Jürgen Klopp finalmente conseguiu o título de Champions League que ele chegou tão perto, duas vezes. Para chegar lá, o treinador precisou adaptar o estilo dos seus times para melhorar. Klopp ficou conhecido por ser um futebol heavy metal, alta intensidade e um estilo conhecido na Alemanha – e depois no mundo – como gengenpressing. Seus times sempre foram muito ofensivos, correndo muito riscos e, ao mesmo tempo que marcava muitos gols, mas também tomava muitos. Para chegar à sonhada taça, eram precisos ajustes. E os ajustes foram na defesa para que, enfim, o seu Liverpool conquistasse seu título.

O que se viu em campo na final da Champions não foi um grande jogo, nem uma partida cheia de destaques individuais. O Liverpool ganhou um pênalti no começo do jogo, fez o gol e pôde trabalhar com alguma tranquilidade defensiva, sem correr tantos riscos. Só que antes, o Liverpool não sabia fazer isso. Não sabia jogar tirando os espaços e sem sofrer a cada vez que o adversário tem a bola nos pés. Em Madri, o Tottenham foi quem sofreu, e sofreu com a bola. Porque o Liverpool soube trabalhar para impedir que os Spurs tivessem chances.

A segurança defensiva passou por Fabinho como jogador de proteção, a consistência de Wijnaldum e Henderson, a força dos laterais e um time que aperta o adversário com a bola no campo todo. Alguns momentos, o Tottenham sofreu para sair jogando, porque os atacantes do Liverpool tiravam os espaços e obrigavam os jogadores dos Spurs a tentarem o passe longo. Mesmo nos momentos de pressão do adversário, o Liverpool não se desmontou. Manteve a defesa bem armada, sabendo o que fazer.

Não foi por acaso. Na Premier League, o Liverpool foi a melhor defesa. Foram apenas 22 gols sofridos. Alisson, o goleiro, é muito bom, faz diferença, mas o sistema defensivo permite que ele seja um dos goleiros que menos fez menos defesas na liga. Quando vemos a postura do Liverpool em jogos grandes ao longo da Champions. Nesta final, o Liverpool foi um time com menos pose de bola do que se habituou, trocou menos passes, e aproveitou que o Tottenham sofria para se armar ofensivamente. O processo para chegar a esse nível foi aos poucos.

O time melhorou defensivamente, se tornou mais seguro, não só por Virgil van Dijk, mas principalmente por causa dele. A defesa se tornou a melhor da Premier League e muito mais segura na Europa. Na final, sem grande brilho, o que ficou foi a compostura, a segurança defensiva. Como disse Mario Marra no podcast de balanço da Premier League: o heavy metal de Klopp se transformou em um rock progressivo, um pouco mais equilibrado, mais trabalhado, com a mesma intensidade, mas capaz de conseguir trabalhar a bola, se defender sem dar espaços e continuar sendo agressivo quando o espaço aparecesse.

Em 2013, com seu excelente Borussia Dortmund, perdeu do Bayern, time que bateu duas vezes na disputa da Bundesliga em 2010/11 e 2011/12. Depois, já no Liverpool, foi a duas finais europeias. Primeiro, no dia 2015/16, decidiu a Liga Europa, mas perdeu do Sevilla. Em 2017/18, chegou à final da Champions e perdeu do Real Madrid. Seus times sempre muito ofensivos, com muitos gols, muitos riscos e muitas emoções, inclusive com derrotas surpreendentes. No Liverpool, foram muitos altos e baixos, com vitórias incríveis, mas derrotas surpreendentes. Com isso, pontos ficaram pelo caminho e por vezes a disputa pelo título ficou também longe na Premier League.

A melhora defensiva é mais visível na Premier League, um campeonato que exige regularidade, além da intensidade. O Manchester City é uma prova disso: Guardiola, na sua primeira temporada, sofreu mais do que esperava, ficou em terceiro lugar e seus reforços tiveram foco na defesa. Tornar o time mais capaz de executar aquela intensidade ofensiva sem oferecer espaços aos adversários, sem sofrer tantos gols e, assim, conseguindo vencer mais jogos.

Klopp, como Guardiola, tem seus conceitos e alguns deles não são negociáveis. Mas os dois, como bons técnicos que são, conseguiram adaptar uma parte do seu jogo para melhorar, ser mais seguro e, enfim, vencer. O que foi feito na Premier League já tinha sido incrível. A Champions League foi a cereja do bolo, aumentando a imensa história do Liverpool na competição de mais prestígio entre os clubes do mundo. É preciso humildade e inteligência para admitir a mudança e conseguir realizá-la de modo a melhorar o time. Klopp fez e colhe os louros. Estará, para sempre, como o campeão da Europa em 2018/19.