionava: “Martelava na minha cabeça a figura da apresentadora Xuxa, uma ex-modelo gaúcha sem qualquer apelo popular que, em poucos anos, havia se tornado uma febre nacional. Graças a quê? A uma caixa retangular chamada televisão”.

A Globo aceita pagar o preço – e lucra

De fato, Maria da Graça Meneghel se tornara um dos nomes mais conhecidos do país, vendendo tudo em que aparecesse – de LPs a bonecas – ancorada no amplo sucesso que seu “Xou da Xuxa” fazia na TV Globo, nas manhãs de segunda a sexta, desde 1986. Era da mesma força que o Clube dos 13 precisava. E João Henrique Areias apresentou isso aos dirigentes na reunião do C-13, em 24 de agosto de 1987, como evocou em seu livro de 2007: “Vocês precisam da televisão porque os seus clubes, em vez de aparecerem para 100 mil pessoas no estádio, vão aparecer para 30, 40 milhões. E as empresas patrocinadoras vão pegar carona nessa exposição toda. É uma questão de amplificação da mensagem”. Trocando em miúdos: o campeonato daqueles clubes tinha de estar na telinha. Ao vivo.

Num meio que ainda tratava a televisão como um veículo que afugentava público dos estádios (a começar pelo próprio Márcio Braga, que impedira as câmeras da TV Globo de filmar um Fla-Flu no Maracanã, pelo Campeonato Brasileiro de 1977), aquela exposição caiu como uma bomba. Os dirigentes dos clubes variaram profundamente de opinião. Na lembrança de Areias, Eurico Miranda, já então representando o Vasco como diretor de futebol, foi um dos que o apoiou. Por outro lado, Althemar Dutra de Castilho, presidente do Botafogo, foi definitivo: “Sigo achando que campeonato não se vende para a televisão”. Gilberto Medeiros, presidente do Internacional, foi até mais enfático: “Eu envergo, mas não quebro. A televisão não tem que estar presente”. Sem definição, Areias deixou a reunião.

Antes que os opositores da televisão se unissem à CBF de vez, Carlos Miguel Aidar e Márcio Braga contra-atacaram: em jornais, divulgaram o projeto de João Henrique Areias para viabilizar os custos da Copa União. Tiveram sucesso: os dissidentes em potencial amainaram o tom das críticas com a divulgação antecipada na imprensa, e o Clube dos 13 pôde procurar parcerias. A começar pela televisão. O próprio João Henrique começou a negociar, junto a Celso Grellet, diretor de marketing do São Paulo. Três emissoras se interessaram pelo torneio que nasceria: Globo, Manchete e Bandeirantes.

Dias depois daquela reunião tumultuada dos clubes, Areias e Grellet apresentaram o projeto à Globo, representada pelo diretor Ivan Borges. Grellet tinha até mais experiência do que o colega em negociações televisivas: afinal, fora ele que ajudara a final do Campeonato Paulista daquele 1987, entre São Paulo e Corinthians, a ser vendida às emissoras, por US$ 70 mil. Mas a Copa União precisava de mais gastos: a oferta era de US$ 3,4 milhões pela transmissão exclusiva do torneio. Ivan Borges se assustou e vocalizou o susto ao diretor carioca: “João, US$ 3,4 milhões é mais do que pagamos para transmitir a Copa do Mundo de 1986“. Ao que Areias retrucou, mesmo sabendo da crise por que o futebol brasileiro passava: “Queremos recuperar um bem do povo brasileiro, a sua maior paixão, e fazer parte disso não tem preço”.

Areias buscava cativar a Globo, até por saber que a líder absoluta de audiência andava sofrendo na década de 1980 com a opinião popular, por atitudes discutíveis. Em seu livro de 2007, justificava isso: “Se a emissora se engajasse no resgate de uma paixão popular, poderia melhorar muito a sua imagem”. Mas a conversa com Ivan Borges não saía do lugar, e o diretor da Globo justificava: “João, eu não posso falar para as pessoas que estão me esperando que vocês estão pedindo tudo isso”. Novamente recebeu a resposta: “Ivan, se eu estivesse no seu lugar, eu ligaria agora para essas pessoas e diria que um maluco está propondo um valor insano pela compra do Campeonato Brasileiro. Mas ele quer ter a chance de convencê-los pessoalmente disso”.

Quem eram “essas pessoas” da Globo? Eram Ricardo Scalamandré, diretor comercial da emissora dos Marinho; Armando Nogueira (1927-2010), diretor de jornalismo do canal; Roberto Buzzoni, diretor de programação; e José Bonifácio “Boni” de Oliveira Sobrinho, vice-presidente de operações. Areias e Grellet conseguiram a chance de se reunirem com “as pessoas”, em 31 de agosto de 1987. E enfim, a Globo aceitou pagar os US$ 3,4 milhões para transmitir com exclusividade a Copa União, por cinco anos de contrato, exibindo ao vivo 42 dos 126 jogos previstos. Pela primeira vez, o conceito de “direitos de transmissão” de um torneio completo surgia na televisão brasileira.

Daqueles 3,4 milhões de dólares, a Globo despejou US$ 2,1 milhões no cofre dos clubes, mais US$ 1,3 milhão em espaços institucionais de 15 segundos dentro da programação da emissora. Claro que ela teve suas contrapartidas: pela primeira vez, houve assumida interferência global na tabela do campeonato. Aliás, em toda a tabela do campeonato, feita pelo matemático Oswald de Souza, tradicional colaborador da Globo. E a assinatura daquele contrato foi feita, com a Globo dando pompa e circunstância, graças à divulgação da notícia no Jornal Nacional de 4 de setembro de 1987. A Copa União podia começar.


Trechos de Palmeiras 2×0 Cruzeiro, jogo de abertura da Copa União, em 11 de setembro de 1987, na transmissão da TV Globo, com a narração de Luiz Alfredo e os comentários de Carlos Alberto Torres

O modo de transmissão da Copa União

Pago o preço, a Globo teria direito a exibir três jogos por rodada, desde que não fossem mostrados para a mesma praça em que eram realizados. A “Sexta Super”, faixa às 21h30 desse dia da semana, geralmente destinada aos programas de entretenimento (especiais musicais e minisséries), teria o futebol como seu destaque, com inspiração no Monday Night Football da NFL. Aos sábados, mais um jogo, às 16h. E aos domingos, outra partida, às 16h. Todas essas partidas, exibidas para todo o Brasil.

Para evitar concorrência entre as praças no jogo do domingo, horário nobre do futebol, veio uma medida incomum: 15 minutos antes dos jogos começarem, um dos apresentadores esportivos globais (podia ser Léo Batista, Fernando Vannucci ou Sérgio Ewerton) sorteava qual seria o jogo dominical contemplado com a exibição para o território nacional. Cada narrador da Globo ficava na cabine do estádio, preparado para começar a transmissão. São Paulo tinha Luiz Alfredo e Oliveira Andrade como narradores da emissora do Jardim Botânico carioca; Minas Gerais tinha Fernando Sasso; o Rio Grande do Sul tinha a voz de Rogério Amaral ou Celestino Valenzuela; Salvador e Recife, capitais nordestinas contempladas na Copa União, teriam a narração do pernambucano Natan Oliveira; finalmente, as partidas jogadas no Rio de Janeiro tinham a narração de Galvão Bueno, já então o grande símbolo das coberturas esportivas globais. Nos comentários, Carlos Alberto Torres ou Raul Plassmann.

A prática do sorteio deu margem até a momentos hilários. Por exemplo, na quarta rodada do primeiro turno da Copa União. No domingo, 4 de outubro de 1987, havia quatro jogos no sorteio da Globo. Dois deles, garantia de audiência: São Paulo x Corinthians e Flamengo x Fluminense. Outros dois, Cruzeiro x Santa Cruz e Bahia x Goiás. Pois o ganhador foi Bahia x Goiás. E ao invés do 0 a 0 entre são-paulinos e corintianos ou do 1 a 0 do Fluminense no Flamengo, todo o Brasil viu o gol de Zé Carlos dar a vitória por 1 a 0 ao Tricolor de Aço na Fonte Nova.


Gol de Bahia 1×0 Goiás, pela Copa União de 1987, na transmissão da TV Globo, com a narração de Natan Oliveira

Mas a Globo contornava bem tais resultados. Mesmo que só mostrasse um jogo no domingo, todos os outros narradores trabalhavam nas partidas não exibidas. Afinal, todos os compactos da Copa União eram exibidos no “Esporte Espetacular”, então transmitido às noites de domingo, após o “Fantástico”. Assim os torcedores viram Corinthians 0x1 Fluminense, na voz de Luiz Alfredo, Flamengo 2×1 Vasco, Cruzeiro 3×0 Vasco (na voz de Fernando Sasso), Atlético Mineiro 3×1 Fluminense (também com Fernando Sasso narrando), Vasco 4×1 Corinthians e Flamengo 3×1 Santa Cruz na voz de Galvão Bueno…

A audiência da Copa União dava dividendos à Globo: era comum alcançar entre 30 e 40 pontos na medição. Sem contar as pesquisas adicionais: João Henrique Areias informava que uma pesquisa do Ibope mostrava que, se 72% dos homens e 52% das mulheres assistiam aos jogos na Globo, apenas 7% das pessoas diziam que a exibição das partidas na televisão interferia no hábito de irem ao estádio. A mesma pesquisa indicava: em São Paulo, as partidas da Copa União tinham audiência de 31%, contra 29% dos programas das outras emissoras. Em suma: nunca a emissora carioca dera tanto espaço ao futebol brasileiro em sua programação. Armando Nogueira comemorava a primeira vinculação (e a primeira interferência) maciças da emissora no futebol brasileiro, falando à revista Placar de 28 de setembro de 1987: “Ela [Globo] teve sensibilidade para perceber que vivemos um momento decisivo na história do futebol brasileiro. A Globo provou que está viva, refletindo um sentimento nacional”.

A prova de vida veio nas grandes audiências alcançadas nas partidas decisivas da Copa União. Com Galvão Bueno narrando e Raul Plassmann comentando (vindo da Rádio Tupi carioca, Raul estreava em televisão na emissora em que ficaria até 1995 – e depois, na subsidiária esportiva SporTV, até 2003), a Globo esteve no histórico Atlético Mineiro 2×3 Flamengo que colocou o time da Gávea na final, bem como na decepção cruzeirense do dia seguinte, com o 1 a 0 do Internacional na prorrogação, dando a vaga na decisão ao Colorado. Compactos daquelas duas semifinais foram ao ar no “Globo Esporte” do dia seguinte. Finalmente, a decisão. Tanto o 1 a 1 entre Flamengo e Internacional quanto o 1 a 0 que deu o título ao Flamengo (aqui, a decisão na íntegra) tiveram os compactos exibidos no “Esporte Espetacular”. Mais do que isso: foram exibidos ao vivo, com boa audiência – em São Paulo, praça sem clubes presentes na final, 43% dos televisores estavam sintonizados na Globo. Que pôde celebrar, ali, o primeiro grande envolvimento de sua história com o futebol brasileiro, como verdadeira parceira de mídia da Copa União.


Melhores momentos de Flamengo 1×0 Internacional, jogo de volta da final da Copa União, na transmissão da TV Globo, com a narração de Galvão Bueno e os comentários de Raul Plassmann

O outro lado: SBT acompanha a consagração do Sport

Porém, se de um lado a Copa União (Módulo Verde) era um sucesso, convinha não esquecer o regulamento. Algumas fontes dizem que o acordo se deu após o início da Copa União, outras mostram que já havia a ideia no primeiro esboço de regulamento da CBF. O fato é que estava previsto um cruzamento entre os dois finalistas do Módulo Verde e os dois finalistas do Módulo Amarelo, por mais que a assinatura do regulamento cause polêmica até hoje – afinal, o signatário do Clube dos 13 foi Eurico Miranda, inimigo de uns e próximo a outros tanto na entidade dos clubes quanto na própria CBF. Até por isso, o C-13 boicotou o cruzamento logo que soube da assinatura de Miranda, em reunião posterior.

Temerosos de que o regulamento não fosse cumprido, os clubes do Módulo Amarelo viram três partidas serem suspensas na rodada que ocorreria no mesmo fim de semana do início do Módulo Verde. Torcedores e dirigentes passaram a protestar contra a CBF, contra o Clube dos 13, contra as empresas que viabilizavam a Copa União. Uma das quais, claro, era a Globo – que até oferecera aos clubes 10% do montante pago ao Clubes dos 13, para que também exibisse as partidas do Módulo Amarelo. Considerada “ridícula”, a proposta foi recusada. E por meio de seu presidente, Homero Lacerda, um dos principais opositores do que o C-13 fizera, o Sport ameaçou ceder os direitos de transmissão das partidas do clube a um dos concorrentes do canal carioca: o SBT.

Naquele momento, passou em branco o interesse de Lacerda. Que nem precisou ser repetido: quando o Sport superou o Bangu e o Guarani superou o Atlético Paranaense para decidirem o campeão do Módulo Amarelo, o próprio SBT voltou à carga, interessado naquela final. E se a Globo mostrou o Flamengo x Internacional que definiu a Copa União, a emissora paulista negociou com Sport, Guarani e CBF a compra dos direitos de transmissão da final que fariam.

E o SBT transmitiu tanto o 2 a 0 do Guarani no Brinco de Ouro, na ida, quanto o 3 a 0 do Sport, na Ilha do Retiro, na volta. Estava acabado? Nem de longe: com a mudança repentina de regulamento da CBF na decisão, abolindo a regra do gol fora de casa, Sport e Guarani tiveram de jogar uma prorrogação na partida de volta, no mesmo 13 de dezembro de 1987 em que o Flamengo vencia a Copa União. Sem gols na prorrogação, vieram os pênaltis. Que seguiram até o empate em 11 a 11 nas cobranças: em comum acordo entre os presidentes de Sport (Homero Lacerda) e Guarani (Leonel Mendes de Oliveira, com participação de seu sucessor já eleito, Beto Zini), o juiz Josenildo Santos encerrou a partida naquele empate nos pênaltis, supostamente com o título do Módulo Amarelo destinado a ser dividido entre os dois clubes – posteriormente, o Guarani abdicou e o Sport foi considerado campeão do Módulo Amarelo.

Uma final tão longa que, quando o “Programa Silvio Santos” voltou da interrupção para a exibição da decisão, só restou ao próprio dizer: “Em virtude do futebol, nós não vamos ter o Show de Calouros hoje. Vamos ter o ‘Homem Cobra’, é um bom filme, na ‘Primeira Sessão’. Não temos tempo, o futebol começou, nunca mais acabou, e agora não temos tempo. Fiquem com o ‘Homem Cobra'”.

O fim (mesmo), com o SBT

Confirmado o boicote do Clube dos 13 e derrubada uma liminar suspendendo o cruzamento das duplas finalistas dos Módulos Verde e Amarelo, somente se jogou naquele cruzamento em 7 de fevereiro de 1988. E o SBT esteve lá para mostrar a festa do Sport com o seu título nacional, graças ao 1 a 0 no Guarani, com gol de Marco Antônio (aqui, a decisão na integra). Com transmissão para todo o Brasil, novamente interrompendo o “Programa Silvio Santos”, e equipe completa. Como narrador, Ivo Morganti – além de também ser um dos narradores do SBT na Copa de 1990, Ivo se faria notar apresentando o “Aqui Agora”, anos depois. Como convidado nos comentários, Clodoaldo. E nas reportagens no gramado da Ilha do Retiro, Jorge Kajuru e um nome improvisado: o ator Roberto Marques, conhecido como “Theobaldo”, intérprete do Guarda Juju n'”A Praça é Nossa” que Carlos Alberto de Nóbrega já apresentava na emissora de Silvio Santos.

Mais do que o título rubro-negro, Ivo Morganti celebrou na abertura daquela transmissão o fim do longo imbróglio: “Decidindo o título que vale, o título do campeonato brasileiro que vale. É isso que o torcedor quer, é vir ao estádio, é presenciar a decisão, não é ver a decisão no tapetão, decisão com liminares, com advogado de paletó e gravata”.


Compacto de Sport 1×0 Guarani, partida que definiu o Sport como campeão brasileiro de 1987, na transmissão do SBT, com a narração de Ivo Morganti e os comentários de Clodoaldo

Copa União 1988: o desalento da Globo

Antes mesmo da situação de 1987 ser definida e dos campeonatos começarem, a CBF quis antecipar a definição do regulamento do Campeonato Brasileiro de 1988. Exatamente para manter boas relações com a CBF e para evitar insurreição ainda maior dos clubes preteridos na Copa União, o Clube dos 13 apoiou a decisão: 12 times do Módulo Verde e 8 times do Módulo Amarelo formariam os 20 participantes da Copa União de 1988. A proposta de Nabi Abi Chedid, diretor de futebol da CBF, foi prontamente aceita. Porém, o C-13 pressionou posteriormente, e os 20 clubes passaram a ser os 16 do Módulo Verde de 1987, mais quatro do Módulo Amarelo. Depois, por pressão de quatro clubes que entraram na Justiça exigindo lugar no torneio de 1988 (Criciúma, Portuguesa, Vitória e América-RJ), o número de clubes na segunda edição da Copa União subiu para 24.

Em 1987, Juca Kfouri era diretor de redação da revista Placar, apoiadora de primeira hora da Copa União – como a própria Editora Abril, que lançou o álbum de figurinhas da competição. Já no começo de 1988, Juca foi contratado pela TV Globo, para comentar jogos e também ser o nome do esporte no Jornal da Globo, noticiário noturno da emissora. E o jornalista paulista comentou a André Gallindo e Cássio Zirpoli: pela vontade da Globo, a composição Clube dos 13-CBF para o Brasileiro de 1988 nunca teria acontecido. “[O maior erro do C-13] foi o de ter aceito a proposta conciliadora do Nabi para 1988, apesar do Boni ter garantido o apoio da Globo para manter tudo como estava”. Ou seja, manter uma Copa União fundamentada no C-13 e rompida com a CBF.

Frustrada após o apoio, a Globo até mostrou com exclusividade o título do Bahia na Copa União de 1988 (ali, sim, reconhecido como o único Campeonato Brasileiro). Mas desgostou do futebol brasileiro, naquele momento. E a concorrência aproveitou, como se veria no começo da década de 1990.

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