A Trivela apresenta uma série especial com a história da TV no Campeonato Brasileiro, em capítulos que serão publicados ao longo da semana, como prévia do torneio que começa no próximo fim de semana. A cada dia, um novo capítulo. Veja os outros episódios : parte 1parte 2, parte 3, parte 4 e parte 5.

Transmissões pela internet cada vez mais frequentes, sejam em quais plataformas forem – e é um cenário que não vai mudar, muito ao contrário. Os clubes brasileiros, percebendo cada vez mais a possibilidade deles mesmos tomarem o controle de suas imagens. Na televisão, a cabo ou aberta, um formato cada vez mais criticado: direitos de transmissão muito encarecidos, debates e mesas-redondas com discussões estéreis, jornalistas com posturas discutíveis…

E ainda assim, muitos torcedores seguem apegados à telinha, às memórias que as transmissões trazem. Prova disso foi o especial sobre as coberturas televisivas brasileiras para as Copas do Mundo. Entre os comentários, um deles (o autor merece ser mencionado: o mineiro John Souza) sugeria: por quê não uma série semelhante com o histórico de coberturas televisivas para o Campeonato Brasileiro e torneios correlatos, de 1959 até hoje?

Impossível fazer algo semelhante ao que se fez sobre as Copas, tanto pela falta de tempo hábil para textos tão grandes quanto pela falta de fontes para uma pesquisa profunda quanto aquela. Mas era possível fazer um material mais rápido. Sendo assim, está aqui a série, com alguns momentos fundamentais relacionando o Campeonato Brasileiro à sua cobertura televisiva, como uma preparação da Trivela para o Brasileirão que começa no próximo sábado. Até porque, em alguns momentos, os dois meios – televisão e futebol – acabaram resultando em momentos decisivos para os times que participavam da Série A. Como atualmente…

A história em si

Nos anos 1970, a importância da televisão para seguir o futebol no Brasil ainda era secundária, por mais que ela já tivesse cerca de vinte anos de história por aqui. Evidentemente que a tela menor se fazia presente nos campeonatos regionais e nacionais. No entanto, somente as partidas de fases finais mereciam exibições ao vivo – e ainda assim, se fosse liberada a exibição para a mesma praça em que elas ocorriam (às vezes acontecia, às vezes não). Em partidas de fases anteriores, era mais comum ouvi-las ao vivo no rádio, para ver os gols e melhores momentos em VTs noturnos. Ora exibido as partidas na íntegra, como acontecia na TV Cultura paulista, a partir das 23h, ora exibindo os gols e melhores lances, como geralmente ocorria na TVE fluminense e nos “Gols do Fantástico”, célebre quadro esportivo que encerrava o programa dominical da TV Globo.

Um desses momentos foi a semifinal do Campeonato Brasileiro de 1976. Num Corinthians ainda afligido pelos 22 anos sem títulos paulistas (ou 21, considerando-se que a rodada decisiva do título de 1954 ocorreu em fevereiro de 1955), chegar às portas da decisão de um título brasileiro já era uma tremenda massagem no ego corintiano, ainda que o adversário fosse o Fluminense, a respeitável Máquina Tricolor bicampeã carioca – cujo símbolo, Rivellino, tinha o nome marcado na história corintiana, mas deixara o clube do Parque São Jorge de modo traumático. Fosse pela mobilização massiva da torcida alvinegra ou pela ajuda de vascaínos, botafoguenses e flamenguistas, o fato era que o Maracanã ficaria lotado, equilibrando a disputa com a torcida tricolor.

Sendo uma fase semifinal, e tendo um “gancho” como a espera corintiana, era um prato cheio para as tevês a exibição daquele jogo em 5 de dezembro de 1976. E as emissoras estiveram lá no Maracanã. A TV Globo, com sua equipe principal: Luciano do Valle (1947-2014) narrando, Sérgio Noronha comentando, e José Luiz Furtado reportando. A TV Bandeirantes também estava lá com seus destaques: Fernando Solera como narrador, Luiz Augusto Maltoni (1934-2005) sendo o comentarista, e o repórter era Chico de Assis. Até mesmo a TV Gazeta, de alcance restrito ao estado de São Paulo, estaria transmitindo o Fluminense x Corinthians da “Invasão Corintiana”, com o narrador José Italiano (1931-1986), corintiano assumido, um dos integrantes da primeira formação da “Mesa Redonda” célebre da Gazeta.

Mas era na TV Tupi que aquele jogo teria um espaço insuspeito. O interesse daquela semifinal, tanto para o público paulista quanto para o carioca, faria com que a emissora dos Diários Associados interrompesse, só naquele domingo, a transmissão de um campeão de audiência: o “Programa Silvio Santos”. Senor Abravanel ainda não tinha um SBT para chamar de seu: contentava-se em deter a concessão da TV Studios fluminense (popularmente chamada TVS), e alugava o horário da manhã e da tarde de domingo na Tupi para apresentar o programa do qual segue como titular supremo no SBT, atualmente.

Mas naquele dia, nem Silvio Santos tiraria a atenção do que ocorria no Maracanã. Seu programa dominical foi interrompido. Com a narração de Walter Abrahão (1931-2011), clássico narrador da Tupi, os comentários de Rui Porto (1927-1990) e as reportagens de Eli Coimbra (1942-1998), tanto Tupi (em São Paulo) quanto TVS (no Rio de Janeiro) exibiram a mesma transmissão da dramática vitória corintiana, num gramado enlameado e num jogo mais pegado do que técnico – 1 a 1 nos 120 minutos, 4 a 1 Corinthians nos pênaltis.

De quebra, se estava interrompido pelo jogo, o Programa Silvio Santos organizou um sorteio de um carro entre os jogadores do Corinthians, numa mostra de indisfarçável parcialidade. Outra mostra de parcialidade? Wilza Carla, popularizada naquele 1976 como a Dona Redonda da novela “Saramandaia” que a TV Globo exibira (personagem gorda a ponto de explodir), estaria na transmissão de Tupi/TVS, fantasiada de… mosqueteira, mascote corintiana.

Uma propaganda de jornal divulgava: o “Programa Silvio Santos” cederia seu espaço parcialmente ao futebol, naquele 5 de outubro de 1976 (Reprodução/Folha de S. Paulo)

Periodicamente, Walter Abrahão informava o que ocorria na outra semifinal daquele Brasileiro, no mesmo dia. Outra semifinal histórica: coube às emissoras regionais gaúchas de televisão exibir o 2 a 1 do Internacional, futuro bicampeão brasileiro, no Atlético Mineiro, numa das vitórias mais dramáticas que o Beira-Rio já viu, com gol de Falcão aos 45 minutos do segundo tempo. Mas São Paulo e Rio de Janeiro viam Abrahão transmitir a partida, sem temor de usar os apelidos conhecidos para identificar os jogadores: “Capita” para Carlos Alberto Torres, zagueiro no Fluminense, “Super Zé” para Zé Maria na lateral direita corintiana…

As imagens da transmissão daquela semifinal se perderam nos arquivos da TV Globo. São pouco exibidas por Bandeirantes e Gazeta. Restou a transmissão da Tupi (e da TVS), ainda preservada pela Cinemateca Brasileira e periodicamente exibida pela TV Cultura, num dia em que o futebol colocou um freio na popularidade de Silvio Santos – e começou a mostrar a grande importância que (ainda) tem na televisão brasileira.

Compacto de Fluminense 1(1)x1(4) Corinthians, semifinal do Campeonato Brasileiro de 1976, na transmissão da TV Tupi, com a narração de Walter Abrahão, os comentários de Rui Porto e as reportagens de Eli Coimbra

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