A Copa do Rei mudou seu regulamento nesta temporada e reduziu seu número de jogos. A partir de 2019/20, apenas as semifinais serão disputadas em ida e volta. A medida alivia o calendário dos grandes, mas também aumenta a possibilidade de zebras entre os pequenos, que precisam apenas de uma vitória em casa para surpreender. E, apesar da derrota por 3 a 1, o pequeno Unionistas teve o gosto de peitar o Real Madrid nesta quarta-feira. A equipe fundada em 2013, por torcedores do extinto Salamanca, não conseguiu segurar o jogo até o fim contra o mistão merengue. Ainda assim, complicou a vida dos poderosos e deu um motivo de orgulho à sua torcida por aquilo que ambicionou.

O Salamanca teve sua importância no Campeonato Espanhol durante o século passado. Tradicional integrante das divisões de acesso, a equipe chegou à elite pela primeira vez em 1974/75, permanecendo por lá até o início dos anos 1980. Retornaria à primeira divisão nos últimos anos da década de 1990, sem mais ascender desde a virada do século. A situação financeira se tornou difícil e, quando estavam na terceira divisão, os salmantinos precisaram fechar as portas em 2013, sem condições de bancar suas dívidas. Semanas depois, o Unionistas surgiu pelas mãos de antigos torcedores, que desejavam ocupar a lacuna pelo desaparecimento.

Desde os seus primórdios, o Unionistas teve o auxílio de alguns filhos ilustres. Vicente del Bosque nunca atuou por clubes da cidade, mas nasceu em Salamanca e se prontificou a ajudar financeiramente a iniciativa. Não há um mandatário na agremiação, que funciona a partir de decisões democráticas entre seus 2,8 mil membros. E, apesar da complexidade, o projeto não demorou a emplacar. Os castelhanos começaram na sexta divisão espanhola e conquistaram três acessos desde 2015, beirando os níveis profissionais de La Liga.

Já nesta temporada, a situação na terceirona não é tão simples ao Unionistas e a equipe corre o risco do rebaixamento. Todavia, o sorteio da Copa do Rei foi benevolente e deu a chance de encararem o Real Madrid. Seria um marco neste renascimento. Os nanicos até dispensaram a chance de fazer dinheiro com a renda em estádios maiores, preferindo atuar no pequenino Las Pistas del Helmántico – sua casa para 3 mil espectadores, que fica exatamente ao lado do principal estádio da cidade, para 17 mil.

Diante da situação, Zinedine Zidane escalou poucos medalhões para o compromisso em Salamanca. Marcelo e Dani Carvajal lideravam a defesa, Casemiro e Federico Valverde seguiam no meio e Karim Benzema era a referência no ataque, ao lado de Gareth Bale e Vinícius Júnior. O Unionistas começou dificultando as saídas do Real Madrid, com uma marcação alta. No entanto, os visitantes abriram o placar em Las Pistas logo aos 18 minutos. Após uma bola mal afastada pela defesa, Bale dominou no peito e bateu prensado para anotar.

Não foi isso que amedrontou o Unionistas. Os desafiantes continuaram numa rotação mais alta que o Real Madrid e faziam uma partida equilibrada, também com chances de gol. Os merengues administravam mais os passes e James Rodríguez quase ampliou aos 37, ao acertar o travessão num toque por cobertura. Já no segundo tempo, os desafiantes ganharam o direito de comemorar. Aos 12 minutos, Álvaro Romero buscou o empate com uma pintura. Se tamanho não é indicativo de talento no futebol, o rapaz 1,47 m de altura provou isso da melhor maneira. Depois de um passe errado de Marcelo, Romero ganhou a disputa com Militão no círculo central e disparou. Na entrada da área, o espanhol de 23 anos ainda fintou Nacho Fernández, antes de finalizar com muita qualidade, na gaveta de Alphonse Aréola.

A sorte do Real Madrid é que Brahim Díaz saiu bem do banco, após substituir o lesionado Bale. O empate veio cinco minutos depois. Os merengues trocaram passes até a área adversária, Marcelo cruzou e Brahim desviou. O lateral Juan Góngora até tentou afastar, mas mandou contra as próprias redes. Aréola evitaria o novo empate do Unionistas, espalmando no ângulo uma bomba de Carlos de la Nava. Entretanto, no fim, os anfitriões sentiram o cansaço e os madridistas desperdiçaram um punhado de oportunidades. Brahim acertou a trave, Vinícius parou num milagre do goleiro e Jovic ainda carimbaria o poste outra vez no rebote. Só nos acréscimos é que Brahim realmente marcou o terceiro, após grande jogada individual.

O Real Madrid não cumpre mais que sua obrigação ao se classificar e segue em frente às oitavas de final da Copa do Rei. Ao Unionistas, fica uma noite inesquecível. As arquibancadas estiveram lotadas, o time deu o seu máximo dentro de campo e talvez Álvaro Romero até descole uma chance maior com seu golaço. O prazer de uma noite grandiosa motiva os novatos em repetir os feitos do antigo Salamanca. Como diz o próprio escudo, o velho clube “está na memória”. Por isso, se aproximar de sua relevância poderia significar tanto aos fiéis torcedores.