O futebol ser um esporte em que discutir saúde mental é basicamente um tabu não é puro acaso. Estamos falando de um universo ainda majoritariamente masculino, e é consequência natural que a dificuldade dos homens de se abrir em suas vidas pessoais seja carregada também para o campo. Mas tem gente disposta a mudar isso – e gente grande.

A BBC Two exibiu no último final de semana o especial “A Royal Team Talk: Tackling Mental Health”, ou “Conversa em Equipe Real: Abordando Saúde Mental”, um programa de uma hora em que o apresentador Dan Walker serviu como mediador de uma conversa sobre o assunto entre o príncipe William (presidente simbólico da FA) e cinco figuras importantes do futebol, Jermaine Jenas, Peter Crouch, Danny Rose, Gareth Southgate e Thierry Henry, além da participação de quatro torcedores comuns.

Os fãs bateram uma bolinha com os craques e trocaram também experiências sobre as dificuldades enfrentadas, mas o principal momento havia acontecido antes disso. Posicionados em um cenário de vestiário, no Abbey Stadium, casa do Cambridge United, o apresentador, Dan Walker, o Duque de Cambridge, o lateral do Tottenham Danny Rose, o atacante do Burnley Peter Crouch, os ex-atletas Jermaine Jenas e Thierry Henry e o treinador da seleção inglesa, Gareth Southgate, se abriram diante das câmeras como nunca haviam feito.

William é atualmente um ativista pela saúde mental dos homens, e o documentário foi transmitido em meio à campanha Heads Up, lançada pelo príncipe na última quarta-feira (15). “Precisamos de mais modelos se abrindo e falando disso. No mundo fora dos esportes, (…) temos várias pessoas em posições de liderança que têm problemas de saúde mental, mas não falam disso”, defendeu o Duque de Cambridge, que completou apontando para o fato de elas “ainda serem vistas como exemplo de sucesso”.

A ideia de chamar jogadores de futebol para falar sobre o assunto foi brilhante, não só porque o futebol precisa seriamente trazer a discussão para a mesa, mas também porque os telespectadores assistindo ao programa não estão acostumados a verem essas figuras que eles idolatram tão vulneráveis. Em um esporte impiedoso como o futebol, que exige tanta força de seus atores principais, ter essas figuras revelando suas dificuldades com saúde mental é o maior exemplo vivo de que se abrir não é fraqueza.

Problema generalizado no esporte

Segundo a Professional Footballers’ Association, associação dos atletas de futebol na Inglaterra e no País de Gales, um número recorde de jogadores está buscando ajuda para tratar problemas mentais, e a expectativa é de que o número em 2019 seja o dobro ou o triplo daquele de 2018.

Desde janeiro deste ano, 355 jogadores buscaram terapia. Durante todo o ano de 2018, o número foi de 438. Dois anos antes, em 2016, 160 atletas tinham procurado ajuda. Michael Bennett, diretor de bem-estar do jogador na PFA, vê o aumento como um bom sinal, por evidenciar uma maior confiança dos atletas na associação.

Uma revisão de 52 estudos publicada no British Journal of Sports Medicine identificou que o estigma é a principal razão pela qual atletas de elite com problemas de saúde mental não procuram ajuda. Ao todo, essas pesquisas abordaram 13 mil atletas de elite em 71 esportes diferentes.

As descobertas sugerem também que estereótipos de gênero, agendas lotadas e desconhecimento também desempenham seu papel na negligência da saúde mental entre os atletas.

Segundo os pesquisadores, órgãos de governo, federações e treinadores têm uma responsabilidade importante em ajudar a tirar o estigma da questão e a promover uma cultura de bem-estar mental.

O que o príncipe William e Southgate, Henry, Rose, Jenas e Crouch fizeram foi justamente isso. Um primeiro passo importante que abre as portas para uma discussão maior e mais extensa. É papel também dos meios de comunicação promoverem esse debate de maneira saudável.

Abaixo, separamos o que de principal cada um dos participantes da conversa na BBC teve a compartilhar sobre os percalços mentais que enfrentaram no futebol e a dificuldade de se expressar que impera no esporte.

Peter Crouch

Príncipe William e Peter Crouch, em programa da BBC (Reprodução/BBC)

O atacante do Burnley, com passagens por Liverpool e Tottenham, sempre foi alvo de piadas por sua estatura e seus trejeitos no campo. Ele lembra que, no começo de sua carreira como profissional, torcedores cantavam para ele questionando “se o circo sabia que ele estava ali”. Mas os problemas vinham de longa data.

“O futebol para mim era uma fuga. Todo mundo passa por problemas. Quando criança, eu era diferente do jogador de futebol comum. E eu tinha problemas com isso, ‘ninguém se parece comigo e joga futebol’, e a maneira como combati esses problemas foi pelo humor. Quando eu era criança, eu era diferente de quem eu conhecia, e sabia que essa pessoa ia me provocar, então eu sempre devolvia.

Quando eu fui para o time principal do QPR, antes de me verem jogar, eles me julgaram por minha aparência. Eu tinha a mesma altura e era talvez ainda mais magro do que sou hoje. Para mim, embora eu brinque com essas coisas hoje, nenhum adolescente quer passar por isso.

Os torcedores podem ser impiedosos. Eu tinha esses complexos. Eu costumava chorar quando criança, quando tinha 14, 15 anos. ‘Eu quero jogar futebol, mas eu não me pareço com ninguém que joga futebol.’”

Crouch conta que na época conseguiu se abrir com seu pai e outras pessoas próximas, e só isso lhe permitiu lidar com seus problemas de autoimagem.

“Eu teria tido muitas dificuldades (se não tivesse conversado com outras pessoas). Eu teria pensado: ‘Isso é para mim mesmo? Para que eu quero me expor na frente de 40 mil, 50 mil pessoas tirando sarro de mim?’.”

O jogador então relembra seu começo pela seleção inglesa. “Em um dos meus primeiros jogos pela Inglaterra, no Old Trafford, eu fui vaiado enquanto entrava, e minha família estava nas arquibancadas. Foi horrível, e fiquei pensando em minha mãe enquanto estava entrando, pensando que ela iria se acabar de chorar. Ainda bem que eu fiz tudo certo (naquele jogo).

Porém, quando eu jogava pela Inglaterra, por eu ser diferente, eu sentia que tinha que fazer gols em todos os jogos. E, ainda bem, eu fui bem, marquei vários gols pela Inglaterra, mas eu sentia que eu era sempre o plano B, nunca era a primeira opção, mesmo que estivesse marcando gols. Claro, tinha o Wayne Rooney, Owen, e tudo bem, eu entendo isso, mas eu definitivamente pensei que havia um estigma sobre mim por como eu sou, pela minha aparência.”

Jermaine Jenas, ex-jogador do Tottenham e da seleção inglesa, lembra da partida citada por Crouch no Old Trafford. Por suas palavras, aquilo o marcou.

“Eu não acho que você deveria menosprezar isso. Eu nunca vou esquecer esse dia, quando o Crouch entrou para jogar pela Inglaterra e foi vaiado. Levou-me muito tempo para entender como ele poderia estar lidando com aquilo, o país inteiro (o criticando). Eu lembro que ele errou duas cabeçadas, e então ele acertou a terceira, e todo o estádio gritou como se fosse gol, eles estavam agindo como se fosse um circo. O Crouch sendo o Crouch encontrou um mecanismo de defesa para lidar com as coisas, saindo com um sorriso no rosto, e ninguém via as dificuldades.”

Jermaine Jenas

Jermaine Jenas, em entrevista à BBC (Reprodução/BBC)

“Passamos por certas fases de nossa carreira sem poder explicar como nos sentíamos. Porque uma vez que você vai por esse caminho e diz qualquer coisa que seja um sinal de fraqueza, você não poderia entrar no gramado, porque você viraria um alvo. Porque é o nosso teatro, é o nosso lugar de entreter, mas também é um lugar em que vários jogadores podem desmoronar com a pressão que o esporte traz.”

Jermaine Jenas lembra que, como capitão no Tottenham, via Danny Rose repetidas vezes dizer que estava com saudade de casa, de ir para Doncaster, e que não podia jogar. Ele se arrepende de não ter percebido que algo estava errado. Jenas diz que, como time, como clube, eles ignoraram o problema e defende que os profissionais notem esse tipo de coisa, não apenas esperando o jogador se abrir. No caso de Danny Rose, demorou para o lateral se abrir.

Danny Rose

Danny Rose, jogador do Tottenham (Reprodução/BBC)

A temporada anterior à Copa do Mundo de 2018 foi dura para Rose. Às vésperas do torneio, em entrevista a diversos jornais, o jogador revelou que passou a ver um psicólogo e que foi diagnosticado com depressão. “Eu não contei para minha mãe ou meu pai, e eles provavelmente vão ficar muito bravos lendo isso, mas eu guardei para mim até agora”, contou o lateral à imprensa em junho de 2018.

O tratamento de Rose foi dificultado pela terrível notícia de que seu tio havia se suicidado, e ele diz que isso também foi um gatilho para seus próprios problemas com saúde mental. Os problemas se amontoavam fora do campo: em agosto de 2017, sua mãe foi vítima de racismo em Doncaster, e seu irmão quase levou um tiro no rosto: “Uma arma foi disparada na minha casa”.

A coragem de Rose de se expor assim e promover uma conversa sobre saúde mental não foi tão apreciada por todos. Na conversa com o príncipe William e os jogadores no documentário da BBC, ele conta que negociava com um clube e, depois da entrevista que deu, passou por uma situação constrangedora.

“Eu estava conversando com outro clube, e eles disseram: ‘O clube quer se encontrar com você, para checar se você não é louco’. Por causa do que eu disse e daquilo pelo que passei. Fiquei constrangido quando disseram isso.

No fim, eles não fizeram uma proposta. Mas pensar que as pessoas presumem ou pensam que eu possa ser louco é constrangedor, até hoje estou com raiva disso. Se a oportunidade aparecesse novamente, eu definitivamente diria não agora.”

Thierry Henry

Thierry Henry, ex-jogador (Reprodução/BBC)

Durante a conversa, Thierry Henry ficou visivelmente tocado com o depoimento de Rose. “Quando você sente que não tem significado você ser parte do time ou, indo até o extremo, viver, é quando se torna um problema. ‘O que estou fazendo? Qual o objetivo?’ E acho que uma das coisas que Danny queria era se sentir vivo de novo, se sentir relevante.”

Perguntado pelo apresentador Dan Walker se já havia sofrido depressão, o francês não soube responder. “Na verdade, não sei. Não fui diagnosticado, não podia falar com ninguém.”

O craque que escreveu seu nome na história do Arsenal e da Premier League ilustrou bem o tipo de solidão pela qual um jogador passa em sua carreira. “Quando você está num ambiente de vestiário, como homem, é quase proibido chorar. Quando você está sozinho, você está só naquele momento, ninguém te liga, ninguém te pergunta como você está, quando você está machucado, ninguém te visita de manhã para ver como você está. Você não está jogando, então você lida com isso sozinho.

Mas você nunca lidava com o problema, você seguia em frente. Porque você nunca esteve nessas situações em que você estivesse equipado para lidar com o problema. O único jeito que eu sabia era seguir em frente.”

Gareth Southgate

Gareth Southgate, técnico da Inglaterra (Reprodução/BBC)

Gareth Southgate sabe desde cedo o que é lidar com a pressão no futebol. Antes de virar símbolo de uma nova Inglaterra que começa a mostrar em campo o que seus jogadores mostram na liga, ele virou o rosto do fracasso da seleção inglesa na Eurocopa de 1996, ao perder o pênalti que eliminou a equipe na semifinal do torneio disputado em casa, diante da Alemanha.

“O processo depois (da derrota) foi bem amador. A imprensa do país inteiro estava do lado de fora das nossas casas, então estávamos lidando com aquilo sozinhos. A cada 15, 20 minutos, as pessoas batiam na porta, perguntando se você podia falar com tal jornal. Eu não queria fazer nada. O rescaldo imediato foi aquela sensação de, independentemente de onde eu fosse, ‘é, fui eu, eu fui o cara que eliminou a gente’.”

“Durante anos, as pessoas com crianças me apresentavam dizendo: ‘Esse é o Gareth, aquele cara, lembra daquilo?’ Essa é a narrativa que percorre sua vida. Joguei 700 jogos, mas sou aquele cara.”

À frente da seleção inglesa desde 2016, levando a equipe até a semifinal da Copa do Mundo de 2018, Southgate pôs como desafio para si mesmo mudar o ambiente na equipe, alterar a abordagem à saúde mental no elenco. Ele sentia que os jogadores ao longo dos anos estavam muito inibidos quando eram chamados para atuar pelos Three Lions, tudo devido à pressão fora do comum.

“Eu tinha a crença de que os jogadores ingleses podiam jogar de um jeito diferente. Eu via o time preocupado, não curtindo mais a experiência, e senti que era importante criar um ambiente em que os jogadores pudessem tentar as coisas e mostrar as habilidades que tinham.”

“Então, o ponto de partida foi tentar construir relações e um ambiente em que as pessoas pudessem ser elas mesmas. Joguei com caras que vinham no vestiário e que tinham problemas, e eu sabia de cara e podia conversar com eles. Acho que todo mundo pensa que é só com ele, e ainda assim o vestiário estava cheio de gente com experiências difíceis.”

“Você quer criar um ambiente em que todos se sintam seguros o bastante de forma que, se cometerem erros, eu não vou matá-los, porque, quando eu era muito criticado quando jogador, aquilo me impedia de tentar coisas como jogador e de ser melhor. Você limita o que é possível.”

Crouch brevemente faz um adendo ao que Southgate falava, dizendo que olha para a seleção hoje e enxerga jogadores com vontade de estar lá, o que nem sempre foi o caso.

“You’re getting sacked in the morning.”

“Algo pelo qual pessoas de diferentes classes passam é aquele momento de perder o emprego. E eu perdi meu emprego como treinador. E eu lembro aquela sensação de desesperança, porque eu vou para casa dizer aos meus filhos que perdi meu emprego. E as pessoas estão cantando nas arquibancadas: ‘Você será demitido amanhã de manhã’. Uma grande piada. Mas adivinha? Eu vou ser mesmo. E eu vou para casa e sou um fracasso.”