A Trivela apresenta uma série especial com a história da TV no Campeonato Brasileiro, em capítulos que serão publicados ao longo da semana, como prévia do torneio que começa no próximo fim de semana. A cada dia, um novo capítulo. Veja os outros episódios : parte 1parte 2, parte 3, parte 4 e parte 5.

À medida que a década de 1970 terminava e a de 1980 começava, paulatinamente a televisão começou a dar ao futebol o espaço e a importância que ele merecia no Brasil. Certo, o rádio ainda continuava predominando nos jogos menores, e ainda havia a possibilidade de uma decisão ficar sem transmissão televisiva direta para a cidade em que ela seria jogada. Mas essas proibições começavam a ser superadas pelos canais, que notavam a audiência rendida pelo futebol – e investiam nele, aos poucos. Neste segundo capítulo da série sobre a história da TV no Campeonato Brasileiro, a história de como a Manchete mudou o paradigma de transmissões com uma prática que se tornaria comum a partir dali.

Claro, naquele início de década de 1980, com o marketing esportivo ainda engatinhando no Brasil, era impossível falar de um meio plenamente profissionalizado quando o assunto era ter o direito de exibir um jogo na televisão. Para começo de conversa, o próprio conceito de “direitos de transmissão” de um torneio como um todo era quase futurista: o jeito era negociar a compra jogo a jogo.

E o “modus operandi” era tão resumido quanto complicado. A emissora de televisão queria mostrar uma partida? Que negociasse com os dois clubes envolvidos nela, mais a federação. A emissora não tinha como pagar o que os clubes e a federação pediam? Não havia conversa: a televisão não mostraria aquela partida. Talvez, não tivesse nem direito de filmagens rápidas para exibição em telejornais.

Foi o que aconteceu em duas finais de Campeonato Paulista, por exemplo. Na final de 1979, Vicente Matheus, presidente do Corinthians, exigiu montante acima do possível para as emissoras, e só compactos noturnos da vitória sobre a Ponte Preta foram exibidos na TV Cultura; em 1985, foi a vez de Oswaldo Teixeira Duarte, presidente da Portuguesa, inviabilizar a exibição ao vivo da final estadual contra o São Paulo – só Record e Cultura mostraram o título são-paulino, também em VTs à noite, na íntegra. De mais a mais, os clubes não precisavam muito do dinheiro que a televisão oferecia na época: as bilheterias ainda forneciam a maior parte da renda a ser embolsada.

Porém, como já dito, os canais começavam a suportar essa forma de operar, pela possibilidade de audiência que o futebol dava. Algo valioso, já que a concorrência crescia na televisão brasileira. Vencedora habitual nas medições, a Globo ainda patinava na transmissão de futebol: exibia as fases decisivas dos estaduais e do Campeonato Brasileiro, mas não era considerada uma emissora que se importasse muito com a modalidade, além de já conviver com a clássica crítica de moldar os horários dos jogos que mostrava à sua rígida grade de programação.

Prato cheio para as emissoras que competiam com ela e davam mais atenção ao futebol. A TV Record estava em séria crise nos anos 1980, mas se aguentava, ancorada no sucesso que suas transmissões faziam, tendo como carro-chefe as narrações irreverentes de Sílvio Luiz. A TV Bandeirantes já era tradicional no futebol antes de Luciano do Valle impulsionar a cobertura esportiva lá, e ficou ainda mais fortalecida a partir da chegada de Luciano e sua equipe, em 1984. E a TV Manchete começou sua história, em 1983, com o firme objetivo de buscar audiência nas classes A e B, incomodando a Globo – o que incluía, claro, a exibição de eventos esportivos. Até mesmo o SBT tinha lá sua equipe esportiva para mostrar os jogos do Campeonato Paulista, a participação da seleção brasileira nas Eliminatórias da Copa do Mundo, para transmitir Jogos Olímpicos e Copas em parceria com a Record…

Ainda assim, a concorrência mantinha algo de “sadio”. Na hora das grandes decisões do futebol, todas essas emissoras – Globo, Bandeirantes, Manchete, SBT, Record – buscavam pagar o que os times envolvidos nelas (mais a federação) pediam, a partir da velha prática do “pool”, nada mais do que um nome chique para a prática de dividir custos de compra de direitos e até de dividir equipes técnicas. O “pool” originava até momentos clássicos para quem trabalhava na parte técnica daquelas coberturas. Por exemplo: para que as imagens dos estádios pudessem ir dos satélites às antenas de tevê das casas, era comum os empregados das emissoras terem de instalar rebatedores – grandes cilindros – em lugares altos, para que os sinais “rebatessem” neles e fossem às antenas domésticas. Cabia aos técnicos instalarem rebatedores em montanhas, árvores altas, debaixo de sol, de chuva…

E assim, cotizando-se na compra dos eventos e compartilhando as agruras técnicas, as cinco emissoras abertas de televisão no Brasil iam conseguindo mostrar o futebol, dando opções aos espectadores e disputando a audiência. A concorrência seguia igual. Pelo menos, até a decisão do Campeonato Brasileiro de 1986.

A grande jogada da Manchete

Na fase decisiva do Brasileirão de 1986, as emissoras seguiam as práticas habituais. Com as perdas também habituais então. Bandeirantes, Manchete e Globo negociavam com as equipes que iam se classificando. As equipes geralmente recusavam a quantia oferecida. E as únicas emissoras que escaparam da ausência das semifinais na televisão foram as estatais. Por exemplo, a TV Cultura paulista. Responsável costumeira por ajudar as concorrentes com a retaguarda técnica no Estádio do Morumbi, a emissora da Fundação Padre Anchieta exibia compactos noturnos dos jogos, já a partir das quartas de final do Brasileiro. Às emissoras comerciais, só foram liberadas imagens para as reportagens feitas nas partidas, que iam ao ar nos telejornais ou nos noticiários esportivos: “Esporte Total” (Bandeirantes), “Globo Esporte” (Globo), “Manchete Esportiva” (Manchete) e “Record nos Esportes” (Record).


(Compacto da TV Cultura de São Paulo para São Paulo 2×0 Fluminense, jogo de volta das quartas de final do Campeonato Brasileiro de 1986, com a narração de Luis Alberto Volpe)

Só mesmo quando as televisões não podiam mais prescindir dos eventos é que gastavam, no desespero, o que os clubes pediam. Foi assim nas semifinais daquele Brasileirão: Globo, Bandeirantes e Manchete, as concorrentes mais fortes, enfim obtiveram os direitos de transmissão dos jogos que definiriam os finalistas, São Paulo x América-RJ e Guarani x Atlético Mineiro. E ainda assim, só para a transmissão dos jogos de volta. Claro, os destaques delas estavam a postos. O 1 a 1 do São Paulo com o América no Maracanã (São Paulo finalista, pelo 1 a 0 da ida no Morumbi) teve Galvão Bueno narrando na Globo, e Luciano do Valle como o locutor na Bandeirantes (aqui, aquela semifinal, na íntegra da transmissão da emissora paulista).


(Melhores momentos de América-RJ 1×1 São Paulo, jogo de volta das semifinais do Campeonato Brasileiro de 1986, exibidos no programa “Globo Esporte”, com trechos da transmissão da TV Globo, com a narração de Galvão Bueno)

Mas é claro que, se o Campeonato Brasileiro de 1986 já foi confuso por si só – tanto que as fases decisivas ocorreram já no início de 1987 -, as transmissões televisivas seguiram a regra na final. Tanto São Paulo quanto Guarani, cientes da importância daquela final, endureciam as negociações com o pool de emissoras interessadas naquela decisão. Ou o consórcio Globo-Bandeirantes-Record pagava 3 milhões de cruzados aos dois finalistas do Brasileirão, ou nada de final na TV.

Exatamente aí a Manchete viu a chance de se destacar em relação à concorrência. Se as diretorias são-paulina e bugrina estavam querendo Cz$ 3 milhões, o canal carioca da Rua do Russel subiu espontaneamente a oferta: ofereceu Cz$ 4 milhões a São Paulo, Guarani e CBF. Em troca, exibiria aquela final com exclusividade no Brasil. Negócio fechado. Se são-paulinos, bugrinos e interessados em futebol em geral quisessem assistir àquela decisão, teriam de vê-la na Manchete, com a narração do experiente Walter Abrahão (1931-2011), os comentários do ícone que já era João Saldanha (1917-1990) e as reportagens de Laércio Roma – chefe de reportagem da ESPN Brasil, nos anos 1990 – e Helvídio Mattos, repórter de passagens marcantes por Cultura e ESPN.

Foi o que aconteceu, tanto no 1 a 1 da ida, no Morumbi (aqui, na íntegra e nos melhores momentos), quanto no arrasa-coração que foi o 3 a 3 da volta, no Brinco de Ouro da Princesa, em Campinas, com o gol de Careca no último minuto da prorrogação e o título são-paulino, nos pênaltis, coroando uma das mais emocionantes decisões que o Campeonato Brasileiro já viu em sua história. O máximo que a Manchete fez foi premiar a ajuda costumeira da TV Cultura: em troca do auxílio técnico, deu à Cultura o direito de também exibir aquela final (estão disponíveis no YouTube tanto a íntegra daquela final quanto os melhores momentos da transmissão da Cultura, na narração de Luis Alberto Volpe). Mas foi a Manchete que se deu bem entre as emissoras comerciais: na decisão por pênaltis, atingiu 38 pontos de audiência em São Paulo e 25 no Rio, pela medição do Ibope. A Globo patinou em 6 pontos na audiência paulista e 7 na fluminense; a Bandeirantes, traço nos dois estados.


(Momentos decisivos da transmissão de Guarani 3×3 São Paulo – São Paulo 4×3 nos pênaltis -, jogo de volta da final do Campeonato Brasileiro de 1986, na TV Manchete, com a narração de Walter Abrahão e os comentários de João Saldanha. Postado no YouTube por Êgon Bonfim)

Só restou a Globo e Bandeirantes fazerem as reportagens sobre a conquista do São Paulo para seus noticiários esportivos (aqui, a reportagem exibida pelo canal dos Marinho no “Globo Esporte” de 26 de fevereiro de 1987, dia seguinte à final). E as queixas pelo “furo” da Manchete no pool foram imensas. Em reportagem na revista Placar de 30 de março de 1987, Sílvio Luiz, narrador e diretor de esportes da Record, lamentava: “Inflacionaram o mercado”. Paulo Mattiussi, diretor executivo de esportes da Bandeirantes, bombardeava: “Foi um comportamento antiético. Afinal, há quase dois anos o pool funcionava bem, com consultas e negociações de alto nível”. Diretor de esportes da TV Manchete, Alberto Léo desconversava: “Não fizemos nada de errado. Apenas oferecemos uma proposta melhor”.

O que se sabia era que, se a prática do pool possibilitava às emissoras dividirem custos e oferecerem opções, a medida da Manchete escancarava o desejo que todas tinham: terem exclusividade em certos eventos. Foi o que a TV Globo fez, a partir daquele 1987: tão logo foi derrotada na final do Brasileiro de 1986, buscou a compra dos direitos para exibir o Pré-Olímpico de futebol, sediado na Bolívia, e a Copa América, sediada na Argentina.

Mais do que isso: a TV Globo foi parceira única e de primeira hora na Copa União, como se lerá no texto desta quarta-feira.

Apoie a Trivela! Venha ser um Padrinho ou Madrinha no projeto de financiamento coletivo. Seu nome aparecerá na lista de Padrinhos e você poderá fazer parte da nossa comunidade. A partir de R$ 10, você apoia o jornalismo independente e nos torna mais forte. Vá ao Padrim e se cadastre!

Já que você chegou aqui, queremos a sua atenção. A Trivela traz informação com viés analítico e crítico, de forma a entrarmos nas conversas mais importantes do mundo do futebol. Para mantermos isso, precisamos de mais leitores comprometidos conosco. Apoie o jornalismo independente da Trivela! A partir de R$ 10 reais por mês você joga no nosso time, nos ajuda a manter o site, o podcast, fazer mais vídeos e matérias especiais. Seja nosso apoiador, é rápido e fácil. Muito obrigado!
Apoie a Trivela
Artigo anterior Aston Villa quebra recorde centenário com 10 vitórias consecutivas e se garante nos play-offs da Championship
Próximo artigo Loco Abreu assume como técnico de time salvadorenho, mas sem pendurar as chuteiras
Fechar