Em meados de abril do ano passado, pouco antes das quartas de final da Champions League contra o Porto, Jordan Henderson chamou Jürgen Klopp para uma conversa. Com Fabinho estabelecido como primeiro volante do Liverpool, achava que poderia contribuir mais se retornasse à sua antiga função de camisa 8, um pouco mais avançado, o famoso meia área-a-área. Precisou ter personalidade para fazer a sugestão ao treinador e, ao mesmo tempo, teve o senso coletivo de esperar para que houvesse uma opção melhor para a posição.  É pela combinação desses dois aspectos que a braçadeira de capitão parece natural em seu braço, e todos os questionamentos foram sepultados pelo alto nível de futebol que conseguiu alcançar.

A reestreia foi na vitória por 3 a 1 sobre o Southampton, na 33ª rodada do Campeonato Inglês de 2018/19, com um gol e uma assistência. Deu mais dois passes decisivos no restante daquela edição da liga, outro na campanha vitoriosa na Champions League e, com liberdade para chegar à área, foi responsável pelo chute cujo rebote se transformou no primeiro gol da reviravolta contra o Barcelona. Fez Klopp pedir desculpas. “Foi culpa minha que por um ano e meio ele jogou como camisa 6”, disse, depois de Henderson brilhar contra o Porto. “Mas precisávamos dele ali”.

Henderson topa tudo que seja necessário para o time. “Como capitão e jogador deste clube, sempre coloco o time em primeiro lugar. Eu faço o que o treinador diz, mas eu senti que poderia dar minha opinião. Nos últimos anos, não tivemos um jogador como Fabinho naquela função, então eu tive que me adaptar e acho que fui bem. Eu apenas pensei que poderia receber um pouco mais de licença para avançar. O treinador falou que ia pensar. Eu posso fazer as duas posições. Depende do que ele precisa”.

Quando chegou ao Liverpool, em 2015, Klopp tinha Emre Can para ser o primeiro homem de meio-campo. Ao fim de seu contrato, o alemão decidiu se transferir para a Juventus e terminou sua passagem por Anfield machucado. Fabinho foi contratado, mas demorou alguns meses para se adaptar ao ritmo da Premier League. Quando foi necessário, Henderson exerceu aquela função e foi bem a ponto de fazer o mesmo pela seleção inglesa na Copa do Mundo da Rússia. Na campanha do título, quebrou o galho novamente como volante no fim do ano passado, quando o brasileiro se machucou.

E fez mais do que apenas suprir uma necessidade momentânea. É possível fazer o argumento que Henderson foi o melhor jogador do Liverpool, apesar de não ter números extravagantes – três gols e cinco assistências. Em um time homogêneo, em que nem mesmo as maiores estrelas se destacaram demais, a regularidade de Henderson foi a mais confiável. De camisa 6 ou de camisa 8, ditou o ritmo do jogo a partir do meio-campo, mordeu como ninguém e deu ordens, cobrou e organizou os companheiros. A mesma braçadeira de capitão que foi um fardo quando se agarrou em seu braço agora é usada com autoridade.

Henderson não teve um começo fácil em Anfield. Foi contratado por Kenny Dalglish, em uma leva de reforços garimpada com base em estatísticas. Algumas gotas do fracasso coletivo do pacote – Stewart Downing, Andy Carroll, Charlie Adam – acabaram respingando nele. Alex Ferguson achava que ele não sabia correr direito. Brendan Rodgers queria trocá-lo com o Fulham por Clint Dempsey. As primeiras temporadas com Klopp foram prejudicadas por lesão. E, em meio a tudo isso, acabou caindo em seu colo a responsabilidade de ser o sucessor de Steven Gerrard.

Quando Gerrard foi para o Los Angeles Galaxy, Henderson assumiu a braçadeira de capitão e também se tornou um constante lembrete em campo de que o grande ídolo desta geração de torcedores havia ido embora. Os biótipos são parecidos, ambos são ingleses e atuam no mesmo setor de campo. A comparação até natural impediu durante muito tempo que Henderson fosse apreciado pelo que é. Nunca seria Gerrard, mas poderia desenvolver seu próprio estilo de jogo e, principalmente, de liderança.

Precisou baixar a cabeça, trabalhar e provar que era jogador para o Liverpool. Mesmo antigas lendas questionavam se ele tinha qualidade para ser o capitão. Nunca foi unanimidade nas arquibancadas. Desde a adolescência, tem lutado. Aos 16 anos, foi diagnosticado com Osgood-Schlatters, doença que causa dores no joelho. Bem na época em que precisava convencer o Sunderland a não desistir dele. Como precisou convencer o Liverpool a não desistir dele e, hoje, não há jogador do elenco que desperdice a chance de elogiar a sua importância.

“Como pessoa, Henderson é uma das mais fantásticas que você pode conhecer”, disse Van Dijk, à ESPN. “Ele tem colocado o time antes de si mesmo há anos. O que eu gosto é que ele usa tudo pelo que passou – os momentos de baixa, as críticas, os problemas com lesões – para ajudar os outros a passar por situações similares. Qualquer jogador jovem que quiser um exemplo para seguir tem que ser ele. Ele é um líder fantástico, que todos respeitam muito no Liverpool, e estou muito feliz que ele seja meu capitão”.

Henderson mostrou seu valor. Não há mais dúvidas de que torna o Liverpool mais forte, mesmo que não comece jogando todas as partidas. O fardo da braçadeira de capitão transformou-se em uma medalha de honra. Foi ele um dos líderes da doação coletiva dos jogadores da Premier League ao combate ao coronavírus. Havia entrado ao panteão de capitães que levantaram a principal taça europeia, em companhia de Emlyn Hughes, Phil Thompson, Graeme Souness e Steven Gerrard. Muito em breve, fará algo que ninguém, nem mesmo aquele que durante tanto tempo produziu a sombra da qual precisava sair, conseguiu: levantar a taça da Premier League.

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