Bastou surgir, no fim da semana passada, a possibilidade de que dois jogadores da Premier League, um deles uma estrela com passagem pela seleção inglesa, se revelassem publicamente homossexuais para que a discussão sobre o tema no futebol ganhasse força. Infelizmente, de maneira pouco convidativa entre a maioria das pessoas, que fez piadas discriminatórias especulando quais seriam os atletas. Perguntado sobre o assunto, Thierry Henry foi taxativo: “Tornar isso um problema é que é o problema”.

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Em entrevista ao programa Sky News, da Sky Sports, emissora em que Henry atualmente trabalha como comentarista, o ex-jogador do Arsenal gostou da possibilidade de que dois jogadores do alto escalão do futebol inglês assumam publicamente sua orientação sexual. “Acho que é ótimo para o esporte, vamos progredir. É ótimo para todos, para qualquer ser humano. Não posso falar por todos, mas se eu estivesse em um vestiário, o cara ainda seria meu companheiro de clube. Eu ainda passaria a bola para ele, ainda o veria da mesma maneira, ainda sairia com ele ou almoçaria com ele. Somos todos seres humanos afinal de contas, então não me incomoda (a orientação sexual)”, explicou.

Henry criticou principalmente a forma como a imprensa trata o assunto, influenciando a percepção do público sobre um assunto que não precisa ser problemático: “Quando eu estava na MLS, o Robbie Rogers revelou que era gay. A primeira pergunta que faziam para mim, como você pode imaginar, era sobre isso. Eu dizia: ‘Para mim, não é um problema. Tornar isso um problema é que é o problema’. Saem perguntando se você acha que é certo ou errado. Bom, na sociedade em que vivemos, é ok, é normal. Então por que estamos tornando isso um problema? Para mim, não é um problema. Eu posso jogar com você. No fim das contas, estamos lá para fazer nosso trabalho”.

Apesar da maior multiplicidade de vozes, das novas maneiras de se produzir conhecimento e espalhá-lo, da maior repercussão de ações de movimentos sociais, entre tantas outras boas notícias acerca do assunto nos últimos anos, o futebol é um espaço da sociedade em que a resistência retrógrada encontra mais força.  Para Henry, passou da hora de todos aceitarem as diferenças, mesmo em um ambiente tão segregacionista. “O que estou dizendo é que as pessoas tornam isso um problema, quando já deveria estar tudo bem agora. Vivemos em uma época diferente, em um mundo diferente. As pessoas deveriam aceitar isso”, encerrou o francês.

Embora o cenário geral ainda seja desolador, iniciativas pontuais têm sido cada vez mais constantes na luta contra a homofobia no futebol. Na Alemanha, o St. Pauli segue fiel a seu posicionamento, e uma de suas ações mais recentes foi lançar uma camisa em combate à discriminação e a favor do debate de gêneros. Também no país quatro vezes campeão do mundo, um termo foi assinado pela Deutsche Fussball Liga, entidade responsável pelas duas primeiras divisões nacionais, como compromisso com o combate à homofobia.

Se a revelação de um jogador pouco relevante como Robbie Rogers, em 2013, foi suficiente para levantar muitas discussões que, de algum modo, ajudaram a fazer o assunto avançar no futebol, o mesmo feito por duas estrelas de uma das ligas mais vistas do mundo seria um catalisador ainda mais poderoso de possíveis avanços nesse sentido. Infelizmente, isso ainda está no campo da especulação. Mas mesmo isso pode ser suficiente para que discursos receptivos como o de Henry sejam repercutidos.