O futebol inglês acordou de luto nesta segunda-feira, com o anúncio da morte de Harry Gregg. O ex-goleiro do Manchester United e da seleção norte-irlandesa morreu aos 87 anos, conforme noticiou a Fundação Harry Gregg por meio de um post no Facebook. Segundo o comunicado, o herói dos Busby Babes “faleceu pacificamente no hospital, rodeado por sua família”.

O desastre aéreo de Munique é um episódio lúgubre e incontornável à história do Manchester United. A tragédia em 6 de fevereiro de 1958 é relembrada todos os anos pelo clube, que tem ainda em seu estádio um local específico para manter viva a história de suas vítimas e também sobreviventes. Um destes foi essencial para que outros também atravessassem com vida aquele trágico acidente. Harry Gregg, goleiro que havia chegado apenas dois meses antes ao clube do Old Trafford, foi, entre os detritos e chamas, herói ainda maior do que embaixo das traves.

A tentativa mal-sucedida de decolagem vitimou 23 pessoas, oito delas jogadores do United. O número teria sido maior se Gregg não tivesse, por duas vezes, retornado à aeronave para salvar alguns de seus companheiros, como o ídolo do clube Bobby Charlton e o lendário treinador Matt Busby, e Vera Lukic, esposa grávida de um diplomata iugoslavo, e sua filha Vesna, entre tantas outras pessoas.

Ampliando seu conto de bravura, resignação e luta, Harry Gregg estava de volta aos gramados apenas duas semanas depois, saindo sem ser vazado da vitória por 3 a 0 do Manchester United sobre o Sheffield Wednesday.

No mesmo ano de 1958, Harry Gregg foi destaque da seleção norte-irlandesa que chegou às quartas de final da Copa do Mundo, terminando o torneio como melhor goleiro da competição.

Em sua vida pessoal, Gregg enfrentou mais uma tragédia ao perder sua primeira esposa, Mavis, em 1961, vítima de um câncer de mama. Cuidou das duas filhas do casal sozinho, até se casar em 1965 com Carolyn Maunders, com quem teve mais quatro filhos.

Sua trajetória pelo Manchester United chegou ao fim em dezembro de 1966, quando deixou o clube rumo ao Stoke City. Com uma carreira marcada por lesões, fez apenas duas partidas pelos Potters antes de se aposentar, em 1967.

Ao longo de mais ou menos duas décadas, estendeu seu tempo no futebol com uma carreira como treinador, incluindo um período de três anos como preparador de goleiros do Manchester United, então dirigido por Dave Sexton, entre 1978 e 1981.

A história de Harry Gregg merece ser contada em todas as oportunidades possíveis. No triste dia que marca sua morte, resgatamos aqui a vida notável do herói do desastre aéreo de Munique traduzida pelas palavras caprichadas e sensíveis de Leandro Stein, em texto de fevereiro de 2018.

>> A história de Harry Gregg, o goleiro que salvou vidas no desastre de Munique <<<

Quando Harry Gregg acordou, em meio àquilo que mais parecia um pesadelo, pensava que estava morto. O goleiro do Manchester United se encontrava dentro da cabine de passageiros do Airspeed AS-57 Ambassador, aeronave que caíra nos arredores do aeroporto de Munique, após a terceira tentativa frustrada de decolagem. O norte-irlandês retomava a sua consciência, tentando recobrar os movimentos, mas sentia o sangue escorrendo sobre a sua face. Algo acertou seu crânio com força, deixando-o atordoado. Então, percebeu a luz que entrava na cabine. Chutou o buraco para conseguir escapar. Estava de volta à vida, ainda que a morte o rondasse tão de perto.

Gregg fazia parte dos Busby Babes desde o ano anterior. Fez sua estreia em 21 de dezembro de 1957, menos de dois meses antes do acidente. O goleiro de 25 anos começou a sua carreira profissional no Doncaster Rovers, após despontar na sua Irlanda do Norte natal. Apresentava um nível tão bom que se tornou objeto de cobiça do célebre time treinado por Matt Busby, bicampeão inglês ao Manchester United e também entre os clubes mais temíveis da Europa. Não à toa, os mancunianos quebraram o recorde da época na contratação de um goleiro, desembolsando a então astronômica quantia de £23 mil para contar com seus serviços. Era um sonho realizado ao novato, que logo se tornaria parte importante do elenco.

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