O Delfín deixou de representar uma surpresa no Campeonato Equatoriano em 2017, quando conquistou o título do Torneio Apertura. O troféu naquela metade inicial do torneio ainda não valeu a alcunha de “campeão nacional”, em um país que define apenas um vencedor por ano, mas já tinha rendido a vaga inédita na Libertadores. E o Cetáceo não precisou esperar muito tempo para soltar o verdadeiro grito da garganta. Neste domingo, o clube da cidade de Manta comemorou o inédito título de campeão nacional, ao faturar a Série A em cima da LDU Quito. Depois de dois empates por 0 a 0, a taça acabou definida por uma magra vitória por 2 a 1 nos pênaltis, suficiente para consagrar o Delfín. A façanha provocou a loucura nas ruas da província de Manabí, localidade na costa do Pacífico com 1,3 milhão de habitantes.

Fundado em 1989, o Delfín era figurante costumeiro na primeira divisão do Campeonato Equatoriano até a virada do século. No entanto, uma crise fez com que o clube despencasse a partir de 2001, chegando à terceirona em 2008. A recuperação só aconteceu nesta década. Campeão da terceira divisão em 2013, a equipe de Manta retornou à elite dois anos depois. Na Série A de 2016, a mera fuga do rebaixamento já satisfazia a torcida. Ainda assim, 2017 seria histórico com o título do Apertura, apesar da derrota na final anual contra o Emelec. E a curva ascendente se seguiu depois disso.

Presente na Libertadores 2018, o Delfín deu trabalho no grupo mais equilibrado do torneio. Terminou na lanterna da chave, mas com direito a vitórias sobre Atlético Nacional e Bolívar fora de casa. Já no Campeonato Equatoriano, o Cetáceo teve outra campanha honrosa ao terminar com a quarta colocação no geral. Voltaria à Libertadores 2019, apesar da eliminação para o Caracas na fase preliminar. Ao menos, pôde se concentrar na Série A e viu os resultados.

Com novo regulamento, o Campeonato Equatoriano aboliu o modelo de Apertura e Clausura. Passou a realizar uma só competição com dois turnos, garantindo os oito melhores nos mata-matas. O Delfín protagonizou uma campanha regular na fase de classificação, ocupando a quarta colocação. Ficou a nove pontos do líder Macará, mas registrou um bom desempenho como mandante e teve um dos melhores ataques do certame. De qualquer maneira, foi nos mata-matas que o Cetáceo deslanchou.

O Delfín começou a demonstrar sua força contra o Independiente del Valle. Após dois empates contra o campeão da Copa Sul-Americana, o clube de Manta avançou por ter a melhor campanha na fase de classificação. Depois, o Cetáceo conseguiu despachar o favorito Macará. A vitória por 2 a 1 na ida, dentro do Estádio Jocay, se tornou vital para derrubar os líderes com um empate na volta. Por fim, a LDU Quito surgia como desafio final, tentando buscar o bicampeonato equatoriano.

A decisão da Série A tinha gosto de revanche ao Delfín. Afinal, o clube perdera a final da Copa Equador para a própria LDU em meados de novembro, por conta dos gols sofridos fora de casa. Desta vez, o Cetáceo não deixaria a oportunidade escapar. Após o empate por 0 a 0 no Estádio Casa Blanca, a volta aconteceu em Jocay neste domingo. Outra vez o placar zerado prevaleceria, num jogo em que a LDU teve as melhores chances de gol. Assim, a definição do campeão acabou realizada nos penais.

Na primeira série de cobranças, os dois times converteram. Depois disso, começou o show dos goleiros – e da incompetência dos batedores. Na segunda série, Adrián Gabbarini pegou o tiro de Bruno Piñatares e deu esperanças à LDU, mas Pedro Ortíz também foi capaz de parar o badalado Antonio Valencia. Luis Cangá colocou o Delfín em vantagem no terceiro chute, enquanto Luis Caicedo mandou para fora. Depois disso, foram mais quatro erros. Ortíz defendeu os dois últimos pênaltis da LDU e confirmou a vitória apertada do Cetáceo por 2 a 1. Placar magro, mas redentor ao goleiro que quase foi substituído antes da disputa.

Treinado desde abril de 2018 por Fabián Bustos, argentino com passagens por diferentes clubes equatorianos, o Delfín soube superar as diferenças econômicas em relação aos seus oponentes. O Cetáceo tinha uma folha salarial que representava menos de um quarto do total gasto pela LDU Quito, mas conseguiu ser competitivo através de sua organização dentro de campo. O sólido 4-4-2 utilizado por Bustos fez a diferença nos mata-matas, sobretudo pela segurança defensiva que transmitiu.

Além do heroico Pedro Ortíz, a defesa também contou com a liderança do zagueiro paraguaio Williams Riveros e com a vitalidade de Pedro Perlaza no apoio pela direita. No meio, o argentino Sergio López e o uruguaio Bruno Piñatares formaram uma importante dupla, enquanto Robert Burbano despontou nos playoffs. De qualquer maneira, os principais responsáveis pelo sucesso são os atacantes Carlos Garcés e Roberto Ordóñez. Juntos, eles foram responsáveis por 25 tentos do Delfín e saem com moral da campanha.

Esta foi a primeira vez desde 2004 que o Campeonato Equatoriano consagrou um vencedor inédito. Além disso, nunca a província de Manabí havia erguido a taça, na terceira vez na história em que o troféu nacional não fica em Guayas (Guayaquil) ou em Pichincha (Quito). O Delfín quebra barreiras e consolida o seu projeto, mesmo sem gastar fortunas. O desafio será manter o equilíbrio, diante das possíveis perdas. Bustos é o primeiro que sairá, rumo ao Barcelona de Guayaquil. No entanto, um dos méritos do Cetáceo nestes últimos dois anos foi manejar as mudanças após o título do Apertura 2017. O salto depois disso foi até maior.