Hansi Flick deu uma baita entrevista à Uefa, detalhando a mentalidade de seu trabalho e valorizando a força coletiva

Hansi Flick merece o devido respeito pelo impacto tremendo que gerou no Bayern de Munique e pela forma como, em poucos meses, transformou um time cambaleante em um campeão histórico. Nesta semana, a Uefa publicou seu relatório técnico sobre a última edição da Champions League. E o documento traz uma excelente entrevista com o comandante dos bávaros. Flick explica um pouco mais de sua mentalidade como treinador. Mas, mais importante, reforça a importância de entender o coletivo e atuar em conjunto para criar um ambiente vitorioso. Confira:

A volta do respeito ao Bayern

“Bem, sempre é uma questão de sucesso. Se você vence como fizemos, pressionando o time adversário, então logicamente eles irão te respeitar. E esse respeito acabou de voltar ao Bayern. Ele vem quando você joga de maneira bem sucedida e dominante, como fizemos. Desde que conquistamos uma série impressionante de vitórias, é natural que seus adversários tenham respeito”.

O desafio de assumir o Bayern

“Não tinha dúvidas sobre minha capacidade como técnico quando precisei assumir o Bayern, mesmo sem trabalhar no cargo desde 2005. No fim das contas, é a mesma coisa que em outras posições de liderança, há mecanismos diferentes, mas também alguns similares. Você é um líder, precisa liderar o time. E isso veio facilmente para mim, especialmente com este time. Algo com o qual você precisa estar atento é que cada jogador pode usar suas forças 100%. E como você pode fazer isso 100%? Quando você tem confiança e quando você curte o que está fazendo, se sente confortável com o grupo. Acho que fizemos um trabalho fantástico, toda a minha comissão técnica e os funcionários do clube, passo a passo. É por isso que penso isso, no fim foi uma jornada de sucesso em que nos unimos”.

A maneira de jogar do Bayern

“Queremos ter a bola. Quando o adversário tem a bola, precisamos ser ativos, queremos ativamente ganhar a bola de volta. Acho que isso foi óbvio ao longo dos jogos, a maneira como queríamos agir. E quando temos a posse, queremos ser determinados para chegar ao gol – não queremos apenas passar para o lado quando há a possibilidade de criar uma chance. Além disso, sempre é mais fácil quando você tem a posse de bola e quando você pode controlar seus oponentes. Mas, se nós perdemos a bola, queremos pressionar o oponente”.

O trabalho coletivo

“Ser técnico é sobre conhecer o seu time e isso é importante para mim, para conseguir o melhor. Todos grupos, todas companhias e todos os times têm seus requisitos para o sucesso, então você precisa saber do que precisam. O que preciso fazer? Para mim, é importante ter uma boa atmosfera e uma boa comunicação na equipe, e se tem algo negativo para dizer, é sempre pelo bem do nosso sucesso – não para desencorajar alguém, mas para melhorar, e acho que fizemos isso muito bem. Não faço isso sozinho: tenho um ótimo time de especialistas ao meu lado. Acho que é muito importante que um técnico tenha especialistas ao seu lado e se sinta confortável, porque eu tenho informações muito boas deles e aprendo algo novo todos os dias. Isso é importante também. Acho que estamos num caminho muito promissor aqui no Bayern”.


Hansi Flick com Leon Goretzka, do Bayern (Peter Schatz/Imago/Onefootball)

O valor de ouvir

“Sempre ouço os jogadores quando eles têm um conselho tático e levo todo mundo muito a sério. Para mim, isso é muito importante e algo que eu fazia como diretor esportivo na federação alemã. Sempre disse que, em uma reunião, todas as palavras são igualmente importantes, seja do diretor esportivo, do técnico ou dos treinadores da base. Cada palavra é importante e você sempre pode dizer algo. Acho que você apenas se beneficia quando tem a mente aberta e os jogadores podem algumas vezes sentir um pouco melhor o que é possível dentro de campo. Por que eu deveria dizer ‘ei, sou o chefe aqui!’ só por que sou o treinador? É sobre trabalhar juntos, e sou alguém que espera isso do time, que quer isso – que os outros apontem coisas para mim e contribuam com algo. É o técnico quem decide, mas as ideias dos jogadores e da comissão técnica podem fazer as decisões mais fáceis”.

Os três elementos para o sucesso

“Todo mundo tem uma maneira diferente de liderar o time, especialmente o técnico. Para mim, o lado humano se tornou muito importante depois de ganhar muita experiência com o passar dos anos, mesmo das décadas. Eu sempre digo que há três elementos que são importantes em uma equipe. O primeiro é que precisa haver confiança e lealdade. Qualidade tem que estar lá também, seja do treinador ou dos jogadores, e vocês precisam se divertir juntos. Se essas três condições forem cumpridas, penso que você tem uma boa chance de chegar ao sucesso”.

A comunicação no elenco

“Acho que agora temos uma boa vibração dentro do elenco. Isso pode ser no treino, quando os jogadores se ajudam para se superar a si próprios em cada situação, mas também nas partidas. O que nos ajudou em particular neste momento de pandemia é que nós temos jogadores que conversam muito entre si, que se comunicam com os outros e com a comissão técnica. Isso nos ajuda muito em campo”.

Como a mudança de mentalidade ocorreu

“Há muitos pontos sobre a intensidade. Um deles vem da partida contra o Borussia Dortmund em novembro, a minha segunda como técnico. Na primeira enfrentamos o Olympiacos em casa, mas então houve esse ponto alto com os 4 a 0 contra o Dortmund. Houve uma situação que surgiu, porque jogávamos de um jeito bastante diferente antes, queríamos ser mais ofensivos, defender mais à frente, e teve um momento em que um jogador me perguntou se não era muito perigoso. Eu respondi que não, quando avançamos com isso, e podemos seguir seguros atrás, iremos recuperar a posse”.

“Isso funcionou bem, acho que a vitória foi um tipo de confirmação aos jogadores de que eles realmente poderiam fazer isso e que era algo ao qual poderiam recorrer. Também a união é imensamente importante – que você defenda junto como time, coletivamente, e não apenas individualmente. Essas coisas nos fizeram muito bem e o time botou em prática brilhantemente. É importante ter alguém na frente como Lewandowski, que dita o ritmo, e atrás alguém como Neuer, que, como último homem, pode nos salvar em situações de passes longos”.

Hansi Flick ao assumir o comando do Bayern, em novembro de 2019 (Alexander Hassenstein/Bongarts/Getty Images/Onefootball)

Os riscos contra o Lyon

“Não fiquei preocupado com as chances que o Lyon criou atacando nossas costas. Logicamente, você não pode neutralizar sempre os adversários. Na partida contra o Barcelona, eles também tiveram um momento em que criaram várias oportunidades, mas nos defendemos bem. Contra o Lyon, foi um momento quando você precisa de tempo para se acertar no jogo. Esperávamos ir melhor no começo, mas isso é uma prova sobre a qualidade do time, que eles tenham voltado ao jogo depois das dificuldades, as quais tivemos sorte de superar. Ainda assim, os jogadores lidaram com isso, mostraram sua força e ganharam a partida. Sabíamos que o Lyon era forte no ataque, mas também firme na defesa. O jogo deles é mais vertical, gostam de jogar direto com os atacantes, e tivemos mais problemas com isso do que contra o Barcelona e também o PSG”.

O lado positivo de assumir riscos

“Eu foco no potencial resultado positivo das ações. Se você sempre se preocupar com o que pode dar errado nessa situação, com essa ação… Eu sou mais um otimista. É também por isso que, para mim, é importante que o time aja de certa maneira, que eles queiram jogar no ataque e criar chances de gol. De novo, é claro que também precisamos de um pouco de segurança na defesa, o que geralmente temos. E também temos o melhor goleiro do mundo entre os paus, Manuel Neuer, que nos salvou algumas vezes com suas defesas e tem um ótimo posicionamento. É por isso que eu acho que tudo funciona tão bem para nós no momento”.

O heroísmo de Coman

“Kingsley e Philippe Coutinho treinaram muito bem. Mas Kingsley foi criado no PSG e, contra seu antigo clube, você sempre está um pouco mais motivado ou sua motivação pode aumentar, e marcar um gol é ainda melhor. Ele também nos mostrou sua qualidade e como podemos contar com ele”.

A experiência com a seleção

“Cada experiência em sua vida pode ajudar em certa situação. Foi assim com minha experiência pela seleção, antes do Final Eight em Lisboa. Não olho com tanto apego ao passado, apenas numa situação em que esse tipo de experiência é necessária. Além do mais, dá para dizer que eu estava muito relaxado e que sempre há momentos, como numa semifinal, em que você já conseguiu bastante. Eu sei disso da minha passagem pela Copa do Mundo. Quando chegamos às semifinais, já tínhamos feito uma grande campanha, então já tínhamos completado os objetivos. Isso te dá uma certa segurança ou satisfação, mas também você sabe que tem uma grande chance de ir à final, que nessas duas partidas um grande sonho pode virar realidade. Esse foi nosso caso. Nós acreditamos em nossas forças e sabíamos desde o início que poderíamos vencer. Mesmo no dia da final, tínhamos um sentimento positivo”.

Thomas Müller com o então assistente técnico Hansi Flick na seleção alemã, em maio de 2014 (Martin Rose/Bongarts/Getty Images/Onefootball)

O objetivo claro

“Você sempre define seus objetivos antes dos torneios. E, é claro, temos o objetivo de ganhar depois de chegar tão longe. Depois de encerrarmos bem a primeira metade da temporada, antes do confinamento, dissemos que talvez tivéssemos a chance de conquistar a Champions, e isso virou nosso objetivo. Foi como queríamos entrar em cada partida. Mas também foi crucial pensar jogo a jogo e não ter os olhos na final antes disso. Foi muito importante pensar no próximo duelo de cada vez, como fizemos contra Barcelona e Lyon. Então, quando você vence, você celebra, o que também fizemos dentro das restrições. No fim das contas, enquanto você está orgulhoso do feito de seu time, você foca no que está por vir. Esse é um novo começo, uma nova temporada e um novo time. Temos que nos provar de novo”.

A situação da pandemia

“O que foi um massivo impulso para nós, como disse aos meus amigos, foi ter uma grande equipe ao meu redor, com especialistas. Em cada situação, nós nos agarramos ao plano original. Nunca pensamos no que ocorreria com possíveis mudanças. Em vez disso, focamos nos fatos que poderíamos reconhecer melhor. Claramente, a crise do coronavírus e o confinamento eram situações que afetavam o dia a dia, mas no futebol ainda podemos praticar nossa profissão e ganhar um bom dinheiro. Todos fazem sacrifícios em suas famílias, em seus grupos de amigos e, como tanta gente, eles sofreram e ainda sofrem, com muita ansiedade. Acredito que todos, ou muitos, de nossos jogadores e funcionários no clube tentaram apoiar várias coisas com o melhor de nossa habilidade. Temos uma responsabilidade, que mostramos e é o que poderíamos fazer”.

“Para mim, como técnico, no começo você tinha que transmitir a informação, mesmo as que não eram absolutamente certas sobre os efeitos do coronavírus. Há muita incerteza. Mas acredito que aqui na Alemanha nós lidamos muito bem com esse assunto. Fomos os primeiros a introduzir certos passos e a primeira liga a retornar aos jogos. Os aplausos precisam ir para todos que contribuíram e estou certo que podemos fazer isso, mas também temos que reconhecer os muitos outros que estão em situação diferente e precisamos ter consciência disso. Por isso, tenho muito orgulho do time, que uniu todo mundo (não só nossa torcida), com as pessoas dizendo que podiam se identificar com nossa conquista. Quando você não vê o mundo apenas com clubismo, isso mostra o verdadeiro espírito coletivo, o esforço do time e como os jogadores estão com os pés no chão. Isso me deixa realmente orgulhoso de ver”.