Depois do fracasso no Monaco, Thierry Henry se prepara para sua segunda tentativa de fazer decolar sua carreira como técnico. Nesta empreitada, estará longe dos holofotes do futebol europeu, mas espera tirar aprendizados úteis para o futuro. No Montreal Impact, da MLS, o ex-jogador francês estará atento às circunstâncias e, pelo menos de acordo com suas palavras em entrevista ao L’Équipe, flexível às diferenças em relação ao que encontrou até aqui em sua trajetória depois de pendurar as chuteiras. Ainda assim, com cautela antes de qualquer julgamento a si próprio.

Contratado para substituir Leonardo Jardim no Monaco em outubro de 2018, Henry durou pouco no cargo, sendo demitido em janeiro de 2019. Depois de quase um ano, recebeu o convite do Montreal Impact em novembro, mas ainda espera sua estreia oficial no novo cargo, com a temporada 2020 da MLS programada para começar em fevereiro de 2020. Quase um ano desempregado, teve tempo para refletir muito sobre a nova carreira – e também para entender como é a vida de um técnico entre projetos.

“Quando se é treinador, não é possível entrar no ‘Sistema Nacional de Emprego’. Infelizmente, você tem que esperar que as vagas fiquem disponíveis. Desde que troquei de lado (de jogador a treinador), você sente uma fraternidade de treinadores. Você não quer que um treinador perca, mas está ciente de que se não tem alguém que perde em algum lugar, não haverá trabalho. Você não quer isso, mas olha para ele e pensa: talvez ali ou ali… Mas é preciso esperar que o seu telefone toque. Por isso, quando me perguntaram numa entrevista coletiva como foi (a sua vinda a Montreal), a resposta foi simples: eu tive uma oportunidade, e aí está ela.”

Em sua época de jogador, Henry trabalhou por pouco mais de oito anos com Arsène Wenger, um dos últimos sobreviventes de uma era de técnicos longevos – o francês ficou 22 anos no comando do Arsenal, sendo demitido em 2018. A paciência de outrora é passado, e, para Henry, as coisas mudaram e a urgência por resultados é grande.

“As pessoas hoje em dia querem que você crie um legado num curto período de tempo. É impossível fazer isso.”

Advertindo que seu objetivo não é querer se comparar a Jürgen Klopp, Henry aponta para o técnico do Liverpool para mostrar que mesmo um dos maiores treinadores do mundo, atual campeão da Champions League, precisou de tempo para implementar suas ideias – e que o contraste de trabalhos implicou em dificuldades físicas aos jogadores dos Reds no início.

“Quando ele chegou, as pessoas diziam que todos estavam se machucando, porque não tinham consciência de que a equipe costumava treinar de certa forma. Então, você muda para se adaptar ao jogo, visto que o Klopp gosta muito da pressão, e houve muita lesão de tendão. E também se podia ver a equipe marcando gols nos últimos minutos…”, relembra o francês, que à época da chegada de Klopp à Premier League trabalhava como comentarista da Sky Sports britânica.

“Leva de seis a oito meses para se adaptar. Depois disso, é preciso ver quem pode jogar no seu sistema… Agora todos dizem: ‘Meu deus, o Liverpool’! Mas demorou três anos e meio, mesmo para um grande treinador’. Ele não fez isso (vencer a Liga dos Campeões) em três meses ou mesmo dois anos”, completa Henry.

Desde que começou seu trajeto como treinador em 2015, inicialmente pelo Sub-18 do Arsenal em meio período, já que ainda trabalhava para a Sky Sports, Henry acumulou experiências como assistente na seleção belga de Roberto Martínez e a curta passagem pelo Monaco. Neste tempo, o que pôde observar é como coisas que funcionam muito bem em um grupo não se traduzem diretamente a outro.

“Na seleção belga, é preciso ter cuidado com como você fala com os rapazes. No Monaco, esse foi outro problema. É sempre diferente. E, se eu tiver que treinar em outro lugar, dirão que já não faço mais as mesmas coisas. A mesma coisa daqui a dez anos. Isso é evolução. Você leva as bofetadas e aprende… Tentamos as coisas e percebemos que antes elas funcionavam, mas, com esses outros jogadores, elas não funcionam”, reflete.

Ficam também os aprendizados de coisas mais básicas, dos erros não testemunhados, por exemplo, em seu trabalho no juvenil dos Gunners. “Se você tivesse me visto naquela altura, teria dito para si mesmo: ‘Ele não parece tranquilo’”, brinca Henry.

“Houve momentos em que coloquei os cones na posição errada, mesmo que os jogadores não notassem, outros em que esqueci de cronometrar as atividades, em que não levei coletes suficientes”, relembra.

O Montreal Impact estreia na MLS em 29 de fevereiro, contra o New England Revolution. Antes disso, tem compromisso pela Liga dos Campeões da Concacaf em 20 de fevereiro, contra o Deportivo Saprissa.