Símbolo de entrega e liderança em uma época em que faltou ambos à maioria dos jogadores do Manchester United, Ander Herrera falou mais uma vez sobre sua saída do clube na última janela de transferências de verão. Contrariando a impressão de torcida e imprensa à época, o basco afirma que deixou a equipe inglesa não por questões financeiras, mas pela falta de reconhecimento ao seu trabalho expressa na demora para que o procurassem para renovar: “Achei que viriam dois anos antes do contrato terminar, (…) mas esperaram até que tivesse cinco ou seis meses de contrato”.

Ao assinar com o Paris Saint-Germain no início da temporada, Herrera, que estava de passe livre, acertou um salário de polpudas £ 300 mil semanais. Porém, o meia afirmou, em entrevista ao site The Athletic, que sua saída do Manchester United não teve nada a ver com valores.

“Não se tratava de dinheiro. Não foi sobre a duração do contrato oferecido. Na minha opinião, eu esperei tempo demais (por uma proposta) e merecia mais atenção do clube. Eu fui um jogador que deu seu máximo. Nunca reclamei, nunca fui à imprensa para reclamar de qualquer coisa. Nunca fiz cara feia para nenhum treinador, para nenhum membro da diretoria, e eles esperaram até que eu tivesse cinco ou seis meses restantes no meu contrato”, revelou.

Herrera diz que esperava que o clube o procurasse muito antes, em 2017, quando ganhou o prêmio de Jogador do Ano e tinha ainda dois anos de vínculo: “Fiquei triste. Mas, repito e quero deixar claro nesta entrevista, isso faz parte do futebol, da vida. Isso é apenas profissional, não tenho qualquer problema pessoal com eles”.

A gestão de situações como a de Herrera no United era e ainda é responsabilidade de Ed Woodward, controverso diretor executivo do clube. O jogador conta que, apesar de gostar do dirigente e de ele se tratar de “um homem muito bom”, tiveram discordâncias quanto à visão que tinham para a equipe.

“Eles tinham uma ideia diferente para o clube, para a equipe, e eu respeito isso 100%. Mesmo se eu vir o Ed Woodward amanhã, irei lhe dar um abraço, porque é a vida. Tive um grande relacionamento com ele. Ele é um homem muito bom, mas tínhamos algumas discordâncias quanto à equipe e ao clube. É isso.”

Ainda falando sobre o United, Herrera relembra os tempos de José Mourinho, repercutindo a opinião que muitos têm sobre o português: “O melhor treinador do mundo quando as coisas estão indo bem, mas, quando perde, ele não aceita muito bem”.

As palavras, vale ressaltar, não são uma crítica exatamente negativa ao técnico, que, segundo Herrera, admite ele próprio sua dificuldade em lidar com derrotas. “Isso é verdade, e ele aceita isso, não se esconde disso.”

O meia destacou que, em tempos bons, Mourinho tem excelente relacionamento com os jogadores e trata todo mundo muito bem. Mas, como também é frequentemente o caso com o português, as coisas começam a azedar por volta da terceira temporada, e Herrera lembra que havia algo nos corredores do clube.

“É verdade que os últimos seis meses foram um pouco diferentes, porque ele teve algumas discordâncias com o clube, e o time estava um pouco, sabe… Quando você vê seu treinador ter alguns confrontos com o clube, você não consegue desempenhar da mesma maneira. Tudo afeta a sessão de treinamento, tudo afeta o trabalho diário.”

“Alguma coisa estava acontecendo entre ele e o clube. Mas eu era apenas um jogador, não cabe a mim te dizer ou descobrir o que aconteceu. Eu estava apenas tentando fazer meu trabalho. Mas é verdade. A mesma coisa que vocês viam na época, nós estávamos vendo o mesmo. Alguma coisa estava acontecendo entre ele e o clube”, completou, em referência ao período da pré-temporada em 2018, em que Mourinho reforçava a necessidade da chegada de zagueiros, pedindo publicamente as contratações.

Sem querer traçar comparações entre os dois, Herrera então comenta o curto período em que trabalhou com Ole Gunnar Solskjaer, “a melhor pessoa que encontrei no futebol”. O basco recorda o efeito imediato que o norueguês teve sobre a equipe, muito graças à sua capacidade de se identificar com os jogadores.

“Logo que o Ole chegou, ele trouxe aquele sorriso para o vestiário. Ele estava pronto para escutar os jogadores, ele era mais como um amigo. Era um cara que, não muito tempo atrás, havia sido um jogador do United. Todo mundo se conectou muito bem com ele.”

“Sinceramente, ele é uma das melhores pessoas que já encontrei no futebol. Ainda mantenho contato com ele, porque ele é fantástico e merece ter sucesso. Não se encontra muitas pessoas como ele no futebol. Alguém tão sincero, tão pronto a ajudar, sempre do seu lado. Não importa a situação: contanto que você trabalhe e dê seu máximo, ele está lá por você”, comentou.

Nem só de Manchester United se tratou o papo de Herrera com o Athletic. O jogador falou também sobre o fim da Ligue 1, que considera precipitado demais, e esta nova realidade de futebol sem torcedores nas arquibancadas.

O meia lamenta que o PSG não terá as partidas do Campeonato Francês como preparação para o retorno da Champions League, em que o clube está classificado para as quartas de final após eliminar o Borussia Dortmund. Reforçando o coro de Jean-Michel Aulas, presidente do Lyon, vê as equipes francesas atrás das demais na competição pela falta de um torneio doméstico.

“Faremos nosso melhor para nos preparar nos treinamentos, provavelmente jogaremos alguns amistosos, mas não será a mesma coisa. É tudo o que podemos fazer, tentar competir entre nós no treino. Concordo com o presidente do Lyon, que disse algumas semanas atrás que a situação é terrível para os times franceses. Não é justo. Mas o governo decidiu terminar a liga, e precisamos nos adaptar.”

Ainda assim, diante da falta de novidades, Herrera sequer tem certeza se o restante da Champions League será mesmo disputado. E, caso isso acontecer, não há garantias de que o governo francês permitirá partidas no país.

“Não sabemos o que irá acontecer. Não sabemos se iremos jogar a Champions League ou não. Não sabemos se o governo irá permitir que joguemos na França. É uma bagunça, mas nós, minha família, estamos na Espanha, então estamos bem. O Lyon e o PSG não estão na melhor situação. (Os dirigentes franceses) Tomaram a decisão cedo demais. Acho que foram muito rápidos em cancelar e terminar a liga. Poderiam ter esperado um pouco mais para ver o que aconteceria, e agora podemos ver a Alemanha e a Espanha voltando, e eles até adiantaram os primeiros jogos para antes do esperado.”

Uma coisa é certa para Herrera: quando puder novamente entrar em campo para uma partida oficial, será ruim não ter os torcedores ao seu lado. Por mais que lamente, ele entende que se trata de um passo necessário no combate à pandemia do novo Coronavírus.

“Minha opinião é que o futebol sem torcedores não é nada, mas estamos percebendo agora que é o futebol é um negócio. Será horrível para os torcedores e para o futebol em geral, mas precisamos encontrar maneiras de curti-lo. O mais importante é que o vírus desapareça, passo a passo. Muitas pessoas ganham seu sustento no futebol, então espero que o futebol sem torcedores aconteça pelo menor tempo possível.”

Herrera olha com atenção para o que se discute atualmente na Espanha, onde existiria a possibilidade de que torcedores sejam permitidos no estádio, em capacidade reduzida, de acordo com o nível de contágio de cada região.

“Agora, na Espanha, estão falando da chance de jogar com 30% da capacidade dos estádios, o que não teria problemas, acho. Alguns bares e restaurantes podem abrir com uma capacidade de 50%, então por que um estádio, que é tão aberto, ao ar livre, não pode ter algumas pessoas? Claro, é preciso respeitar o distanciamento. As pessoas precisam viajar conscientemente e ir uma hora antes, em pequenos grupos.”

Ainda que considere que o desafio seja difícil e que as regras precisariam ser bastante restritas, mantém a esperança de que este possa ser um caminho a mais na volta à normalidade: “Precisaria ser bem organizado, mas é melhor que nada. Todo mundo tem que fazer sua parte para ajudar nessa situação”.