Henrique fez sua carreira praticamente inteira na França. O zagueiro formado pelo Flamengo foi levado ao Bordeaux aos 22 anos, pelas mãos de Ricardo Gomes. Em oito anos com os girondinos, conquistou todos os títulos possíveis em âmbito nacional e o moral no clube o elevou ao posto de capitão. Tempo e relevância que o permitem fazer uma leitura ampla da situação vivida no país, do futebol à economia.

Em entrevista à Trivela, Henrique falou do novo momento vivido na Ligue 1, com a ascensão de Paris Saint-Germain e Monaco. Dos efeitos das equipes bancadas por magnatas em clubes tradicionais do país afetados pela crise financeira, como o próprio Bordeaux.  O zagueiro também conta como foi trabalhar com Ricardo Gomes e Laurent Blanc, dois mestres em sua posição que se transformaram em técnicos de ponta na França. E também de suas próprias perspectivas na carreira, diante da possibilidade de voltar ao Brasil. Confira:

– Como você vê o impacto de PSG e Monaco na Ligue 1? Ao mesmo tempo em que são dois clubes cheios de estrelas, eles também diminuem o equilíbrio da competição?

O crescimento de PSG e Monaco é a melhor coisa que poderia ter acontecido com a Ligue 1, porque deu visibilidade ao campeonato. A liga é uma das mais duras da Europa, muito disputada, mas não era tão observada. Havia muitos jogadores de qualidade que ninguém conhecia, que só se tornavam grandes estrelas em outros países. Traz um olhar diferente sobre a competição. Quanto ao domínio dos dois, no resultado não existe isso. A Ligue 1 não é como o Campeonato Espanhol, onde Barcelona e Real Madrid goleiam todo mundo. São jogos muito duros, mesmo contra os pequenos. O PSG teve dificuldades para bater o Nantes e o Guingamp, que acabaram de subir. Por ser um estilo de jogo muito físico, o coletivo e o espírito de equipe contam bem mais do que o individualismo e as estrelas.

– Quais as impressões no Bordeaux sobre os adversários na Ligue 1? Quais os objetivos do clube neste momento?

A gente sabe que chegar entre os três primeiros é quase impossível. PSG, Monaco e Olympique de Marseille estão acima dos outros. O Bordeaux passou por problemas financeiros recentemente, não investe como deveria para disputar o título. Então, queremos ficar entre os cinco primeiros e alcançar pelo menos a vaga na Liga Europa. Sabemos da grandeza do clube, que merece disputar o título, mas a crise financeira afetou os clubes sem investidores, essa é a realidade.

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– Como a crise financeira afetou o Bordeaux? Quais os efeitos dessa situação dentro do clube?

O Bordeaux pertence ao Groupe M6, uma rede de televisão aqui na França, e a crise afetou bastante os proprietários e o clube. Vários jogadores precisaram ser negociados pela equipe, bons nomes que mantinham o clube entre os melhores na França. Quando conquistamos a Ligue 1 em 2009, muitos falavam que a gente ia ser igual o Lyon e dominar o campeonato por vários anos, porque a gente tinha uma equipe muito boa. Porém, sem investimento, o elenco acabou desmanchando e não conseguimos ficar no topo. Tirando isso, a crise foi igual para todo mundo. O St. Étienne adotou um modelo usado na Alemanha de gestão de salários e está servindo de exemplo para outros clubes franceses. Vai ser por aí.

– E como a crise afetou sua vida pessoal?

Eu tinha acabado de renovar o contrato, então não tive muitos problemas. Até recebi propostas interessantes para sair, mas que não foram boas para o clube e acabei ficando. O lado financeiro não pesou, mas profissionalmente algumas eram bastante interessantes. Especialmente diante da baixa do clube, sem disputar a Liga dos Campeões.

– Como você lidou com as propostas? Você deixaria o Bordeaux se recebesse uma oferta hoje?

Na época, as propostas me balançaram. Não era uma liga muito competitiva, mas seria bom profissionalmente. No ano passado, também recebi uma oferta do Brasil, mas o clube não liberou em dezembro, não queria ficar desfalcado para a metade final da temporada. Renovei recentemente por dois anos, então é muito difícil deixar o Bordeaux. Tenho uma afinidade muito grande com todos no clube, do presidente aos funcionários. Minha família gosta muito da cidade. Só deixaria se recebesse uma boa oferta profissional, com chance de disputar a Champions, a Libertadores se fosse ao Brasil.

– Recentemente, uma das questões que tem mais sido debatidas na França é o aumento de impostos sobre as camadas mais ricas da população, proposto pelo governo? Como essa notícia foi recebida por vocês, jogadores?

No começo, todos ficaram muito assustados. Já pagamos muito impostos, teríamos que gastar ainda mais com isso. Os jogadores chegaram a pensar em sair, mas depois a situação se acalmou. A proposta ainda está em votação, estamos no aguardo de como vai ser, porque é tudo incerto ainda. O que dizem é que a medida vai afetar mais o clube, então os jogadores ainda estão na dúvida, esperando para ver qual será a solução.

Joie Henrique

– Você trabalhou com o Ricardo Gomes no Bordeaux e chegou ao clube graças à indicação dele. Como você avalia o trabalho do Ricardo como técnico na França?

O Ricardo é como um pai para mim. Ele me trouxe para o Bordeaux e foi muito importante para a minha adaptação. Se fosse outro técnico, eu teria voltado para o Brasil. Ele sempre me orientava, tentava me acalmar sobre a adaptação no futebol francês. Além de tudo, ele fez um trabalho muito respeitado. Até hoje falam do time que ele montou aqui, perguntam para mim sobre ele. Ele ajudou a mudar a filosofia tática do Bordeaux e isso foi muito importante.

– O Ricardo Gomes até hoje mantém sua reputação na França. Mas o que você acha que atrapalha o sucesso dos técnicos brasileiros na Europa?

A mentalidade nos treinamentos é muito diferente. Tirando a pré-temporada, os europeus não trabalham tanto fisicamente. A forma como os treinos são conduzidos são distintas. Além disso, o técnico brasileiro sofre resistência. Com o Felipão no Chelsea, por exemplo, rolou trairagem dos principais jogadores, o que a gente sabe que acontece em um ambiente cheio de estrelas. Mas, para mim, os melhores técnicos são os brasileiros, pela forma de trabalho.

– Você mencionou sobre seus problemas de adaptação no clube. Quais as dificuldades você enfrentou?

Eu tive mais problemas no segundo ano. No primeiro ano, tínhamos um sistema defensivo muito forte e isso ajudou no meu desempenho. Depois, fiz uma temporada horrível. No meu inconsciente, eu relaxei, achando que já tinha conquistado o meu espaço, que tinha que jogar. Quando fui para o banco, queria voltar para o Flamengo, que chegou a fazer uma proposta para disputar a Libertadores. Mas o Ricardo Gomes me segurou, me explicou a situação, me fez entender no que tinha que melhorar. Depois de dois meses, dei a volta por cima, fui campeão da Copa da Liga Francesa marcando o gol do título. Agradeço muito a ele, porque, se não fosse isso, não teria essa história bonita que tenho no Bordeaux.

– Você tinha ressaltado o caráter físico do jogo na Ligue 1. Acha que isso te ajudou a entrar no time titular tão rapidamente, em seu primeiro ano?

No começo, eu não conhecia muito o Campeonato Francês. No Brasil, eu acompanhava mais o Italiano e o Espanhol. Eu me surpreendi pela velocidade do jogo, pela força dos atacantes. Eu me preparei bem, mas foi um pouco difícil pela questão física.

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– Você também trabalhou com o Laurent Blanc no Bordeaux? Como foi a convivência com o ex-técnico da seleção francesa? E por que você acha que ele teve tantos problemas disciplinares na passagem pela seleção?

Tenho um carinho enorme com o Blanc. Ele era um grande defensor, assim como o Ricardo, então me ajudou muito. Ele conhece bastante sobre tática e possui uma excelente leitura de jogo, com cinco minutos já identifica o que precisa ser feito. Para mim, ele fez um dos melhores trabalhos possíveis na seleção. Resgatou o bom futebol, que tinha se perdido até a Copa. Mas a França conta com uma nova geração que teve um problema lá atrás, não sei se na educação ou na base, que resultou nesses casos de indisciplina com o time principal. Agora, a forma de pensar é diferente com o Deschamps. Não acredito que farão uma boa Copa em 2014, mas têm tudo para deslanchar depois.

– Quem foi o melhor jogador com que você enfrentou na França? E o melhor com quem atuou ao lado?

O Benzema é um atacante muito difícil de ser marcado. Ele é rápido, sabe fugir da marcação, chuta com os dois pés. Surpreendeu que no Real Madrid ele não repetiu o sucesso do Lyon, não se desenvolveu como se esperava. Já entre os companheiros, destaco o Gourcuff ofensivamente. Ele teve vários problemas com lesões, mas viveu um período incrível quando veio do Milan para o Bordeaux. Defensivamente, falo do Alou Diarra, que dava muita consistência ao meio-campo, orientava o time. Era um jogador discreto, mas muito importante.

– Você ainda tem planos de voltar ao futebol brasileiro?

Sou evangélico, então não me programo para o futuro, deixo para Deus. É muito difícil que eu saia hoje, renovei o contrato recentemente. Mas se vier uma proposta de uma equipe competitiva, que me permita disputar a Libertadores pela primeira vez, eu verei. Mas o futuro a Deus pertence.

– Você se tornou capitão no Bordeaux e é adorado pela torcida. Acha que a concorrência atrapalhou seu sucesso na seleção, concorrendo com uma das melhores gerações de zagueiros?

Quando comecei a jogar, em São Gonçalo, eu era atacante. Mas um treinador me convenceu a me tornar zagueiro. Ele dizia que o Brasil não tinha tanto zagueiro bom, que era mais fácil chegar à seleção. Para mim, os melhores foram Juan e Lúcio, a dupla da Copa de 2010. E o Felipão continua com grandes zagueiros. Há algum tempo, a Ligue 1 não era tão visada, então não comentavam muito os jogadores daqui. O próprio Dante jogou no Lille e não apareceu. Eu não me sinto magoado, não foi só por mim. Alguns atacantes quase fizeram chover por aqui e não foram para a seleção. Eu me sinto feliz pela carreira que construí aqui, que me deu a oportunidade de ganhar títulos, de disputar a Liga dos Campeões. Não é que fiquei de fora da seleção que vou ser menos feliz.